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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A "geografia cidadã", nova moda no ensino de geografia, nasceu da geocrítica

Acabei de responder a uma pequena entrevista por e-mail com uma aluna de geografia que está elaborando uma monografia sobre a chamada "geografia cidadã". Uma das questões era sobre o possível conteúdo doutrinador dessa nova proposta de ensino de geografia. Minha resposta é que, de fato, a geografia cidadã reproduz as práticas doutrinadoras próprias da geografia crítica escolar, podendo até ser considerada uma reedição desta última com um rótulo diferente.

De fato, uma característica da geografia crítica escolar é reciclar velhas ideias com novos rótulos, conforme eu comento no livro Por uma crítica da geografia crítica (Diniz Filho, 2013, Localização 177). No caso em questão, vemos que as ideias que dão base à geografia cidadã começaram a ser elaboradas há mais de vinte anos por geógrafos cuja visão de geografia e de ensino são totalmente definidas pela geocrítica. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

"Profunditude" nos debates intelectuais e políticos brasileiros

O jornalista e escritor Carlos Orsi, que trabalha com divulgação científica, publicou um texto interessante sobre o conceito de "profunditude" e  a aplicação deste na análise de fenômenos políticos recentes. Vejamos uma passagem do texto:
"Profunditude" é minha tradução pessoal para o neologismo da língua inglesa deepity, usado pelo filósofo Daniel Dennett para se referir a frases e expressões que têm dois sentidos: um verdadeiro e banal e outro supostamente profundo, mas falso. Resumindo, a profunditute só é verdadeira na medida em que diz algo trivial ao ponto da irrelevância; quando se tenta ler algo de relevante nela, torna-se falsa. Parece complicado? Talvez alguns exemplos ajudem: pense, por exemplo, naquela velha pérola da autoajuda, encruzilhada da espiritualidade prêt-à-porter com a Lei da Atração, "pensamentos são coisas materiais".
Na medida em que pensamentos são mudanças eletroquímicas que ocorrem no cérebro, trata-se de uma afirmação perfeitamente verdadeira: afinal, processos eletroquímicos são eventos do mundo material. Nesse nível, a afirmação é a mera constatação de uma banalidade. Mas, claro, quem usa a frase não está, na maioria das vezes - perdão -, pensando nesse sentido: o que a pessoa quer dizer é que pensamentos, por si sós, são capazes de causar mudanças no mundo externo ao corpo de quem pensa. Afinal, coisas que transformam o mundo, como meteoros, vulcões e tsunamis, são materiais. Se o pensamento também é, abracadabra! Nesse nível, não-banal, a afirmação é escandalosamente falsa (Cf.: Profunditudes e o mundo pós-verdade - itálicos no original).

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Comparar guerra com competição econômica é bobagem fácil e conveniente

Ontem, o canal Curta! reexibiu, pela enésima vez, o documentário Encontro com Milton Santos ou o mundo global visto do lado de cá, de Silvio Tendler. Honestamente, quem vê esse documentário nem precisa se dar ao trabalho de ler os livros que Milton Santos escreveu sobre globalização, os quais são tão superficiais quanto o documentário. Tais livros se resumem a repetir frases feitas contra a economia de mercado, não apresentando qualquer argumento lógico ou evidência empírica para sustentar suas críticas. 

Exemplo claro disso é quando Santos afirma que "a competitividade é um outro nome para a guerra, desta vez uma guerra planetária, conduzida, na prática, pelas multinacionais, as chancelarias, a burocracia internacional, e com o apoio, às vezes ostensivo, de intelectuais de dentro e de fora das universidades" (Santos, 1994, p. 35).

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O Brasil na globalização: crítica a Milton Santos

Recentemente, tive o prazer de orientar uma dissertação que reavaliou criticamente as ideias de Milton Santos sobre a globalização. Depois, eu e o orientando, Fernando Antonio Salomão Loch, escrevemos um artigo que acabou de ser publicado (Cf.: LOCH, F. A. S.; DINIZ FILHO, L. L. O Brasil na globalização: crítica à perspectiva de Milton Santos. Revista Geografar, v. 9, n. 1, p. 65-99, jun. 2014). Sendo assim, aqui vai um pequeno resumo. 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Um Bill Gates é melhor do que um Milton Santos

"Todo poder humano é uma mistura de paciência e de tempo. As criaturas poderosas querem – e velam [...]. Daí vem, talvez, a prodigiosa curiosidade que despertam os avarentos habilmente postos em cena. Cada indivíduo está ligado por um fio àquelas personagens que ofendem a todos os sentimentos humanos, resumindo-os todos. Onde está o homem sem desejo, e que desejo social se resolverá sem dinheiro?".
Honoré de Balzac, Eugene Grandet.

Milton Santos era daqueles intelectuais esquerdistas que manifestavam desprezo pelo consumismo, pela burguesia, pelas pessoas que batalham visando só pagar as contas ou acumular dinheiro, além de basear seus trabalhos acadêmicos no pressuposto de que competitividade e solidariedade são opostos. Durante uma aula que tive com ele na pós-graduação, a turma foi brindada com o seguinte comentário do professor: "o intelectual não precisa de dinheiro" (breve pausa expressiva) "porque o intelectual tem prestígio!". 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Desenvolvimento desigual é o último refúgio dos socialistas

Conforme procuro demonstrar em artigos e livros publicados, as dificuldades teóricas dos intelectuais críticos não se resumem à necessidade de explicar a crise do socialismo real e o abortamento das expectativas revolucionárias, pois é preciso também responder como tem sido possível ao capitalismo, em contradição com as previsões dos teóricos radicais, combinar crescimento econômico, melhora das condições de vida e democracia. Diante dessas dificuldades, os intelectuais socialistas apelam para o tema do desenvolvimento desigual, e se dividem em dois grupos.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Importância real do território é ignorada pela geocrítica

Os geógrafos críticos ou radicais sempre tiveram a pretensão de explicar a sociedade pelo estudo do espaço. O problema é que, na ótica da teoria social crítica, "explicar" a sociedade capitalista significa revelar as contradições que a estruturariam e que engendrariam os processos de luta política e de transformação socioeconômica. Nesse sentido, os geocríticos se veem forçados a apelar para um "malabarismo retórico" pseudo-dialético no intuito de provar que esse tipo de explicação não incorre em fetichismo ou determinismo espacial. E a mais explícita e mal fadada tentativa de realizar esse intento foi feita por Milton Santos ao elaborar uma "teoria do Brasil" pelo estudo do "território usado", conforme já comentei em outros posts. 

Agora, vou realçar que esse tipo de teorização acaba subordinando a pesquisa à ideologia e, ironicamente, faz os pesquisadores deixarem de lado justamente a importância que o território efetivamente tem para explicar certos processos sociais. Para tanto, basta reproduzir uma nota de rodapé da minha tese de doutorado, conforme segue:

sábado, 7 de julho de 2012

Caio Prado Júnior já havia cometido o erro de Milton Santos

Expliquei num post anterior que Milton Santos fracassou no esforço de elaborar uma teoria do Brasil, entre outros motivos, porque sua análise da história territorial brasileira não é capaz de mostrar em que esse país seria distinto dos outros a ponto de demandar uma teoria específica para explicá-lo. Para dar base à minha crítica, citei Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda como exemplos de autores que, ao tomarem o Brasil como objeto de teorização, teriam procurado mostrar que havia uma originalidade brasileira dada pela miscigenação, segundo Freyre, e pelas mudanças sócio-culturais trazidas pela urbanização pós-1880, segundo Holanda.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Milton Santos fracassou em elaborar uma "teoria do Brasil"

Com aquela pretensão que lhe era peculiar, Milton Santos escreveu que o livro Brasil: território e sociedade no início do século XXI tinha o objetivo de "fazer falar a nação pelo território", ou seja, construir uma teoria do Brasil pelo estudo do território usado (Santos; Silveira, 2003). Isso o colocaria no mesmo patamar dos grandes clássicos das ciências sociais brasileiras que tomaram o Brasil como objeto para a elaboração de teorias, caso de Gilberto Freyre, Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior, entre outros. 

terça-feira, 3 de abril de 2012

Dois anônimos, um assumido, e o padrão esquerdista

Recebi outros três comentários que merecem um post. O primeiro, porque foge à regra, e os outros porque, bem ao contrário, estão perfeitamente de acordo com o padrão das intervenções de esquerdistas em sites de notícias e blogs. Comecemos pelo comentário, de um Anônimo, que foge ao padrão (ainda bem).

domingo, 25 de março de 2012

Tese central de Santos, Harvey e Soja é só "malabarismo retórico"

Ao proferir uma fala sobre a geografia crítica, Paulo César da Costa Gomes fez uma afirmação de extrema importância. Ele disse que a definição de espaço como produto da sociedade encerra um problema epistemológico insolúvel, pois, se o objeto de pesquisa da geografia é apenas um reflexo, então qual seria a importância de estudá-lo? Em termos tanto científicos quanto sociais, o importante não seria estudar a sociedade que produz o espaço, ao invés de gastar energia tentando entender o reflexo que ela produz? 

Para contornar essa dificuldade, continuou ele, os geocríticos se veem forçados a realizar um enorme "malabarismo retórico" para justificar a ideia de que o espaço não é só reflexo, mas também uma instância "ativa". Ficam dando voltas e voltas para provar que o espaço é produto social e também produtor de relações sociais, mas que afirmar isso não significa cair num determinismo ou fetichismo espacial, pois o espaço não é algo externo à sociedade, mas uma instância da própria sociedade. 

quarta-feira, 7 de março de 2012

Dos "de baixo" é que não vem nada mesmo

Antigamente, ouvia-se com certa frequência um adágio bastante otimista que dizia o seguinte: "de onde menos se espera, aparece a solução". Como contraponto, o humorista conhecido como Barão de Itararé cunhou uma versão paródica: "de onde menos se espera é que não vem nada mesmo". Vale como aviso bem-humorado para os intelectuais críticos que, com o fracasso da tese marxista da centralidade operária, ficaram viúvos de uma teoria da revolução. As tentativas de cobrir essa lacuna são várias, e vou citar três agora. 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O problema da geografia rural brasileira

Respondo agora à pergunta que fiz ao final do último post: o grande problema da geografia agrária brasileira é a dissolução das fronteiras entre ciência e militância político-ideológica. A demonstração disso está na resposta que enviei ao autor que criticou meu parecer (ver aqui), conforme segue.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Rogério Haesbaert não admite, mas é um geógrafo crítico

Uma vez que a geografia crítica se tornou hegemônica, ninguém mais quer se assumir como um geógrafo crítico. Isso soa paradoxal, mas faz todo sentido. Se as teses fundamentais da geocrítica são aceitas por todos como verdades evidentes por si mesmas, que originalidade ou sofisticação pode haver no pensamento de um autor que se diz crítico ou radical? Por isso, é raro encontrar, além de uma Ana Fani Alessandri Carlos, quem continue a agitar a bandeira da geocrítica hoje em dia. 

Assim, falar em hegemonia da geocrítica significa dizer que mesmo autores que nunca se propuseram a desenvolver essa perspectiva reproduzem seus pressupostos essenciais. É o caso de Rogério Haesbaert. Ele trabalha quase exclusivamente com teóricos radicais, que incluem, além de Marx e Engels, uma gama de marxistas, pós-modernistas e ecléticos, tais como Milton Santos, David Harvey, Marcelo Lopes de Souza, Carlos Walter Porto Gonçalves, José de Souza Martins, Gilles Deleuze, Félix Gattari, Michel Foucault, Giorgio Agamben e Boaventura de Souza Santos (Haesbaert, 2006; 2004).

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A crítica das esquerdas ao consumismo também é demagogia

Uma das ideias mais empregadas para culpar o capitalismo pela dita "crise ambiental" é que as grandes empresas estimulam o consumismo, ideologia que obriga ao uso de quantidades crescentes de recursos naturais para a produção de coisas desnecessárias. Mas, como eu expliquei no post anterior, essa tese passa ao largo da incapacidade de decidir como deveria ser definido o equilíbrio entre poder de consumo, uso de recursos naturais e realização pessoal numa sociedade pós-capitalista. O melhor exemplo disso está num trecho de uma entrevista que Milton Santos concedeu à revista Caros Amigos, conforme segue: 

domingo, 25 de setembro de 2011

Gomes só não deu nome aos bois

Em um ótimo artigo, Paulo César da Costa Gomes (2009) afirma o seguinte: “a ideia de uma ordem espacial pode substituir a quimérica busca pelo domínio de um objeto específico e ao mesmo tempo significar a superação das causalidades simplistas, a tentação do fácil consenso banal e das respostas a priori, características que têm sido bastante nocivas à afirmação de um campo de análise efetivamente relevante para a geografia”.

sábado, 10 de setembro de 2011

Quem precisa citar fontes?

O geógrafo Herivelto Soares da Costa me enviou por email um comentário que complementa o que eu escrevi no post A retórica rasteira de Milton Santos. Eu havia comentado com ele que, quando Santos percebeu que qualquer coisa que ele dissesse ou escrevesse seria acatado pelos geógrafos e intelectuais críticos sem questionamentos, aproveitou-se disso para fazer retórica anticapitalista sem ter que se dar ao trabalho de apresentar evidências empíricas para provar suas afirmações. Herivelto complementou essa avaliação ao lembrar que Santos chegou a dispensar-se até de apresentar evidências documentais, conforme segue:

sábado, 3 de setembro de 2011

A retórica rasteira de Milton Santos


Quando Milton Santos dizia que a pobreza estava aumentando, muitos intelectuais acreditavam sem nem se incomodarem com o fato de ele não citar estatísticas para corroborar tal diagnóstico. Nas raras ocasiões em que era questionado, Santos contava com essa falta de senso crítico de intelectuais ávidos pela comprovação de suas ideologias anticapitalistas para descartar as críticas com uma retórica rasteira e contraditória

De fato, num debate em que o urbanista Jordi Borja contestou a afirmação feita por Santos de que a pobreza estaria aumentando, este se justificou da seguinte forma:

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A mitificação de Milton Santos

Poucos intelectuais brasileiros foram tão mitificados quanto Milton Santos, e não só pelos geógrafos. Certa feita, abri o Estadão e dei risada ao ler o seguinte: "Ele entra para a história intelectual do País não só por antever as perversidades da globalização e os fenômenos mundiais da urbanização, mas por ter revolucionado a geografia, ao entendê-la como uma ciência humana e não natural" (Pires, 2007, p. D9).