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sábado, 25 de fevereiro de 2023

Mais populismo: aumento do salário mínimo não reduz a desigualdade e nem a pobreza extrema

Já tem gente comemorando o aumento real do salário mínimo anunciado pelo Apedeuta em seu terceiro mandato. O problema é que esse aumento, além de piorar as contas públicas, na medida em que eleva o déficit previdenciário, não contribui para reduzir a desigualdade e a pobreza extrema.

De fato, Pesquisas realizadas pelo IPEA, com base nas informações da PNAD, demonstram que os aumentos do salário mínimo tiveram um efeito significativo de redução da desigualdade de renda nos primeiros anos do Plano Real, mas esse efeito já não se repetiu nos anos 2000 (Barros; Foguel; Ulyssea, 2006).

Uma explicação para isso é que a crise inflacionária de 1980 a 1993 havia feito com que o salário mínimo perdesse muito valor, afastando-se da média salarial. Daí que, quando o Plano Real estancou a inflação e o salário mínimo começou a subir mais rapidamente do que a média dos salários, o resultado foi uma sensível contribuição para o processo de redução da desigualdade de renda iniciado com esse Plano. Mas, em meados dos anos 2000, quando o salário mínimo já havia praticamente dobrado de valor, os novos aumentos reais aplicados já não tinham como alterar significativamente a concentração de renda. Além disso, os pesquisadores do IPEA levantam a hipótese de que, justamente por ter acumulado um grande aumento real de valor, o salário mínimo já está funcionando como um desestímulo à contratação de trabalhadores com esse nível salarial (Idem).

Outro motivo pelo qual não se deve esperar que aumento de salário mínimo ainda possa ajudar na redução da desigualdade é que, ao contrário do que se pensa, os trabalhadores mais pobres não se beneficiam desse aumento. Dados da PNAD para 2005 atestam que 20% dos trabalhadores brasileiros ganhavam menos do que o salário mínimo, enquanto na região Nordeste esse contingente ficava entre 40% e 50% dos trabalhadores. Isso significa que "o salário mínimo não é mínimo no Brasil" (Giambiagi, 2007, p. 90).

Daí que a elevação do salário mínimo também não é eficaz para a redução da pobreza extrema, já que os muito pobres ganham menos do que o mínimo! Mesmo em domicílios onde moram aposentados (que recebem uma renda pelo menos igual ao mínimo) há bem poucas pessoas situadas entre os mais pobres. Isso ocorre porque o valor do salário mínimo, dividido entre todos os membros de uma família de tamanho médio (quatro pessoas), já é suficiente para fazer com que a renda domiciliar per capita fique acima da linha de pobreza extrema. E isso mesmo sem considerar que a grande maioria dos domicílios onde mora uma família com ao menos um aposentado conta ainda com outras fontes de renda além dessa, especialmente os salários recebidos pelas pessoas que ainda não se aposentaram (Idem, ibidem).

Aumentos reais do salário mínimo poderiam ser bem-vindos se acompanhassem o crescimento da produtividade do trabalho, pois somente isso pode sustentar elevações salariais sem criar pressões inflacionárias e desestimular a geração de postos de trabalho. Mas os governos Lula 1 e 2, assim como os governos da Dilma, caracterizaram-se por um péssimo desempenho da produtividade do trabalho, sobretudo na indústria de transformação. Essa é a essência dos governos populistas: distribuir renda sem fazer nada para aumentar a renda a ser distribuída!

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BARROS, R. P.; FOGUEL, M. N.; ULYSSEA, G. (org.). Desigualdade de renda no Brasil: uma análise da queda recente. Brasília: Ipea, v. 1, 2006

GIAMBIAGI, F. Brasil: raízes do atraso; paternalismo versus produtividade. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.

GIAMBIAGI, F.; SCHARTSMAN, A. Complacência. 1. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

PT tem culpa pelas mortes no litoral, pois fez aumentar a desigualdade e a pobreza...

Quase 50 pessoas morreram com as chuvas no litoral paulista, então é claro que a Oxfam e colunista da Folha não iriam perder a chance de usar as mortes para fazer proselitismo. Mandaram ver logo: a culpa não é das chuvas, é da desigualdade. E ainda acrescentaram que as mortes foram causadas também pelo "racismo ambiental" (sic).

A hipocrisia desse discurso está no fato de que jornalistas e militantes que dizem o óbvio - se não existisse pobreza, ninguém iria morar em áreas de risco... - saúdam a exploração política que Lula faz do episódio sem dizerem uma palavra sobre o fato de que, em sendo assim, é preciso reconhecer que Lula e Dilma têm sua parcela de culpa por tais mortes. Afinal, a desigualdade e a pobreza extrema aumentaram nos governos do PT!

Aos números

Os dados da PNAD mostram que houve uma importante queda do nível de concentração de renda a partir de 1995, com o Plano Real. E que essa desconcentração se acelerou de 2001 em diante, quando Fernando Henrique Cardoso instituiu os programas de transferência de renda que deram origem ao Bolsa Família. Em 2003, quando Lula chegou ao poder, o processo continuou, mas acompanhado de aumento da pobreza! Isso porque parte das pessoas que já tinha ultrapassado a linha de pobreza voltou a ser pobre com Lula, diminuindo a desigualdade entre a população de renda média baixa e a população mais pobre. Já no biênio 2004-2005, a pobreza voltou a cair com velocidade semelhante àquela dos anos 1994-1995, e a queda da desigualdade prosseguiu (aqui). Todavia, por volta de 2012, o processo de desconcentração de renda arrefeceu e, depois, inverteu (aqui).

Mas isso considerando só os dados da PNAD. Porque, quando se cruzam os dados dessa pesquisa com as informações do Imposto de Renda, descobrimos que, de 2006 a 2012, a participação dos 5% mais ricos na renda nacional subiu de 40% para 44%. Não bastasse isso, Dilma conseguiu fazer a pobreza extrema aumentar estupidamente em apenas dois anos. O número de pessoas com renda inferior a 1,90 dólares por dia, conforme a Síntese de indicadores sociais, do IBGE, passou de 9,18 milhões em 2014 para 10,94 milhões no ano seguinte e para 12,05 milhões em 2016. Quase 3 milhões de miseráveis a mais!

Conclusão

Se é verdade que, falando em termos muito gerais, existe uma relação óbvia entre pobreza e tragédias como a de São Sebastião, não há dúvida de que Lula e Dilma têm sua parcela de culpa nisso. Entretanto, militantes de ONGs e o jornalismo de esquerda continuarão usando os mortos para fazer proselitismo político e sem mencionarem o fato de que o lulopetismo deixou os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.

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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Lula copia Bolsonaro e culpa o BC pelas taxas de juros

Uma das razões de a taxa de juros estar alta é que Bolsonaro furou o teto de gastos, mas o PT não fala disso porque faz a mesma coisa!

Em 2022, Bolsonaro usou a chamada "PEC Kamikaze" para gastar acima do teto. O Banco Central criticou a medida em documentos oficiais e, para cumprir a meta de inflação, elevou a taxa de juros 5 vezes! Assim, a taxa passou de 7,75% para 13,75%, em ano eleitoral, como lembrou o economista Alexandre Schwartsman. E Lula? Usou a famigerada "PEC da Transição" para aumentar a gastança ainda mais, fazendo o déficit público explodir. Foi o segundo maior aumento de déficit público anual da história, perdendo apenas para o aumento ocorrido em 2020, por causa da pandemia.

Diante disso, o mercado reagiu do mesmo modo como já tinha reagido em 2022: os juros futuros aumentaram. E o BC? Manteve a taxa de juros em 13,75% e criticou a PEC da Transição. Ainda assim, o PT e o jornalismo filopetista mentem dizendo que o BC era menos crítico em relação à gastança do governo anterior e mentem também ao afirmar que não há justificativa para a taxa de juros permanecer no mesmo patamar em que estava quando Bolsonaro saiu. Queriam então que a mesma politica fiscal gerasse resultados opostos só porque o presidente mudou? Ora...

A política fiscal Lula 3 é a mesma do governo Bolsonaro porque populistas são populistas. E, sendo um populista, Lula sempre vai culpar os outros pelas consequências nefastas das decisões dele, sempre vai fazer de conta que se preocupa com os pobres, sempre vai pintar a si mesmo como inimigo de elites insensíveis e sempre vai fingir ser diferente do populismo de direita que lhe faz oposição.

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terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Insegurança alimentar: conceito enganoso

Lula e o PT sempre usaram a mentira de que o Brasil tem muitos milhões de pessoas passando fome para justificar seu marketing político. Daí que o governo Lula 1 ficou numa posição incômoda após a publicação da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2002-2003 – POF, do IBGE. Essa pesquisa jogou por terra o argumento de que o Brasil precisaria investir bilhões em programas como o Fome Zero - o qual nem sequer saiu do papel. No período da pesquisa, a exposição à desnutrição era estatisticamente irrelevante entre os adultos do sexo masculino e atingia somente um pequeno percentual de mulheres da área rural do Nordeste e do estrato mais pobre da população brasileira. Mais tarde, a edição da POF para os anos 2008-2009 confirmou a baixíssima magnitude da exposição à desnutrição no Brasil, bem como os elevados percentuais de pessoas com excesso de peso e obesidade, inclusive nos extratos de renda mais baixos (referências abaixo).  

Mas a reação governamental aos dados inconvenientes veio já em 2004, com um suplemento especial da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD, sobre Segurança Alimentar. O problema é que há um paradoxo entre a POF e a PNAD 2004, pois a primeira pesquisa revela que há uma exposição muito baixa da população adulta à desnutrição, ao passo que a segunda registrou cerca de 14 milhões de pessoas passando fome. 

O contraste salta aos olhos principalmente quando se considera o estrato mais pobre da população, que possui rendimento domiciliar per capita de até um quarto do salário mínimo. A POF registra que, no período 2002-2003, não havia exposição relevante dos homens desse grupo à desnutrição, já que o percentual deles com déficit de peso era inferior a 5%, nível considerado normal em qualquer população. Em contraste, nada menos que 24,0% dos homens desse estrato mais pobre apresentava excesso de peso ou obesidade. No caso da população feminina desse estrato, o déficit de peso atingia um percentual apenas 3,5% acima do limite de 5% considerado normal, enquanto 40,9% das mulheres se encontravam com excesso de peso ou obesidade! Contudo, os dados do suplemento da PNAD 2004 registravam que 83,4% da população total do estrato mais pobre estavam em situação de insegurança alimentar leve, moderada ou grave. A conclusão óbvia da comparação desses resultados é que a PNAD 2004 classificou como moradores de domicílios em estado de insegurança alimentar pessoas com excesso de peso ou talvez até obesidade. Como se explica isso?

Bem, a diferença fundamental entre as duas pesquisas é que as informações da PNAD derivam de declarações de pessoas entrevistadas, enquanto as da POF se baseiam na aferição do Índice de Massa Corporal – IMC, e no acompanhamento direto da disponibilidade de alimentos dentro dos domicílios. Portanto, o conceito de segurança alimentar se refere à percepção que os indivíduos têm a respeito de sua alimentação, sem considerar informações diretas sobre o seu estado nutricional. Mas ocorre que a percepção das pessoas sobre a qualidade de sua alimentação é eivada de valores culturais e sociais, de modo que a população de baixa renda tende a imitar os hábitos de consumo dos estratos de renda mais elevada. Indivíduos de baixa renda tendem a avaliar que a alimentação de suas famílias é insuficiente e pouco variada porque só às vezes inclui iogurte, carne bovina e outros alimentos consumidos com maior frequência por pessoas de renda mais alta, muito embora o consumo rotineiro de arroz, feijão, carne de frango e leite dessas famílias esteja de acordo com as recomendações nutricionais da Organização Mundial de Saúde – OMS. Assim, para identificar os casos em que os indivíduos pesquisados podem realmente apresentar problemas de saúde relacionados à alimentação, a POF utiliza os conceitos de desnutrição, excesso de peso e obesidade, sendo o primeiro definido como o quadro clínico característico do consumo insuficiente de calorias e os outros dois como os quadros que derivam do consumo excessivo. E a medida usada para avaliar esses três estados é o cálculo do IMC, conforme parâmetros da OMS. Já o suplemento da PNAD 2004 não consegue identificar problemas nutricionais, pois o conceito de segurança alimentar não se baseia em critérios clínicos.

Até mesmo o conceito de fome usado na pesquisa de segurança alimentar é psicológico, pois diz respeito à “condição definida como uma sensação de ansiedade e desconforto provocada pela falta de comida”. Por exemplo, se o entrevistado afirma que, nos noventa dias anteriores à entrevista, sentiu fome pelo menos uma vez, mas não comeu por falta de dinheiro, então se considera que ele passou fome, mesmo que não apresente déficit de peso. Aliás, pelos critérios dessa pesquisa, os conceitos de insegurança alimentar moderada e grave, embora indiquem “limitação de acesso quantitativo aos alimentos”, podem ocorrer “com ou sem o convívio com situação de fome” - sic! Considera-se que há falta de comida num domicílio mesmo quando os moradores têm peso normal ou excessivo e não passam fome, mas também não comem tudo o que gostariam ou acham que deveriam comer. Ou seja, a pesquisa considera que há insegurança alimentar moderada ou grave em domicílios onde os moradores não conseguem ficar gordos ou engordar ainda mais!

Sendo assim, não se pode usar as informações sobre segurança alimentar para dizer que há pessoas com problemas de saúde por falta de comida, pois esse tipo de pesquisa não afere isso. Fica evidente a incoerência dessa pesquisa, pois ao usar o termo “insegurança”, denota uma situação de risco à saúde relacionada ao consumo de alimentos, algo que só poderia ser aferido com base em critérios clínicos que a pesquisa não leva em conta. Ora, o estudo que utiliza critérios clínicos é a POF, justamente a pesquisa que mostra a baixa magnitude das situações de déficit de peso na população brasileira, mesmo a mais pobre.

A verdade é que levantamentos sobre segurança alimentar servem apenas para justificar o marketing montado em torno de programas de combate à fome num país em que a desnutrição já está quase completamente eliminada. Daí porque o governo encomendou ao IBGE uma pesquisa que utiliza conceitos de fome e de insegurança alimentar próprios para estudar países desenvolvidos (como os EUA, que já possuem programas de auxílio alimentação desde os anos 1930), e outros que, como o Brasil, já avançaram muito em termos de renda per capita, industrialização e modernização agrícola. Quer dizer, conceitos adequados para países em que a desnutrição é inexistente ou quase inexistente, mas onde há pessoas que não conseguem reproduzir o padrão alimentar que elas, mesmo quando já estão acima do IMC recomendado, julgam que as pessoas de renda mais alta têm.

Pesquisa de encomenda

Todavia, ainda há outra razão para o paradoxo entre os resultados das pesquisas sobre desnutrição e sobre segurança alimentar. O jornalista Ali Kamel, no livro Não somos racistas (Record, 2006), efetuou uma crítica competente à metodologia do suplemento da PNAD 2004. Essa pesquisa usou um conceito ambíguo de segurança alimentar (embora equivalente ao utilizado em outros países) e coletou dados por meio de um questionário repleto de perguntas mal redigidas e com poucas informações que orientassem os entrevistadores de modo a evitar interpretações subjetivas das respostas. Vale a pena citar um dos exemplos hipotéticos que Kamel elaborou para ilustrar como as perguntas do questionário superestimam as situações de fome:

“Nos últimos três meses, algum morador de 18 anos ou mais de idade, alguma vez, sentiu fome mas não comeu porque não havia dinheiro para comprar comida?”. “Sim”, seria a resposta de alguém que, no fim da tarde, deixasse de comer um sanduíche no McDonald’s, porque o dinheiro está curto, sendo obrigado a matar a fome no jantar, em casa.

Em suma, temos três conclusões: o conceito de segurança alimentar é incoerente com a metodologia usada nas pesquisas sobre esse tema; o questionário do suplemento especial da PNAD 2004 é problemático; e a eficácia dos indicadores dessa pesquisa é facilmente contestada pelos estudos baseados em critérios clínicos, os únicos que podem realmente aferir se há pessoas com a saúde em risco por falta de comida. 

Por aí se vê o empenho do PT em produzir números que sustentem o mito de que o Brasil é um país repleto de famintos. Recentemente, em Davos, Marina Silva teve o desplante de dizer que, no Brasil, existem 120 milhões de pessoas sujeitas à fome! Nesse caso, é mentira descarada mesmo, sem qualquer pudor, típica do padrão petista de mentir repetidamente até que a mentira vire verdade.

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Referências

IBGE. Pesquisa de orçamentos familiares 2002-2003: análise da disponibilidade domiciliar de alimentos e do estado nutricional no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2004.

______. Pesquisa de orçamentos familiares 2002-2003: antropometria e análise do estado nutricional de crianças e adolescentes no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2006.

______. Pesquisa nacional por amostra de domicílio: segurança alimentar 2004. Rio de Janeiro: IBGE, 2006a

IBGE. Pesquisa de orçamentos familiares 2008-2009: antropometria e estado nutricional de crianças, adolescentes e adultos no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2010.

KAMEL, A. Não somos racistas: uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Cientista responsável é o que informa ou o que assusta?

O Observatório Covid-19 BR é um grupo interdisciplinar e independente de cientistas que se dispõem a reunir informações oficiais sobre a pandemia no Brasil e a tratar essas informações com o uso de métodos estatísticos e de modelos matemáticos elaborados por epidemiologistas. Seus objetivos são: fornecer informações úteis para o planejamento das políticas públicas e também "informar a população a partir de um ponto de vista científico" (aqui).

No dia 20 de março de 2020, a imprensa apresentou alguns dos primeiros resultados do trabalho do Observatório. Ficamos assim sabendo que o "ritmo de contágio do coronavírus no Brasil está igual ao registrado na Itália e acelerando". Além disso, os cientistas calcularam que o número de casos da doença, no Brasil, apresentava a tendência de dobrar a cada 54 horas e 43 minutos (aqui)!

Todavia, essa primeira projeção não se confirmou (aqui), e parece já existir um consenso de que o vírus não vem se propagando no Brasil no mesmo ritmo em que isso se deu nos países mais afetados - EUA, Itália, Espanha, França e Reino Unido -, e que o número de mortes diárias pelo covid-19 está também bem mais baixo do que nesses países. O epidemiologista Atila Iamarino, que trabalhou com uma projeção equivocada como aquela em março, já reconheceu que o Brasil está em situação bem melhor, por enquanto (aqui)[*].

Mas isso não significa que o Observatório tenha feito um trabalho incompetente. Os cientistas não dispõem de um conhecimento completo dos muitos fatores que afetam as taxas de infeção, morbidade e de mortalidade desse vírus em cada país, de modo que as projeções podem falhar e ser corrigidas mais tarde à luz de novas informações. Os cálculos divulgados pelo Observatório poucos dias depois indicavam que, em 23 de março, o tempo de duplicação do número de casos era um pouco maior, chegando a 62 horas (aqui). Mas e hoje? Ao acessar o site do Observatório, em 23 de abril, deparei-me com esse pequeno texto: 
No momento não é possível estimar tempos de duplicação da epidemia, pois há um enorme acúmulo de testes moleculares sem resultados, necessários para que os casos sejam confirmados e notificados. Essa demora faz com que os números disponíveis publicamente (número de notificações) cresça de maneira artificialmente lenta.
Assim, a evolução dos números oficiais informa hoje sobre a dinâmica de notificação, não da epidemia. Seria irresponsável seguir divulgando medidas de propagação da epidemia no Brasil com esses números (aqui).
Todos sabem que os números de casos e de mortes são subnotificados, mas não são menos subnotificados hoje do que eram há pouco mais de um mês, quando o Observatório usou os dados oficiais para calcular a velocidade de duplicação de casos com precisão de minutos! Por que antes era responsável calcular o tempo de duplicação e divulgar o resultado, mas hoje não é mais? Por que os primeiros dados oficiais permitiam fazer cálculos que projetavam uma catástrofe, mas agora os mesmos dados oficiais, já melhorados, revelam que a epidemia não se propaga  tão depressa quanto se pensava?[**]

Ao que parece, os cientistas que integram o Observatório acreditam que a responsabilidade deles está em mostrar o cenário mais tenebroso possível para convencer a opinião pública e as autoridades de que as medidas de isolamento precisam ser precoces, rígidas e bastante prolongadas. Se for esse o caso, trata-se de uma postura ética bastante questionável, independentemente de que tais medidas sejam realmente as melhores ou não. Afinal, segundo o filósofo Karl Popper, o compromisso do cientista está na sua atitude pessoal em relação à verdade. Nesse sentido, não é aceitável que cientistas de certas áreas filtrem informações com o fim de criar um efeito psicológico na opinião pública e nas autoridades que as induza a tomar as decisões que esses cientistas julgam ser as melhores. A responsabilidade do cientista reside no compromisso de produzir conhecimentos objetivos sobre os fenômenos e de divulgar esses conhecimentos para que cientistas de outras áreas, além de políticos, juristas, jornalistas e a opinião pública debatam o que fazer com base nesse conhecimento.

Por fim, mas não menos importante: se os cientistas se preocuparem com os efeitos políticos do conhecimento que divulgam ao ponto de filtrarem informações e/ou de não admitirem erros que são inerentes ao trabalho científico, o efeito disso em parte da opinião pública pode ser extremamente danoso para a própria ciência. Afinal, como os cientistas e professores poderão reclamar quando virem que parte da opinião pública prefere dar ouvidos a jornalistas e políticos que confirmam suas convicções sobre determinado assunto ao invés de confiarem na palavra dos especialistas se existirem exemplos concretos de cientistas que filtram informações com o objetivo de alterar as decisões políticas? 

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[*] Iamarino explica a melhor situação brasileira afirmando que nossas autoridades foram precavidas e agiram cedo (sic!), o que contraria o que ele mesmo dizia em 13 de março e não é sustentável à luz dos fatos (aqui).
[**] Os dados atuais sobre número de óbitos por dia são melhores do que os disponíveis quando o Observatório fez suas primeiras projeções. Isso porque há uma defasagem de vários dias entre o registro de óbito e a entrada dessa informação nas estatísticas do Ministério da Saúde, o qual vai corrigindo os dados sobre óbitos diários conforme as informações vão sendo consolidadas (aqui).

domingo, 19 de abril de 2020

Atila Iamarino errou, mas finge que acertou?

Um vídeo do epidemiologista Atila Iamarino que vem sendo bastante compartilhado nas redes sociais faz uma comparação das estatísticas do Brasil, EUA, Itália, Espanha, França e Reino Unido e, com base nesses números e em projeções, conclui que o Brasil exibe bem menos mortes registradas do que os outros porque foi bem rápido em tomar medidas de isolamento (aqui). A primeira conclusão a extrair dessa fala é que Iamarino teria acertado, no mês de março, quando afirmou que a epidemia se espalhava aqui tão depressa quanto na Itália ou EUA e que medidas de supressão deveriam ser tomadas o quanto antes, e prolongadas por vários meses, para evitar uma hecatombe. A segunda conclusão é que os fatores mais importantes para explicar o grau de sucesso de um país no combate à pandemia seriam a precocidade e intensidade das medidas de isolamento adotadas.

Bem, é chato dizer, mas o que esse autor andou escrevendo no Twitter em 13 de março indica que, na visão dele, o Brasil já havia perdido a chance de se antecipar:
Nós tivemos 2 meses pra ver o que aconteceu com a China (e menosprezar por ser outra cultura), 1 mês pra ver o que aconteceu com a Itália e Japão. Já poderíamos ter planejado fechamento de escola, ajuda com empresa pra mandar gente pra casa, treinado as pessoas pra se afastarem.
10:44 PM · 13 de mar de 2020 (aqui
Não aproveitamos a oportunidade, provavelmente pelo bem da economia e para não gerar pânico de mercado. Vamos ver o caminho onde entramos. Não deixem as pessoas culparem o vírus lá na frente. Isso não aconteceu, isso foi decidido.
10:44 PM · 13 de mar de 2020 (aqui)
No dia 18 de março, Iamarino usou uma pesquisa do Imperial College of London para, por meio da extrapolação dos dados sobre os EUA para a realidade brasileira, traçar os seguintes cenários (aqui):
  • Se nada fosse feito, haveria 1,4 milhões de mortos pelo coronavírus no Brasil até agosto de 2020 e 2,6 milhões de mortos devido ao colapso do sistema de saúde, já que a demanda por leitos hospitalares, UTIs e por respiradores ultrapassaria em muitas vezes a capacidade de atendimento.
  • Já o "melhor cenário de mitigação" seria "[...] todo mundo com sintomas é isolado em casa, a família é quarentenada e isolamos idosos com mais de 70 anos";"[...] ainda faltam leitos, o que dobra a mortalidade. Extrapolando essa situação pro Brasil (sem levar em conta a proporção de idosos aqui) seria o equivalente a ainda ter mais de 1 milhão de brasileiros mortos até o fim de agosto".
  • "A única forma de diminuir drasticamente as mortes pela simulação seria a supressão: escolas e universidades fechadas, idosos isolados, casos sintomáticos e familiares isolados e a maior parte dos locais públicos ou com muita gente (como trabalho) fechados".
  • "Nesse cenário, a maior parte das pessoas se salvam. Temos alguns milhares de mortos por algumas semanas, mas os casos caem. Quase todo mundo que precisa de UTI é tratado. Sem milhões de mortes. MAS se suspender a supressão, casos explodem e milhões de mortes de novo".
Ora, se essas previsões de meados de março estivessem corretas, Iamarino jamais poderia falar agora como se o Brasil fosse um exemplo para o mundo, o país que agiu rápido e com muita firmeza para salvar vidas. Afinal, nós não isolamos a população idosa, não isolamos os infectados e nem suas famílias. Para isso, teríamos de fazer testes em massa para identificar os doentes (sintomáticos e assintomáticos), mas o Brasil efetua apenas 269 testes por milhão de habitantes. Portanto, é ponto pacífico que o Brasil não aplicou a política de supressão recomendada por Iamarino. O que fizemos (com diferenças entre estados) foi uma política de distanciamento social sem o reforço do isolamento daqueles grupos.

Mas será que, apesar disso, tais medidas de distanciamento não teriam sido rápidas e rígidas o bastante para nos aproximarmos da supressão? Bem, o presidente Bolsonaro declarou que o covid-19 é "só uma gripinha" e, sendo assim, não declarou quarentena nacional e nem sequer restringiu a entrada de pessoas vindas do exterior pelos aeroportos, mesmo em se tratando de viajantes provenientes de países muito atingidos pela epidemia, como EUA e Itália. Esse governo até bloqueou algumas iniciativas estaduais, pois a Anvisa entrou na justiça para impedir alguns governadores de aplicarem uma política de medir a febre de pessoas chegadas do exterior nos aeroportos. Em função disso, a epidemia já havia chegado até a aldeias indígenas no dia 30 de março (aqui).  

Devido à inação do governo federal, as medidas de distanciamento foram sendo implantadas de forma progressiva e descoordenada, à semelhança do que aconteceu nos EUA, onde governadores foram implantando medidas mais rígidas do que aquelas tomadas por Trump. No dia 16 de março, a imprensa anunciava que as medidas de isolamento se restringiam a "alguns estados", como São Paulo (aqui). Não é à toa que, três dias antes, Iamarino tuitava que não estávamos aproveitando a oportunidade. Em 27 de março, os governadores de Santa Catarina, Mato Grosso e Rondônia anunciavam que iriam permitir a reabertura de algumas atividades de comércio e serviços, enquanto a grande maioria dos governadores declarava que as restrições seriam mantidas (aqui). 

Em face da descoordenação, é preciso contar com a tecnologia para tentar conhecer a efetividade das medidas de restrição por estado e na média nacional. No dia 02 de abril, a imprensa informava que, segundo levantamento feito por uma empresa de software de geolocalização aplicado a smartphones, a média nacional de pessoas em casa era de 58,3% (aqui). Se esse levantamento for razoavelmente preciso, significa que cerca de 40% da população não estava propriamente isolada até começo de abril, de modo que as medidas de distanciamento social aplicadas no Brasil não foram precoces e ficaram muito aquém do que foi recomendado por Atila Iamarino para evitar que o Brasil repetisse o desastre italiano.

Portanto, o caso brasileiro depõe contra a segunda conclusão mencionada acima, isto é, a de que a precocidade e intensidade das medidas de isolamento são os fatores mais importantes para explicar o grau de sucesso alcançado por cada país. Mas seria o Brasil o único ponto fora da curva? 

Não. Poderíamos citar também o caso japonês. Até o dia 24 de março, o governo japonês não havia nem sequer proibido as pessoas de saírem às ruas, embora a doença já tivesse chegado ao país havia cerca de dois meses - antes de ter chegado à Europa, portanto (aqui). Foi só em 07 de abril que o governo desse país decidiu declarar estado de emergência. Mesmo assim, o Japão registrou pouquíssimos óbitos diários nos meses de janeiro até começo de abril, e acumulava apenas 85 mortes naquela data. De outro lado, Itália, Espanha e França implantaram medidas duras de quarentena entre os dias 09 e 17 de março, mas, ainda assim, amargaram centenas de óbitos por dia dali até 12 de abril, acumulando milhares de mortes cada um (aqui).

Qual é a explicação que Atila Iamarino dá ao caso japonês no vídeo citado acima? Nenhuma, pois os gráficos que ele mostrou não incluíam o Japão. A impressão que fica é que o autor selecionou apenas os casos que supostamente confirmam sua teoria e ignorou os casos que não se encaixam. Um artifício válido nos campos do direito e da política, em que se trabalha com a retórica, mas não no campo científico, no qual é preciso levar em conta todos os casos.

Cientistas e professores odeiam quando pessoas leigas num assunto preferem dar ouvidos a jornalistas e políticos que confirmam as convicções delas ao invés de confiarem nos especialistas. Mas, quando até um leigo em epidemiologia, como é o meu caso, consegue perceber pela análise dos fatos que um cientista de currículo reconhecido pode estar se contradizendo e filtrando informações, fica difícil deixar de pensar que aquela atitude de desconfiança de boa parte do público é estimulada pela forma como alguns cientistas participam dos debates públicos.

P.S. - Obviamente, não nego que medidas de isolamento salvam vidas. A questão é que precisamos conhecer bem as causas das diferenças de desempenho entre países para calibrar essas medidas (ver abaixo). Afinal, é inconteste que distanciamento social diminui as taxas de infecção e de mortalidade, mas é igualmente inconteste que distanciamento gera recessão e que recessão também mata.

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segunda-feira, 13 de abril de 2020

Pandemia nos pôs no mundo das escolhas trágicas

Um clichê muito comum nos filmes de ação e de super-heróis é o que eu chamo de “falsa escolha trágica”. Aquele momento em que o vilão força o herói a escolher entre salvar a vida da mulher que ele ama ou salvar o mundo, a cidade, ou dezenas de pessoas que ele não conhece. Mas, embora o herói sempre opte por salvar primeiro quem ele ama, sempre acaba tendo tempo de salvar também as outras pessoas. Então a escolha trágica é falsa, pois o herói não é realmente obrigado a escolher quem vai salvar: ele salva todo mundo, pronto.


Pena que o mundo real não seja assim. Na vida real, há ocasiões em que se é obrigado a escolher quem morre e quem vive, ou a escolher entre mais mortes ou menos mortes. E o pior: sem ter certeza sobre qual decisão vai matar mais. É bem nessa situação que a pandemia colocou o mundo. 


Isolamento horizontal prolongado nem sempre é necessário e nem todos podem bancar 


Todo mundo, inclusive eu, já disse que EUA e Itália estão em situação pior do que os outros países porque demoraram a agir. Mas, à medida em que o tempo foi passando, ficou claro que não é bem assim [*].


A França decretou quarentena em 17.03 e já tem 14,3 mil mortes registradas. A Espanha decretou quarentena em 15 de março e já acumulou 16,9 mil mortes. A Itália decretou quarentena nacional em 09 de março, mas já está com 19,8 mil mortes confirmadas. 


A doença chegou ao Japão antes de chegar a esses países todos e, mesmo assim, os japoneses só decretaram estado de emergência em 07 de abril. Até aquela data, esse país registrava só 85 mortes acumuladas. Em 12 de abril, eram 108 mortes.


Os EUA até que se parecem com o Brasil. Lá, assim como aqui, o isolamento horizontal foi se estabelecendo de forma progressiva e diferenciada por estado, já que os governadores implantaram medidas mais restritivas do que o governo Federal. Mas a diferença de resultado é abissal: os EUA já contam 21,3 mil mortes, enquanto o Brasil registra apenas 1,1 mil mortes. 


Esses fatos mostram que a precocidade e intensidade das medidas de isolamento não são os fatores mais importantes para explicar as diferenças de desempenho entre os países. E nem dá para dizer que o isolamento horizontal é a única alternativa que funciona: quando o Japão decretou estado de emergência alegando perigo de descontrole, estava em situação muitíssimo melhor do que a de quase todos os países do mundo. Logo, o isolamento horizontal não era uma necessidade absoluta para esse país. Lá, o endurecimento das medidas foi uma resposta do governo ao estado psicológico da população, que, na sua maior parte, apoia medidas de isolamento pelo desejo de salvar o maior número possível de vidas. É compreensível as pessoas quererem salvar o máximo de vidas em números absolutos, sem se importarem se estão em situação relativa melhor ou pior. Ainda assim, o governo japonês só tomou essa decisão porque irá levantar 1 trilhão de dólares para custear o isolamento… Pouquíssimos países podem contar com tantos recursos assim.


Isso significa que nem todos os países precisam de isolamento horizontal e que a maioria dos que talvez precisem ou desejam implementar essa medida não têm dinheiro para isso. Mas, se as medidas de isolamento não são o fator mais importante para explicar as diferenças de desempenho entre países, qual seria? 


Pelo que eu li até o momento, a melhor hipótese é a das políticas nacionais de aplicação de vacina BCG. Sabe-se há tempos que a vacina BCG não imuniza só contra a tuberculose, mas também contra vários tipos de doenças respiratórias. Os pesquisadores do Departamento de Biomedicina do Instituto de Tecnologia de Nova Iorque resolveram então testar se havia correlação entre as políticas de aplicação universal de BCG e as taxas de infecção, morbidade e de mortalidade por covid-19. 


O que descobriram? Países sem políticas universais de aplicação de vacina BCG, ou que interromperam tais políticas, estão sofrendo muito mais com esse vírus: EUA, Itália, Espanha, França e Holanda, entre outros. O caso do Irã é ilustrativo porque esse país só começou com a vacinação universal em 1984 e, portanto, não imunizou sua população idosa. De outro lado, países com políticas de vacinação universal e obrigatória iniciadas há mais tempo e mantidas continuamente são os que têm as menores taxas de infecção e de mortalidade. Entre eles estão o Japão, que deu início a tal política em 1947, e o Brasil, que começou em 1920.


Mas é certo que identificar uma correlação entre dois fatores não significa que não haja outros fatores atuando. O Japão pode ter sido ajudado também por sua “cultura de resguardo”, como já comentou um infectologista brasileiro. O Brasil não conta com essa cultura, mas pode estar sendo beneficiado em alguma medida pelo fato de que, como já é conhecido desde os anos 1980, os vírus da classe corona não se disseminam tão depressa em regiões de clima quente.


Escolhas trágicas


Se as projeções do Imperial College of London sobre o Brasil tivessem acertado, nós estaríamos agora no rumo de uma hecatombe: cerca de 1 milhão de mortes. Tivemos sorte, pois, mesmo com medidas bastante frouxas (em comparação com aquelas recomendadas por essa instituição e pelo epidemiologista Atila Iamarino), estamos nos saindo bem na comparação com EUA, Itália, Espanha, França, Equador, etc. 


Mas o problema é que as medidas de isolamento já tomadas, mesmo sendo brandas, têm efeitos econômicos potencialmente desastrosos. Recessão também mata; e mata muito. Em apenas um ano, o número de pobres e de miseráveis poderá crescer facilmente em milhões de pessoas (ver abaixo). E nós não dispomos de recursos para bancar medidas rígidas e prolongadas de isolamento, ao contrário de outros países citados aqui. Só com as medidas tomadas até o momento, o governo de Minas Gerais já está ficando sem dinheiro até para pagar o funcionalismo.

Então o melhor seria começar a abrandar as medidas de isolamento a partir de agora? Talvez não, pois não podemos olhar o número de infectados e de mortos sem levar em conta a capacidade do nosso sistema de saúde, especialmente no que diz respeito ao atendimento em UTI. No Brasil, a taxa de leitos hospitalares é inferior ao mínimo recomendado pela OMS para épocas normais. Só isso já é uma boa indicação de que nosso sistema de saúde pode entrar em colapso mesmo com um ritmo de infecções e de mortes diárias muito inferior ao dos países mais afetados.

É possível que o Brasil esteja diante de uma escolha trágica: se as medidas de isolamento forem prolongadas ou intensificadas, o desastre econômico será de tal ordem que, muito provavelmente, vai matar mais do que a pandemia, ainda que num prazo mais longo. Por outro lado, se as medidas forem abrandadas, mais gente vai morrer pelo vírus. E não adianta chamar pelo Super-Homem.

[*]: Os números citados for obtidos em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51987873. Acesso em: 12 abr. 2020.


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sexta-feira, 10 de abril de 2020

"Instinto de negatividade" na pandemia

O médico Hans Rosling chamava de "instinto de negatividade" à tendência que as pessoas têm de prestarem muito mais atenção às informações negativas do que às positivas. Essa seria uma das razões que explicam por que a maioria das pessoas, mesmo as mais instruídas, acha que o mundo está piorando, quando todas as evidências empíricas provam que o mundo melhorou enormemente nas últimas décadas, em quase todos os países e em todos os setores (Rosling, 2019). 

Ora, a reação de muitos brasileiros à atual pandemia é um exemplo interessante de como esse instinto opera. Quando surgiram os primeiros casos confirmados da doença no Brasil, os pesquisadores do Observatório Covid-19 BR afirmaram que esta vinha se disseminando aqui à mesma velocidade com que havia se espalhado na Itália e na Espanha poucas semanas antes. Isso deixou a opinião pública alarmada, e com toda razão. Contudo, os cálculos efetuados pelos cientistas estavam errados!

Em 20 de março de 2020, com efeito, o Observatório estimou que, no dia 24 de março, haveria um mínimo de 2.714 e um máximo de 3.400 casos no Brasil. E previram que a tendência a partir dali era de o número de casos dobrar a cada 54 horas e 43 minutos. Todavia, os números oficiais mostram que o número de casos no dia 24 era de apenas 2.201. Bem menos do que o mínimo estimado! Além disso, se o número de casos dobrasse naquela velocidade, deveriam haver 86.848 casos até o dia 11 de abril. Só que o número de casos confirmados nessa data ficou em apenas 10.278...

Todavia, quando eu comento com as pessoas nas redes sociais que essa e outras projeções falharam, quase todas se mostram céticas e dizem: "Mas os números oficiais são subestimados! Para saber com certeza teríamos de fazer muitos testes, mas não fazemos! O número real com certeza é muito maior"! 

Essa resposta demonstra que as pessoas se deixam levar pelo "instinto de negatividade" a tal ponto que não percebem que o argumento da falta de testes tanto pode servir para dizer que o número real é muito maior como também para explicar por que as projeções iniciais do Observatório exageraram.

A razão é simples: como o Brasil faz poucos testes (e a grande maioria dos países também testa pouca gente) isso significa que é bastante razoável supor que a doença não chegou ao Brasil em 26 de fevereiro, data do primeiro caso confirmado, mas bem antes disso. Afinal, já que o número de pessoas testadas é pequeno, nada mais lógico que a doença tenha chegado ao Brasil semanas antes do que se pensa e se disseminado por um bom tempo até ser detectada pela primeira vez, certo? Os pesquisadores do Observatório teriam errado por que supuseram que o primeiro caso confirmado era realmente o primeiro caso de todos? Olharam os números de infecções relativos aos dias entre o final de fevereiro e começo de março e acharam que estavam vendo o início da pandemia no Brasil, quando o que viam era a doença já com algumas semanas de infecção?

Na verdade, os cálculos e projeções que esses cientistas elaboraram tomavam como ponto de partida o dia 14 de março, quando já havia 121 casos registrados, porque esse era o número mínimo necessário para que os cálculos pudessem ser feitos. Mas então por que as projeções falharam?

Seja qual for a resposta, a reação de muitas pessoas à notícia de que o Covid-19 não se espalhou no Brasil tão depressa quanto na Itália demonstra que elas se deixam levar pelo "instinto de negatividade" ao ponto de argumentarem de forma contraditória, pois não percebem que a razão que alegam para acreditar no pior cenário possível é exatamente a mesma que nos ajuda a explicar por que esse cenário não se realizou até o momento. 

P.S. - Não pretendo substituir o instinto de negatividade por um otimismo exagerado. O número diário de mortes continua crescendo devagar, sem tendência exponencial, mas mudou um tanto de patamar no início de abril. Apenas ressalto que as previsões mais catastróficas falharam, e isso tem de ser levado em conta no planejamento de medidas de isolamento, cujos efeitos sociais são terríveis.

Atualização do post (15.07.20) - "[...] cientistas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) identificaram a presença do vírus em amostras de esgoto congeladas, que foram coletadas a partir de 27 de novembro [de 2019]". A mesma matéria informa que, na Espanha, o vírus já estava presente nos esgotos um ano antes do primeiro caso registrado da doença  (aqui). Portanto, as estimativas do Observatório em março falharam ao concluir que a doença estava se espalhando aqui com a mesma velocidade com que havia se espalhado em países como Itália e Espanha, e a falha ocorreu porque esse grupo não levou em conta que o vírus, muito provavelmente, havia chegado ao Brasil antes do que se imaginava, sendo que o pequeno número de testes realizados era o principal motivo para levar isso em consideração.

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ROSLING, H. Factfulness: o hábito libertador de só ter opiniões baseadas em fatos. 2. ed. Rio de Janeiro: Record,  2019.

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sexta-feira, 3 de abril de 2020

Quarentena: quantos pobres em nível subsaariano essa medida vai produzir?

Para estimar o efeito das medidas de isolamento contra o coronavírus no aumento da pobreza,  elaborei uma pequena tabela com dados de crescimento econômico e de população pobre para os anos 2014-2016 (ver aqui). Usei uma linha de pobreza absoluta de US$ 1,90 por Paridade do Poder de Compra (PPC) porque esse é o parâmetro recomendado para medir a pobreza monetária nos países mais pobres do mundo. Ou seja, é um indicador que capta situações de pobreza aguda mesmo para os padrões de países com renda muito baixa.

Bem, os dados mostram que o desempenho da economia foi péssimo nesse período, pois houve um crescimento de apenas 0,50% do PIB em 2014, seguido de forte retração nos dois anos seguintes, com variação negativa de 3,50% e de 3,28%, respectivamente. O resultado foi que o número de pobres passou de 9,18 milhões em 2014 para 10,94 milhões no ano seguinte e para 12,05 milhões em 2016. E, de acordo com a Síntese de indicadores sociais (IBGE, 2019), continuou havendo aumento da pobreza em 2017 e 2018, embora o país já tivesse saído da recessão.

Ora, a Fundação Getúlio Vargas - FGV, estima que, por conta da crise econômica gerada pela pandemia, o PIB de 2020 poderá sofrer redução de 4,4% - a maior queda desde 1962 (aqui). Uma projeção um pouco mais recente, do Itaú Asset, prevê redução de 3,3%, e com impacto maior no setor de serviços, justamente aquele que mais emprega. Essa gestora afirma ainda que, mesmo havendo recuperação nos dois últimos trimestres deste ano, o ritmo deverá ser lento "seja pela volta ao dia a dia atrasada pelo medo de contágio, seja por efeitos colaterais do baixo crescimento prejudicando empresas e população" (aqui). Portanto, os dados de crescimento e pobreza para o triênio 2014-2016 permitem estimar, por comparação, que as medidas de isolamento praticadas no Brasil (embora descoordenadas em níveis federal, estadual e municipal), poderão produzir facilmente bem mais de um milhão de pessoas com nível subsaariano de pobreza monetária em apenas um ano!

E isso para não comentar que, de acordo com uma pesquisa divulgada em outubro do ano passado, e realizada por uma equipe de médicos e economistas, a crise econômica vivida pelo Brasil de 2012 a 2017 está relacionada a 31 mil mortes, sendo que o resultado dessa pesquisa foi publicado numa revista internacional da área de ciências da saúde (aqui). Não há soluções fáceis, pois não fazer nada pode matar muita gente, mas a recessão econômica gerada pelas medidas de isolamento horizontal também matam muitos milhares.

E vale dizer que essas péssimas projeções sobre o PIB de 2020 se baseiam na expectativa de que as políticas de isolamento atual durem por cerca de apenas um mês. Mas o que aconteceria se o Brasil fizesse uma política de "isolamento social extremo" de toda a população por tempo indefinido, e com perspectiva de durar, no mínimo, de 12 a 18 meses, conforme a recomendação do Imperial College of London? E se o Brasil praticasse essa mesma política de supressão (isolamento horizontal) de março até agosto, conforme propôs o epidemiologista Atila Iamarino, em um vídeo bastante compartilhado nas redes sociais?

Ora, se essas medidas extremamente radicais propostas pelos epidemiologistas vierem a ser praticadas no Brasil, poderá haver uma explosão da pobreza como nunca se viu aqui. A epidemiologia é uma ciência, mas a economia também é. Epidemiologistas podem projetar o que seria ideal fazer, mas é a economia que diz se existem recursos suficientes para chegar nesse ideal e quais são os efeitos sociais das medidas de isolamento, que podem matar até mais do que o Covid-19.

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IBGE. Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira: 2019. Rio de Janeiro: IBGE, 2019 (Coleção Estudos e pesquisas. Informação demográfica e socioeconômica, n. 40).

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Legado do PT sugere que Haddad não presta nem para voto útil

Não voto em Bolsonaro de jeito nenhum. Mas vou anular meu voto porque candidatos do PT não conseguem ser melhores do que Bolsonaro em nada! 

O PT ameaçou nossa liberdade, pois criou um esquema de suborno sistemático de parlamentares e tentou controlar a imprensa e a comunicação áudio-visual. Não conseguiu porque a "base alugada" (especialmente o PMDB) votou contra as propostas de instituição do CFJ e da Ancinav. E isso sem falar em várias medidas diplomáticas e econômicas concretas em favor de governos ditatoriais e de organizações brasileiras que usam de violência para fazer política, casos do MST e do MTST.

Nas áreas econômica e social, há quem se esforce para ver algum mérito especial nas gestões de Lula e Dilma. Uma matéria da BBC Brasil, escrita na época do impeachment de Dilma, seleciona as opiniões de alguns especialistas para fazer um balanço dos anos de poder petista (Cf.: O legado dos 13 anos do PT no poder). Sucintamente, posso apontar os seguintes problemas na matéria:
  1. A matéria destaca que a economia foi mal no governo Dilma, em parte, por causa da crise internacional. Mas não diz que a economia só foi bem no governo Lula por causa da conjuntura internacional favorável do período, visto que a política econômica de Lula foi a mesma do segundo mandato de FHC: câmbio flutuante, metas de inflação e de superávit primário.
  2. Realmente, nos anos 2003 a 2011, combinaram-se o crescimento da economia chinesa (que rebaixou os preços dos produtos industrializados e elevou os preços da soja e do minério de ferro) com um enfraquecimento do dólar no mercado internacional. Essa conjuntura explica os elevados superávits comerciais do período e também por que o governo Lula conseguiu praticar uma política prolongada de ampliação do crédito para consumo sem provocar pressões inflacionárias. 
  3. Ricardo Paes de Barros, Fábio Giambiagi e Alexandre Schwartzman já demonstraram, com dados oficiais, que o aumento do salário mínimo teve efeito significativo de redução da pobreza e da desigualdade no governo FHC, mas não nos governos petistas. No biênio 2004-2005, o potencial dos aumentos de salário mínimo para reduzir a desigualdade já estava esgotado. E os mais pobres são aqueles que trabalham no setor informal, sem carteira de trabalho assinada, de modo que os aumentos de salário mínimo não os beneficiam.
  4. A matéria cita os benefícios trabalhistas concedidos às empregadas domésticas como uma conquista do PT, mas a verdade é que, até hoje, cerca de 70% das empregadas continua trabalhando sem carteira.
  5. A queda da desigualdade de renda começou no governo FHC, com o Plano Real, e foi revertida no governo Dilma.
  6. O cotejo dos dados de desigualdade gerados pela PNAD, do IBGE, com as informações de arrecadação de Imposto de Renda mostram que, de 2006 a 2012, a concentração de renda aumentou! A matéria da BBC desconsiderou o fato de que as informações sobre renda obtidas por declarações de pessoas pesquisadas, como acontece no Censo Demográfico e na PNAD, subestimam a renda das pessoas de classe média e alta. Os dados da receita corrigem isso.
  7. O Bolsa Família não é uma política do PT, mas de FHC! O PT apenas unificou os programas de renda de FHC num programa só e expandiu o número de beneficiados. Ainda assim, a maior parte da queda da desigualdade observada no Brasil, desde a segunda metade dos anos 1990, se deve a transformações demográficas e no mercado de trabalho, sendo que nem todas têm relação com os governos recentes. A queda da fecundidade das mulheres de baixa escolaridade, por exemplo, começou na década de 1980, e teve impacto considerável na redução da pobreza.
  8. Os dados sistematizados pelo Gapminder World revelam que, nos governos do PT, o IDH se elevou mais devagar do que nos governos de FHC, mas a matéria da BBC sugere que houve uma grande conquista do PT nessa área.
Aqui estão alguns posts em que apresento os dados e as fontes que justificam as afirmações acima:

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Não param com o festival de bobagens sobre o impeachment de Dilma!

Continuo recebendo pelo Whatsapp textos que, embora escritos por acadêmicos, apelam para todo o tipo de simplificação no intuito de convencer as pessoas de que Dilma foi vítima de um "golpe das elites". Um texto que prima pelas simplificações na defesa dessa tese foi escrito pelo economista Róber Iturriet Avila, o qual afirma o seguinte: 
Vargas e Goulart saíram do poder ao tempo em que concediam direitos sociais, sobretudo aos menos favorecidos. Não é novidade que durante os governos do PT, os trabalhadores ampliaram sua renda, o salário mínimo cresceu de maneira contínua e houve uma série de programas sociais. [...] Não surpreende que, mais uma vez, setores da sociedade brasileira se ergam contra tais políticas, ainda que, escamoteadamente, o bordão seja “contra a corrupção” (aqui).
Francamente! A elevação contínua do salário mínimo teve início em 1994, com o Plano Real, e os primeiros programas federais de transferência de renda (hoje unificados no Bolsa Família) foram instituídos em 2001. Também nesse período, especialmente no biênio 1994-95, houve uma expressiva redução da pobreza. Portanto, o autor elogia mudanças que foram encetadas pelos governos tucanos  como se fossem conquistas do PT e, assim fazendo, deixa de responder a uma questão de lógica elementar: por que então esses setores sociais que supostamente não gostam de pobre não aproveitaram os escândalos de corrupção dos anos 1990 para derrubar FHC? Aliás, considerando que o PT ficou no poder por treze anos, por que esses setores não tentaram ou não conseguiram usar o escândalo do mensalão para derrubar Lula?

Depois, ele afirma:
Evidentemente, existem elementos factuais dos governos Lula e Dilma que causaram desconforto e indignação a todos os cidadãos. Contudo, é preciso muita inocência para imaginar que as manifestações contra o governo são incentivadas pelo descontentamento com a corrupção, pela elevação do preço do combustível ou da energia (idem, ibidem).
A única coisa evidente é o esforço de Avila para minimizar a corrupção dos anos petistas e a destruição econômica produzida pelos governos de Dilma Rousseff, isso sim! Afinal, ele escreve como se o petrolão fosse apenas um caso de corrupção como qualquer outro e como se o único efeito negativo da política dilmista fosse o aumento dos preços da energia elétrica e dos combustíveis. Meu Deus, só a Petrobras foi sangrada em uns R$ 21 bilhões em dez anos, segundo estimativas de que seus investimentos recolhiam em média 3% do dinheiro para propinas. E a política econômica petista fez a dívida pública explodir, jogou o país na pior recessão de sua história - dois anos seguidos de forte redução do PIB -, fez aumentar a pobreza e ainda produziu 13 milhões de desempregados! Mesmo assim, Avila escreve como se as ruas tivessem se enchido de milhões de pessoas pedindo o impeachment só por causa de um discurso anti-corrupção!

Truques retóricos e estatísticos

Mais adiante, o texto apresenta alguns gráficos para tentar provar que os governos Vargas, Jango e os do PT foram os melhores da história no que diz respeito à elevação dos salários médios e do salário mínimo, o que provaria haver uma relação de causa e efeito entre elevação salarial e golpes de Estado. Mas o argumento não se sustenta, nem política, nem economicamente.

Em primeiro lugar, ao contrário do que aconteceu nos governos de Vargas e Jango, Dilma foi apeada do cargo por vias rigorosamente constitucionais, sem qualquer uso da força. Afinal, é fora de dúvida que ela cometeu crime de responsabilidade por conta das "pedaladas fiscais". E lembremos que Collor também sofreu impeachment com base no que estabelece a Constituição, certo?  

Em segundo lugar, vemos que os gráficos citados por Avila mostram a variação da média salarial e do salário mínimo medidos em valores absolutos, o que não é adequado para comparar o ritmo de variação em diferentes períodos de tempo. Isso porque, quando se dá um processo prolongado de elevação do valor real de um bem ou serviço, ocorre um efeito cumulativo que faz com que os valores mais recentes, mesmo deflacionados, avancem a saltos cada vez maiores, ainda que a variação proporcional permaneça constante. 

Por exemplo: se o salário mínimo fosse de R$ 1.000,00 no ano de 2017 e crescesse 10% ao ano em termos reais durante três anos, veríamos esse valor subir para R$ 1.100,00 em 2018, para R$ 1.210,00 em 2019 e para R$ 1.331,00 no ano de 2020. Um gráfico com esses números criaria a impressão de que o salário mínimo subiu mais depressa no final do período, já que em 2018 a variação real foi de R$ 100,00 em relação ao ano anterior, ao passo que, em 2020, a variação foi de R$ 121,00. A verdade, porém, é que a velocidade de elevação do salário mínimo permaneceu sempre a mesma: 10% ao ano. 

Isso é válido para qualquer dado econômico, como o salário mínimo, a média salarial, o PIB, as dívidas pública e privada, o lucro líquido das empresas, e assim por diante. Assim, quando se calculam as taxas anuais de variação real do salário mínimo, que é a forma adequada de medir e comparar a variação desse valor em diferentes períodos, constata-se que os governos tucanos e petistas praticamente empataram nesse quesito - e isso desconsiderando os efeitos devastadores da crise criada por Dilma de 2013 em diante, quando os aumentos do salário mínimo tiveram de ser restringidos para evitar que a dívida pública crescesse ainda mais depressa.

Esse fato inconteste repõe a pergunta que Avila se recusou a encarar: por que setores sociais que supostamente não gostam de pobre teriam derrubado Dilma, em cujo governo o salário mínimo cresceu à taxa de 3,5% ao ano, até 2013, mas não fizeram o mesmo com FHC e Lula, governos nos quais o salário mínimo se valorizou a taxas anuais de 4,7% e 5,5%, respectivamente?

Concentração de renda aumentou com o PT

E isso para não comentar que, de 2006 a 2012, a participação dos 5% mais ricos na renda nacional subiu de 40% para 44%. Não bastasse a fragilidade dos argumentos usados por Avila, esse número comprova que nenhum setor social de renda alta teve motivos para reclamar dos governos petistas, que foram mais favoráveis para os ricos do que para a população pobre.

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domingo, 19 de fevereiro de 2017

Supremo fez bem em determinar indenização de presidiários

Já escrevi um tanto contra esses intelectuais e jornalistas de esquerda que pensam no criminoso como uma vítima do capitalismo que deve ser poupada da cadeia tanto quanto possível. Mas isso não quer dizer que eu concordo com essa direita primitiva brasileira, que defende execução de criminosos e até se regozija em saber que nossos presídios são insalubres como calabouços e lugar de sevícias e torturas.

Mas não vou gastar tempo explicando a essa direita questões elementares de valor e de cidadania. Vou apenas explicar que a decisão do STF de indenizar os presos em condições degradantes foi a melhor dentre as alternativas possíveis, que eram três:

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Revista Galileu faz péssimo dossiê sobre a crise nos presídios

A revista Galileu já foi boa; hoje, é um lixo. Uma demonstração disso é o "Dossiê Prisões" (Tanji, 2016), matéria do mês passado que nada tem de divulgação científica e que, ainda por cima, reproduz informações estatísticas falseadoras e dogmas ideológicos disfarçados de ciência. 

Com efeito, a ideia central do dossiê é que o problema prisional brasileiro se deve ao suposto fato de que o Estado não investe o suficiente em programas sociais e pratica uma política intensiva de encarceramento de pessoas, combinação essa que só levaria a mais violência e injustiça. Mas tal conclusão, que é um dos dogmas sagrados da esquerda, está errada por muitas razões. Vejamos três delas:

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Professores acham que propaganda do PT é conteúdo escolar

Mais uma vez, uma professora de geografia manda e-mail para o Escola Sem Partido - ESP, e o coordenador do site, Miguel Nagib, me encaminhou cópia para que eu analisasse. Ela diz o seguinte:
Sou professora de geografia e uma aluna fez um trabalho de pesquisa sobre o desenvolvimento do Brasil nos últimos anos. Esses são os dados. Após uma leitura cheguei a conclusão que os alunos não são tão "tapados" como vocês pensam e poderiam deixar de lado essa frescura de escola sem partido, e trabalharem em coisas mais produtivas para o Brasil. Como professora de geografia sou muito técnica não caio em historinhas mal contadas, porque entendo que quando se conta uma história se leva em conta as nossas percepções etc, os números falam mais alto e não pude deixar de comentar, dentro do conteúdo de geografia o período da ditadura, o governo Sarney, Itamar, FHC e o governo Lula. E agora o que fazer? Não posso ser chamada de partidária por levar aos alunos a realidade, e dentro desse trabalho eles fizeram uma pesquisa com os pais e avós e foi surpreendente o resultado dessa pesquisa, o governo Lula foi disparado o melhor.
Quando vi os dados reproduzidos pela professora na sequência do seu e-mail, não pude deixar de rir. É que, em 05.10.06, um aluno do curso de pós-graduação em geografia da UFPR, e que também trabalhava como professor de geografia do ensino médio, mandou para a lista de e-mails do curso uma mensagem com o título "FATOS, NÚMEROS E FONTES". O texto apresentava uma série de dados estatísticos que visavam provar que, em 4 anos, Lula havia realizado mais do que FHC em 8 anos. Assim, o motivo da minha risada foi constatar que, no "trabalho de pesquisa" feito pela aluna da professora, os dados foram selecionados e organizados da mesma forma que naquela propaganda viral petista de quase dez anos atrás!

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Fato: menos filhos por mulher reduziu a pobreza e a desigualdade

Os economistas já debateram bastante as causas da queda da desigualdade de renda medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, queda essa que começou na segunda metade dos anos 1990 e durou até aproximadamente 2012. A maioria aponta os programas de transferência de renda, instituídos de 2001 em diante, como um dos fatores responsáveis pela desconcentração. Mas mesmo os defensores mais enfáticos dessas políticas estimam que elas responderam por cerca de um terço da queda da desigualdade ocorrida nos anos de 2001 a 2005 (quando esta foi particularmente rápida), posto que os outros dois terços são explicáveis por mudanças demográficas e no mercado de trabalho (Diniz Filho, 2013).

Bem, um pequeno problema com esses estudos, dos quais eu já tratei aqui e aqui, é que eles são trabalhos técnicos e, portanto, escritos em linguagem pouco acessível e com conclusões carregadas de nuances e estimativas. Daí a vantagem do Guia politicamente incorreto da economia brasileira, de Leandro Narloch, como fonte de divulgação de informações. Além de tratar do assunto em linguagem jornalística, esse livro, fiel ao objetivo de desmontar os discursos e propostas de gente que se julga bem intencionada por dar as costas à racionalidade econômica, enfatiza a importância da queda da natalidade e da fecundidade na redução da pobreza, da desigualdade e do desemprego. 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Linchadores não são vítimas

A Veja publicou esses dias uma matéria de André Petry sobre o linchamento de Fabiane Maria de Jesus, que foi confundida com um retrato falado, divulgado nas redes sociais, de uma suposta sequestradora de menores que faria rituais de "magia negra"... Depois de esmiuçar a propagação dessa boataria irresponsável nas redes, além de descrever as torturas a que a vítima foi submetida antes de morrer, chega a hora do artigo ensaiar uma explicação para o grave problema dos linchamentos:

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Zander Navarro: os seis temas mais importantes no novo mundo rural brasileiro

Concluindo o texto anterior (aqui), apresento as seis principais novidades do mundo rural brasileiro, tal como exposto por Zander Navarro na palestra que proferiu recentemente. Note-se que, à luz desse diagnóstico, a geografia rural e a geografia escolar são simplesmente patéticas!

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Zander Navarro: o novo mundo rural no Brasil

No dia 26 de outubro passado, Zander Navarro, agrônomo, Ph.D. em Sociologia e pesquisador da Secretaria de Inteligência e Macroestratégia da Embrapa - SIM, proferiu a palestra O mundo rural brasileiro – o que mudou?, num auditório da UFPR.

Todo geógrafo e professor de geografia deveria ser intimado a assistir! Em cerca de uma hora de exposição, o autor apresentou, com base numa sólida base estatística e em pesquisas de campo, uma periodização do processo de modernização agropecuária brasileira e, em seguida, as tendências recentes desse processo.

Com base nas anotações que fiz durante a palestra, vou resumir brevemente a periodização e apontar as consequências mais gerais do processo modernizador. Em outra postagem, faço o resumo das tendências mencionadas. Mas recomendo fortemente a leitura do último livro do autor (capa ao lado) e também da obra O mundo rural no Brasil do século 21.



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O mundo distorcido em nossas escolas

Fonte: http://atualidadescefi.blogspot.com.br/2013/03/oposicao-norte-e-sul.html Acesso em 16 out. 2015
Um dos ensaios do livro Não culpe o capitalismo alerta para a necessidade de rever as formas de regionalização do mundo ensinadas em nossas escolas (Lima, 2015). Quando o Muro de Berlim ainda estava de pé, ensinava-se que o mundo se dividia em países desenvolvidos e subdesenvolvidos, sendo os primeiros industrializados e os segundos exportadores de matérias-primas agrícolas e minerais. Essa regionalização derivava diretamente das teorias do subdesenvolvimento formuladas nos anos 50 e 60. Ensinava-se também que o mundo podia ser dividido em Primeiro, Segundo e Terceiro Mundos, isto é, em três conjuntos de países caracterizados por serem, respectivamente, capitalistas industrializados, socialistas e capitalistas subdesenvolvidos. Depois do desmoronamento do socialismo, os países que compunham o Segundo Mundo foram divididos nas categorias "Norte" e "Sul", conforme a figura acima.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

PT esconde números que provam que seus governos são lixo

Acabei de ler um artigo (obrigado pela indicação, Anselmo!) que mostra a crise instalada no Ipea pela censura à divulgação de informações que provam que, ao contrário do que alardeia a propaganda petista, a concentração de renda aumentou de 2006 a 2012. De fato, dois funcionários desse Instituto pediram exoneração por discordarem dessa censura absurda, que denota um profundo e autoritário aparelhamento do Estado.
 
Esse episódio prova que, até recentemente, os governos do PT não censuravam as instituições de pesquisa de forma escancarada, tal como acontece na Venezuela e na Argentina, porque a continuidade da política econômica de FHC num contexto internacional extremamente favorável tornava possível dar continuidade a alguns avanços iniciados com o Plano Real sem que o PT fizesse qualquer das reformas estruturais de que o Brasil necessita. Mas, à medida que os bons ventos da economia mundial pararam de soprar, e que novas pesquisas mais detalhadas provaram que os governos do PT não têm mérito nenhum, a única saída foi esconder os dados e desmontar os órgãos de pesquisa.