terça-feira, 23 de abril de 2013

O perfil ideológico dos professores

Trabalho com o conceito de que ideologias são concepções de mundo carregadas de valores e que visam orientar politicamente as ações e a organização da sociedade. Os geógrafos, embora se orgulhem de proclamar que a geografia é uma ciência integradora de conhecimentos e extremamente diversificada nos seus temas e métodos de estudo, mostram-se bastante homogêneos em termos de ideologia: os debates se dão entre diferentes visões de esquerda, e não passa muito disso. 


O mesmo ocorre com os professores de geografia e de outras ciências humanas, como história. Para demonstrar isso, vou citar esquematicamente uma série de evidências referentes à geografia escolar (abaixo). Ao expor o perfil ideológico dos nossos professores, tais evidências servem para completar a resposta que publiquei no post Professores fazem doutrinação por terem sido igualmente doutrinados. O comentário ao qual eu respondi afirma que os professores das escolas públicas veiculam um conteúdo distorcido que está nos livros didáticos mas com o qual eles não concordam e que o mesmo ocorre na rede privada, na qual os docentes são forçados a transmitir as visões ideológicas presentes nos materiais didáticos produzidos pelas escolas. Contudo, eu afirmo que a doutrinação ocorre porque os professores das duas redes concordam com esse tipo de conteúdo ideológico. Vamos lá, então: 

Sobre a escola pública:
  • Eu estudei em escolas públicas no ensino médio, nos anos 80, e minhas professoras de história, geografia e de outras matérias de humanidades eram, na maior parte, marxistas e/ou petistas. E todas, sem exceção, eram de esquerda. Faziam campanha para o PT em sala de aula, até!
  • Desde 2007, eu oriento professores no programa PDE, que é voltado para a qualificação de professores da rede pública do Paraná. Todos eles reclamam da má qualidade dos livros didáticos, mas não por discordância em relação ao conteúdo ideológico desses livros. Na ampla maioria dos casos, suas visões ideológicas são as mesmas que estão nos livros;
  • Já lecionei três vezes disciplinas em cursos de qualificação de professores (duas vezes, no âmbito do PDE). Confirmei que a maior parte deles pensa o mesmo que está nos livros didáticos;
  • Já ministrei duas palestras para professores da prefeitura de Curitiba. Nos dois casos, os professores ficaram surpresos por eu ter dito o oposto do que está escrito nos livros didáticos.
  • O site Escola Sem Partido registra diversos testemunhos sobre práticas doutrinadoras adotadas em sala de aula por professores (tanto da rede pública quanto das escolas privadas).
  • Os autores de livros didáticos de geografia usados na rede estatal também são, ou já foram, professores do ensino fundamental e médio. É bem esse o caso do Vesentini.
  • Uma pesquisa do instituto CNT/Sensus revelou que, segundo declarações dos estudantes, figuras históricas como Che Guevara e Lenin são comentadas em aula, na grande maioria das vezes, sob uma ótica positiva. Não adianta argumentar que os professores das escolas públicas falam bem desses assassinos porque seguem o livro didático. Eles têm estabilidade no emprego e liberdade para acrescentar os comentários que quiserem durante as aulas. Poderiam contar, ainda que superficialmente, as atrocidades que não estão nos livros, ao invés de fazerem elogios.

Quanto às escolas privadas, é preciso notar que:
  • No texto A geografia crítica no Brasil: uma interpretação depoente, José W. Vesentini conta que, em 1969, ele e outros professores de um colégio privado já ensinavam sobre luta de classes. No período mais repressivo da ditadura militar, num colégio privado! Ele usa esse testemunho para defender a tese de que a geocrítica teve origem no ensino fundamental e médio, não na universidade.
  • Os livros mais vendidos (como os do Vesentini) são usados tanto nas redes públicas quanto nas escolas privadas.
  • Na USP, fui aluno do Vesentini. Ele diz em sala de aula algumas coisas diametralmente opostas àquelas que escreve nos livros didáticos! Por que ele defende uma ideia e publica outra? Porque escreve de olho no mercado dos livros dele, que é formado pelos professores: são eles que escolhem os livros, afinal;
  • As empresas que não usam livros como os dele são as que pertencem a grandes grupos econômicos, os quais contam com capacidade técnica e financeira para elaborar seus próprios materiais didáticos. Mas quem escreve esses livros e apostilas são professores também!
  • Um exemplo disso é o texto As mentiras que os geógrafos contam para as crianças, citado aqui. Eu mandei e-mail para o autor perguntando sobre as referências bibliográficas do livro, e ele me passou a informação. Todavia, pediu para eu não divulgar no blog porque o livro foi escrito pelos professores do colégio particular em que a filha dele estuda! 
  • Ele receia que a direção do colégio possa implicar com uma eventual propaganda negativa do material didático. O exemplo do processo movido pelo Sistema COC de ensino contra a mãe de uma aluna e o site Escola Sem Partido demonstra que o receio dele nada tem de descabido.
  • Eu já elaborei o parecer sobre uma proposta de livro didático, escrito por professores, para ser usado em um curso privado. O conteúdo era Paulo Freire na veia...
  • A já citada pesquisa CNT/Sensus não indicou haver qualquer diferença entre professores das redes pública e estatal em termos de ideologização do ensino.
  • Finalmente, vale notar que as ideologias expressas pelas associações de professores estão de pleno acordo com o viés ideológico dos livros didáticos. O mesmo vale para a atuação partidária desses sindicatos. Como os sindicatos representam os professores...

7 comentários:

  1. Comigo hoje aconteceu o oposto o professor de português/ redação, criticou muito o PT disse até que um monte de esfarrapados entram nas universidades publicas sem fazer esforço algum, graças as cotas. Ainda estou no cursinho, e sou a favor da escola sem partido, as vezes fica parecendo que a sala de aula se torna um cabo de guerra e o aluno é puxado para um lado de acordo com a ideologia do professor.

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    1. Como eu relato em texto publicado na revista Conhecimento Prático Geografia (barra lateral deste blog), o sistema brasileiro de ensino nasceu para fazer doutrinação nacionalista e conservadora, nos moldes das ideologias que sustentavam a ditadura do Estado Novo. Dos anos 1980 em diante, porém, a escola brasileira se esquerdizou, de modo que a maioria esmagadora dos professores atuais faz doutrinação teórica e ideológica em favor do socialismo, das cotas e, quando se tocam em questões partidárias, do PT.

      O professor que você cita inverte o sinal político-partidário das mensagens que ele transmite, o que faz dele uma exceção nesse sentido. Mas a prática doutrinadora dele reproduz a de professores que me deram aula no ensino médio e de tantos outros que serviram de base para o meu post.

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  2. Rafael Borges dos Santos9 de dezembro de 2013 22:12

    Acho graça. O cara escreve um texto sobre o "perfil ideológico" dos professores. Acho que ele deveria assistir as suas próprias aulas, pois não tem nada mais doutrinador do que aquilo. São horas e horas de derramamento de ideologias reacionárias, a ponto de ninguém aguentar tanta chatisse. O Brasil vai mal? Culpa do PT. A Geografia tem problemas? Culpa da Geografia Crítica. Muito simplório e simplificador, se diz sem partido, mas deixa bem claro o seu: qualquer um que se oposicione ao PT pela direita (advinha só quem). Apregoa a imparcialidade durante as aulas, mas essa imparcialidade nada mais é do que as opiniões que lhe convém. Falou o que o Diniz gosta: parabéns. Falou o que ele não gosta: é doutrinador e blá blá blá.

    Um professor universitário que cita Reinaldo Azevedo e Mainardi não merece respeito algum. Só faltou o Olavo de Carvalho e o Lobão para completarem a lista de imbecis. Diniz, se toca!

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    1. Já tratei desse tipo de crítica que você faz em meu último livro: "Por uma Crítica da Geografia Crítica". Compre um exemplar e leia as seções 3.2 e 3.3. Se quiser comprar de mim, aliás, eu agradeço. É só clicar em "Dica de Livro 2", no alto desta página, e entrar em contato pelo e-mail indicado.

      Fora isso, é falso que eu culpo o PT pelos problemas do Brasil. Conforme já escrevi neste blog, "o mal do Brasil são os posseiros do Estado", grupo que reúne o PT e políticos de direita como Sarney, Collor, Barbalho, Calheiros e Maluf, entre muitos outros.

      E é falso dizer que eu qualifico quem discorda de mim de doutrinador. Leia o livro indicado (custa só R$ 41,00) para ver os argumentos que eu utilizo par qualificar os geocríticos desse modo. Nas minhas aulas, aliás, eu demonstro o teor doutrinador dos livros didáticos confrontando seus conteúdos com estatísticas oficiais. Isso não é contrapor minhas ideologias a outras ideologias.

      Finalmente, por que as pessoas que citam Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi não merecem respeito? Quem discorda de você não merece respeito, é isso? Então você respeita professores universitários que mentem na cara dura em favor do PT, como é o caso de Marilena Chaui, mas acha que não merece respeito quem cita jornalistas dos quais você discorda... Quem tem de se tocar é você.

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    2. Rafael Borges dos Santos23 de dezembro de 2013 14:09

      Será que a direita não consegue proferir uma argumento sem falar PT? O PT começou a segunda guerra, o PT matou Jango, o PT isso, o PT aquilo...

      Na boa, pra quê ler o seu livro, se esse super autor que você adora citar nos ensina que ler é perda de tempo? Duvida? Olhe só: http://veja.abril.com.br/280301/mainardi.html

      O curioso é que li esse artigo justamente num livro do Vesentini, que você tanto critica...

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    3. De que direita você está falando? Collor não é de direita? Sarney não é de direita? Maluf não é de direita? Ora, mas todos eles são aliados do PT!

      Em seguida, você diz que não vai ler meu livro. Bom, mas é nessa obra (especialmente nas seções 3.2 e 3.3) que eu discuto essas críticas que você faz . Se você usa este espaço para criticar mas não vai ler o livro, confirma minhas refutações à esquerda e à geocrítica, pois demonstra que seu pensamento é dogmático e que você não está disposto nem sequer a conhecer ideias que coloquem suas convicções à prova.

      Na tentativa de disfarçar esse dogmatismo, você diz que não vai ler o livro porque eu cito o Mainardi. Bom, mas esse argumento confirma ainda mais o que eu tenho dito: como o modo de pensar das esquerdas e da geocrítica é dogmático, elas desqualificam os autores que não rezam pela sua cartilha de forma apriorística. "Fulano e Beltrano são imbecis e mentirosos. Não merecem ser lidos e aqueles que os citam também não merecem ser lidos".

      Todavia, você tenta disfarçar essa desqualificação apriorística do que eu escrevo dizendo que, no texto do Mainardi que você linkou, ele afirma que ler é perda de tempo. Isso prova que você não leu o texto dele direito. O que ele diz nesse texto, de forma bastante irônica, é que, no Brasil, ler não auxilia ninguém a melhorar de vida porque os brasileiros não dão o menor valor para a leitura! Tanto é assim que ele encerra o texto dizendo isto: "Por mais bem-intencionado que seja Ottaviano Carlo De Fiore [secretário do Livro e Leitura, em 2001], duvido que um dia o Brasil venha a se tornar uma nação letrada. Se por acaso isso acontecer, certamente lerá os livros errados. Se calhar de ler os livros certos, só dirá bobagens sobre o que leu".

      Bom, então você é incapaz de entender ironia (ver o post que eu publiquei hoje) e não consegue interpretar direito um texto jornalístico de meia página. É, pensando bem, acho melhor você não ler meu livro mesmo.

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  3. Excelente seu texto. Muito obrigado por compartilhar estas informações. Eu pesquisei o assunto porque encaminhei ontem uma carta a uma professora de história para que ela ao falar de Fidel Castro, mostre fotos do Paredon e também do ditador comunista- que levou seu povo à miséria (deve ser culpa do embargo até hoje...) usando Rolex! Ele adorava. Busque: Fidel Rolex. Tem fotos em que ele usa dois. Com certeza não comprou com o dinheiro dele. Nunca trabalhou. Roubava dos burgueses que assassinou.
    Fidel escravizou um povo.
    Muito me admira que o mesmo esquerdista que defende a prisão de Fidel (ninguém sai) - não quer o muro de Trump! Hora não seria ótimo que ninguém pudesse fugir para os EUA? E porque o maior país capitalista do mundo é o destinho preferido de milhões de pessoas?? Capitalismo não é uma porcaria?
    Porque em Cuba só tem fila para sair? E ninguém com vontade de entrar?
    É fundamental que a ESCOLA e os professores saibam que tem pais que se importam e querem que seus filhos sejam educados dentro de uma cultura de mérito da livre iniciativa e da prosperidade. Eu amo e respeito o capitalismo. Um capitalismo que se desenvolveu e alçou os seres humanos a patamares jamais pensados. Os que se julgam perdedores- e são muitos- não conseguem ver que dentro de uma lógica comunista seria o cenário de terra arrasada: MISÉRIA total como na Coreia do Norte, como na Venezuela e União Soviética. O capitalismo precisa, claro, se aperfeiçoar e é isso que tem feito. A expectativa de vida melhora constantemente assim como a população. A redução da miséria é notória e a obesidade hoje é um problema muito maior que a fome.

    Fundamental agirmos de maneira enérgica na defesa constante do ensino isento. CAPITALISTA, LIBERAL CLÁSSICO. ESTADO PEQUENO.

    FRATERNIDADE, solidariedade e caridade tem que ser OPÇÃO de pessoas conscientes e não desculpa para o governo recolher impostos para uma caridade (chamam de inclusão) forçada que nunca acontece- porque o dinheiro fica com os políticos (E MUITO MAIS DINHEIRO COM OS POLÍTICOS DE ESQUERDA DO QUE DE QQ OUTRO VIÉS IDEOLÓGICO).


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