segunda-feira, 11 de abril de 2022

Lula e Bolsonaro são igualmente ruins (crítica construtiva a Fernando Schüler)

Discordo da conclusão de que Bolsonaro é menos ruim do que Lula, conforme se lê no texto de Fernando Schüler que eu reproduzo no final do post. O autor faz várias ponderações bastante pertinentes, mas, ao contrário dele, eu enfatizo que, se houve uns poucos avanços nas reformas modernizadoras durante o atual governo, não foi graças a Bolsonaro, mas apesar dele.

No Brasil é assim: reformas modernizadoras só acontecem quando a economia está em crise profunda e avançam o mínimo necessário para evitar que a casa desabe. Vimos isso nos governos Collor, Itamar e Temer: os três sempre jogaram a favor do status quo estatista e só avançaram com as reformas, muito a contragosto, numa lógica de entregar os anéis para não perder os dedos. Nos governos Lula e Dilma, não havia uma crise econômica herdada do governo anterior, mas, ainda assim, ambos se viram forçados a fazer reformas previdenciárias meia boca para evitar que o Estado ficasse insolvente em futuro próximo. O único ponto fora da curva foram os governos de FHC, em que as reformas eram coerentes com um ideário social-democrata modernizado, conforme as tendências da social-democracia europeia nos anos 90. Ainda assim, é fato que a aliança entre PSDB, PFL e PMDB, que dava sustentação a esse governo, se esfarelou na metade do segundo mandato tucano. E isso porque, uma vez tendo ficado claro que a inflação não iria retornar, mesmo após a instituição da política de flutuação cambial, os fisiológicos dos então PMDB e PFL retiraram o apoio às reformas. De fato, no segundo mandato tucano, a máquina estatal voltou a crescer, e as privatizações importantes pararam em 98.

Não por acaso, o PMDB, de 2002 em diante, passou a dar preferência ao PT, partido autoritário, estatista, corporativista e eivado de corrupção que investe no gigantismo estatal para aboletar políticos petistas e sindicalistas da CUT na máquina, além de operar um "capitalismo de compadres" muito lucrativo (*). Esse era o partido mais conveniente para o PMDB de Temer, para o PTB de Roberto Jefferson e para outras agremiações fisiológicas: quanto maior a máquina estatal, mais fácil de acomodar todo mundo (embora o mensalão tenha sido descoberto por causa de disputas em torno das nomeações para as Diretorias dos Correios, numa demonstração de que o apetite fisiológico é insaciável). 

Nesse contexto, também discordo quando Schüler diz que seria bom termos uma esquerda democrática e comprometida com a responsabilidade fiscal. E isso porque tal esquerda já existe no Brasil: é o PSDB. Como já escreveu o economista Samuel Pessôa, numa crítica ao filósofo Ruy Fausto: "o melhor governo de esquerda que o Brasil poderia ter já aconteceu: foi o governo FHC" (citação de memória).

Mas numa coisa eu concordo com Schüler: precisamos de uma vertente liberal que rejeite o passado autoritário e que não misture política com religião, tal como os bolsonaristas fazem. Enquanto a direita não se renova, não vou votar no Bolsonaro só porque, devido à falta de opção, ele fez meia dúzia de reformas (inclusive prejudicando a qualidade de todas elas, como se viu na reforma da previdência, em que esse corporativista descarado beneficiou os militares). Mesmo porque, se avançar minimamente com as reformas fosse critério para votar em Bolsonaro, teríamos igualmente motivo para votar em Lula, que também fez uma reforma previdenciária meia boca, e muito contra a vontade, em 2003, além de algumas privatizações no setor de infraestrutura.

Lula e Bolsonaro são puro entulho populista. Sem terceira via, vou votar nulo.

(*) No governo Dilma, o estatismo e a política econômica desastrosa foram motivados também por uma combinação de ideologia esquerdista com teorias econômicas heterodoxas ultrapassadas. É que Dilma, ao contrário de Lula, tem convicção nas ideias esquerdistas que defende, e isso demonstra que coerência teórica e ideológica pode gerar resultados ainda piores do que oportunismo populista. 

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O texto de Fernando Schüler foi compartilhado na página de João Luiz Mauad no Facebook:

A Polarização Brasileira
Por Fernando Schüler

Lula vem sendo particularmente claro sobre o que pretende fazer no governo. Já disse que é contra a regra do teto, que vai “regular os meios de comunicação deste país”, que é contra privatizações, que vai intervir na política de preços da Petrobras e que vai reverter a reforma trabalhista. “O que está havendo com Lula?”, me perguntou, dias atrás, um jornalista experiente. Fiquei pensando. Há quem dê de ombros e diga que tudo isso não passa de papo de campanha. Que Lula é uma “metamorfose ambulante”, e que logo teremos uma nova “carta ao povo brasileiro”, pedindo para esquecermos qualquer radicalismo. Não vejo as coisas assim. Penso que Lula está sendo sincero, e isso é ótimo para o debate democrático.

Vale o mesmo para Bolsonaro. Não que ele apresente uma visão estruturada sobre o país, mas tudo o que seu governo vem fazendo caminha na direção contrária à de Lula. Bolsonaro diz que não vai regular a mídia nem as redes sociais. Dias atrás lembrou que não deixou de considerar o coronel Brilhante Ustra um “grande brasileiro”. Bolsonaro votou na regra do teto, na reforma trabalhista e aprovou a reforma da Previdência, já no seu governo. Fez andar à frente, ainda que aos tropeços, algumas privatizações e recentemente disse querer se ver “livre” da Petrobras, sugerindo que vai privatizá-la, caso reeleito.

De novo, pode-se dizer que tudo é balela, que o tal programa liberal de Paulo Guedes não andou e que lá no fundo Bolsonaro é tão “corporativista” quanto a esquerda. De fato, Bolsonaro tem um histórico corporativista, mas muitas das iniciativas do governo contam uma história um pouco diferente. Alguém acha corporativista a autonomia do Banco Central? Ou a lei da liberdade econômica? Ou quem sabe o novo marco do saneamento básico, chamado pelos deputados petistas de “privatização da água”?
Ainda na outra semana li um jornalista que escreveu que a terceira via erra ao equiparar Lula com Bolsonaro. Também acho. Se observarmos com alguma frieza, o grupo político ao qual Bolsonaro se associa, com idas e vindas, votou a favor de toda a série de reformas que o país fez, desde o processo de impeachment de Dilma. Teto de gastos, lei das estatais, reformas trabalhista e previdenciária, lei das terceirizações, Banco Central, novos marcos regulatórios, privatização da Eletrobras. A lista não é pequena. O grupo em torno de Lula votou contra tudo. Não estamos falando de retórica, mas de um
padrão consistente de votações no Congresso, ao longo de quase seis anos. Cada um pode ter a opinião que quiser sobre essas reformas. Mas não passa de discurso vazio sugerir que não existem diferenças bastante objetivas entre os dois blocos políticos. Por óbvio, há inconsistências por todos os lados. A falta de firmeza do governo em temas centrais, como as reformas administrativa e tributária, é exemplo disso. (...)

O curioso nisso tudo é o posicionamento da terceira via. O Radar do Congresso mostra que os partidos da chamada terceira via são, de fato, governistas, no mundo real das votações em Brasília. Ao longo do mandato de Bolsonaro, o PSDB votou 83% das vezes com o governo. João Doria pode dizer que Bolsonaro é o capeta, mas, a cada dez votações no Congresso, seu partido fechou oito vezes com o governo. No PSD, o índice de governismo vai a 91%. No União Brasil, o novo partido de Sergio Moro, vai a 90%. Do outro lado do jogo, de fato há uma oposição. O PT só acompanhou o governo em 24% das votações; o PSOL, em 18%. Lula e seus apoiadores foram coerentes não só durante o governo Bolsonaro, mas desde as primeiras votações no pós-impeachment.

A terceira via, numa palavra, carece de identidade. A retórica por vezes radical contra o governo, logo abaixo do teatro da política, se mostra um tanto vazia. Isso sob um aspecto vital da política, que efetivamente diz respeito à vida dos cidadãos: as leis e projetos votados no Congresso. Sob esse aspecto, só há efetivamente duas vias em disputa, nas eleições deste ano. Talvez isso explique um pouco de nossa polarização política, que é hoje ainda maior do que há quatro anos. Em abril de 2018, os dois líderes somavam 47%. Hoje, têm 69%. É difícil, ainda que não impossível, que a terceira via consiga se viabilizar. Seria ótimo que o país dispusesse de uma esquerda moderna, que não goste de ditaduras e leve a sério a responsabilidade fiscal; e uma vertente liberal, que não ache que 64 foi uma “revolução para salvar a democracia” e não misture política com religião.

Mas não há nada disso muito viável no horizonte político. E a culpa é única e exclusivamente dos eleitores. Aprendemos a nos contentar com isso que está aí. O que temos são opções com alguma nitidez, no terreno econômico, dadas pelo histórico de votações no Congresso. Elas projetam uma imagem do Brasil, para os próximos anos, e é bom que cada um forme seu juízo. Não sou dos que acham que há apenas um lado legítimo na democracia, ou que alguém seja o “dono” da própria democracia, como parece que virou moda por aí.

O melhor a fazer, em meio à tempestade, é largar um pouco o besteirol, o bate-boca do Twitter e os hooligans, de ambos os lados, e raciocinar sobre reformas e votações no Congresso. Observar o lado em que cada um esteve. Cada um pode ajudar a inocular um pouco de racionalidade em um mundo político que se tornou teatral e algo pueril. Se disser isso por aí e alguém lhe dirigir alguns palavrões, acredite: você está no caminho certo.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Eficácia do suposto "Método Paulo Freire" é só propaganda




É mentira que o mal chamado "Método Paulo Freire", quando aplicado em Angicos (RN), no início dos anos 60, provou ser capaz de alfabetizar 300 pessoas em 40 horas.

No vídeo indicado acima, Igor Miguel, especialista em educação que trabalha com a perspectiva das ciências cognitivas, contesta essa conversa que os freirianos vivem propalando. Segundo Miguel, essa afirmação é discutível porque: a) depende da definição do que significa de fato ler e escrever, e essa definição não estava clara na condução da experiência realizada em Angicos; b) não há como saber se os alunos em Angicos terminaram o processo alfabetizados porque a experiência não foi documentada de forma rigorosa (18:53). 

E essa carência de informação se deve ao fato de que já era da própria natureza do, vamos dizer, "pensamento" de Paulo Freire um certo desprezo pelo rigor acadêmico e científico na implementação de experiências educacionais. Com efeito, nesse pensamento de tradição popular, existe uma “crítica à ciência formal”, que é qualificada como uma “ciência burguesa” (19:42). 

Ou seja, Paulo Freire e seus seguidores acham que é impossível medir objetivamente o sucesso de uma experiência de alfabetização, não aplicam nenhum método rigoroso de avaliação do resultado alcançado, mas, mesmo assim, saem pelo mundo a dizer que a experiência foi um enorme sucesso!

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segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Thiago Amparo usa "bullshit" racialista para atacar Leandro Narloch

Como dizem, "contra fatos não existem argumentos". A crítica de Thiago Amparo a um texto de Leandro Narloch que foi publicado na Folha de São Paulo é a prova disso. Narloch resenhou um livro de Antonio Risério, o qual baseou-se em pesquisas realizadas por historiadores para tratar das "sinhás pretas", ou seja, das negras brasileiras que, ainda no período da escravidão, conseguiram comprar sua liberdade, acumularam bens e se tornaram donas de escravos. Um exemplo citado por Narloch:

Em 1836, Marcelina Obatossi comprou sua alforria de um outro negro liberto e a partir de então acumulou 18 escravos, meia dúzia de casas no que hoje chamamos de centro histórico de Salvador e muitas joias (aqui).

Muito bem: qual é a crítica de Thiago Amparo a essa resenha? Rigorosamente falando, nenhuma! Ele apenas ataca uma exposição baseada em fatos usando "bullshit", ou seja, palavras e imagens com forte apelo emocional que visam convencer as pessoas sem a apresentação de argumentos racionais. Vejamos:

1 -  Qual foi a fonte de pesquisa histórica usada por Amparo para contestar os fatos relatados por Narloch? Nenhuma!

2 - Amparo afirma que "Narloch usa histórias individuais para mascarar a brutalidade do seu argumento: legitimar a escravidão ao relativizá-la". Portanto, Amparo reconhece que os fatos citados por Narloch são reais, e sua crítica às conclusões que esse autor extrai dos fatos não tem base racional nenhuma. Afinal, Amparo não explica o que entende por relativizar a escravidão, não demonstra que Narloch a relativizou e nem explica qual seria a ligação entre relativizar e legitimar no caso da resenha criticada; 

3 - Como não consegue contestar os fatos e nem esclarece o seu raciocínio, Amparo encena indignação e apela para o emocionalismo: "senti ânsia de vômito, literalmente; um misto de repugnância e desânimo. [...] Imagino como se sentiriam as escravas diariamente estupradas lendo seu texto; ou os escravos doentes jogados ao mar: faltou-lhes capitalismo?".

Mediunidade e capitalismo

A indigência intelectual do texto de Amparo é tamanha que lê-se nele até o truque retórico de falar pelos mortos! Para demonstrar a desonestidade intelectual desse truque, é o caso de perguntar a Amparo o que ele imagina que Marcelina Obatossi, Francisca Maria da Encarnação, Custódia Machado de Barros e Joaquina Borges de Sant’Anna, entre outras sinhás pretas, pensariam se lessem o texto de Narloch... Ou ainda: como ele reagiria se alguém, imaginando o que os mortos pensariam, sugerisse que as sinhás pretas sentiriam orgulho ao saberem que seriam lembradas por suas conquistas sociais e econômicas quase 200 anos no futuro?

E vale dar uma resposta à pergunta retórica e irônica: "faltou-lhes capitalismo?". E a resposta é: sim, os horrores da escravidão só podem existir sob formas de capitalismo não plenamente desenvolvidas, como dizem autores marxistas, ou baseadas em instituições extrativistas, como afirmam os autores institucionalistas. No primeiro caso, autores marxistas sustentam que a relação de produção fundamental do capitalismo é o assalariamento, de sorte que sociedades nas quais vigoram regimes de trabalho compulsório, como a escravidão, não são "capitalistas por excelência". Por sua vez, os institucionalistas afirmam que o capitalismo só realiza seu potencial de inclusão dos pobres na economia de mercado quando é sustentado por um arcabouço institucional que, sem privilegiar nenhum grupo oligárquico ou empresarial, promove a livre concorrência e protege as transações entre todos os agentes econômicos. Portanto, nem é preciso ser um entusiasta do capitalismo para reconhecer que o desenvolvimento desse sistema econômico exige a abolição da escravatura e, portanto, de toda a crueldade que acompanha esse regime de trabalho forçado - o qual já existia na África antes do capitalismo e antes do colonialismo, aliás.

Censura racialista

Não bastasse usar de tanta "bullshit", Thiago Amparo acusa Narloch de racismo e reclama que o pluralismo da FSP acabou servindo para dar espaço a um texto racista... Ora, o texto de Amparo é a maior prova de que certos discursos que se apresentam como antirracistas são extremamente autoritários, intolerantes e obscurantistas, pois atacam textos de divulgação científica por meio de "bullshit", exigem que fatos históricos sejam escondidos da opinião pública e ainda usam falsas acusações de racismo para censurar as verdades que afrontam as narrativas de certos grupos militantes.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Sociedade alternativa, com esquerda identitária, é sociedade repressora

Quando eu era aluno da USP, na segunda metade dos anos 80, um dos cantores mais tocados nas festas da geografia era Raul Seixas. E uma das músicas dele que quase sempre tocava era Sociedade alternativa. Eu gosto dessa música do Raul (entre outras dele), cuja letra diz:

Viva a sociedade alternativa

Se eu quero e você quer
Tomar banho de chapéu
Ou esperar papai noel
Ou discutir Carlos Gardel
Então vá!
Faz o que tu queres
Pois é tudo da lei!
Da lei!

Na época, a esquerda universitária era pautada principalmente pelas teorias econômicas marxistas, mas, como também tinha incorporado a cultura do sexo, drogas e rock and roll, legada pela geração de 68, nutria muita simpatia pela ideia de um modo de vida hippie, ou seja, com pouco trabalho, pouco consumo e liberdade para viver como se deseja.

E hoje? Bem, a esquerda não abandonou as velhas críticas econômicas ao capitalismo, mas suas pautas políticas estão muito mais atreladas ao politicamente correto e ao identitarismo. Resultado: segundo uma "Nota de Esclarecimento" divulgada em 2014 pelo Centro Acadêmico de Estudos Linguísticos e Literários - Caell, da USP, houve um conflito durante uma festa a fantasia organizada por esse Centro. O problema começou quando travestis militantes de um "coletivo" que luta pelos direitos dos transgêneros acusou três alunos gays de desrespeito e discriminação porque estes estavam fantasiados de Sailor Moon. Os rapazes acusados tiraram as fantasias em público, no meio da festa, tal como os travestis exigiram, mas estes não sossegaram. Segundo afirma o Caell, as discussões com os travestis militantes continuaram até chegar o ponto em que estes últimos exigiram que a festa fosse encerrada imediatamente e que as mulheres do Centro, que eram as responsáveis pela organização, fizessem um mea culpa diante de todos os presentes, confessando que a gestão do Caell era transfóbica, homofóbica e machista (oi?)! Mas, como os integrantes do Caell se recusaram a atender às exigências, os travestis chamaram a polícia militar... 

Paro aqui a descrição dos acontecimentos narrados pela nota do Caell, a qual está disponível na internet para quem quiser ler. Afinal, o que está dito acima já é suficiente para eu fazer alguns apontamentos. O primeiro deles é que a esquerda universitária dos anos 80 falava em democracia e em liberdade de costumes, mas queria transformar o Brasil numa nova Cuba, país onde não existem nem uma coisa, nem outra. O segundo é que a esquerda atual só fala em combater preconceitos, mas, quando os militantes se reúnem para festejar, quem age como desmancha prazeres e estraga festa não são os "caretas" de antigamente ou a direita religiosa atual, mas sim os próprios militantes identitários, cuja intolerância é inegável 

Encerro dando um aviso de quem já conviveu com muitos militantes universitários e que ainda observa a atuação deles, agora na qualidade de professor: quando virem esse pessoal curtindo o trabalho bem humorado de artistas como Raul Seixas, não se deixem enganar: ontem como hoje, esquerdistas radicais costumam ser gente mal humorada, intransigente, intolerante e preconceituosa. O humor que melhor se encaixa no perfil deles é o do Porta dos Fundos mesmo...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Atila Iamarino presta desserviço à ciência e à democracia

Em março do ano passado, Atila Iamarino divulgou projeções erradas sobre números de casos e de mortes por covid no Brasil. Depois, caiu em contradição ao tentar explicar por que os números reais não bateram com a previsão. No começo de maio, usou um estudo diferente para concluir que tinha sido "muito otimista" ao prever que haveria mais de 1 milhão de mortes até final de agosto se não fossem adotadas as medidas que ele recomendava. Errou de novo e, em junho, mesmo tendo finalmente admitido o erro, usou uma retórica risível para nos convencer de que os números que ele divulgou, embora errados, continuavam "válidos"! [*]

Ele também diz e repete que as pesquisas científicas já provaram que a cloroquina não é eficaz contra a covid e que pode provocar efeitos colaterais muito perigosos. Curioso, pois a Associação Médica Brasileira - AMB, em comunicado oficial, afirma que os estudos sobre a eficácia desse remédio e seus efeitos colaterais ainda não são conclusivos. A AMB é formada por gente ignorante no assunto e que espalha notícias falsas, ou é Atila Iamarino quem faz isso? 

Agora, Iamarino diz que vacinação obrigatória é "autoritarismo necessário". Ora, mas quem diz que vacinação obrigatória é medida autoritária são justamente aqueles que preferem basear as políticas de combate à pandemia na distribuição de cloroquina! Portanto, Iamarino acabou de dar um argumento para os inimigos da vacinação obrigatória: "até o Atila reconheceu que obrigatoriedade é autoritarismo"...

Não bastasse tudo isso, ele diz que "calar" aqueles que criticam a vacinação é também uma forma de "autoritarismo necessário", e a única coisa que podemos fazer se não for decretada vacinação obrigatória. Ora, estou de pleno acordo que os movimentos anti-vacina são irracionais e que prejudicam a saúde pública, mas discordo da ideia de censurar as pessoas que espalham esses discursos. 

Informações falsas se combatem com a divulgação de informações corretas. Desde o começo da pandemia, Iamarino divulgou projeções erradas às pencas e usou argumentos contraditórios e sem sentido para fazer de conta que tinha acertado, mas acha que, agindo assim, contribuiu com a qualidade dos debates públicos. Na verdade, ele prestou um enorme desserviço à ciência, pois suas previsões furadas e argumentos toscos serviram para a produção de centenas de memes que se espalharam pelas redes sociais e, assim, estimularam a desconfiança em relação às intervenções de cientistas nos debates públicos. 

Resumo da ópera: Atila Iamarino é um divulgador científico que fomenta involuntariamente a desconfiança do público contra os cientistas e que ainda reforça essa desconfiança ao propor censurar quem nega a eficácia das vacinas. 

As pessoas que Iamarino quer censurar realmente andam espalhando ideias perigosas, mas um pesquisador que divulga projeções erradas repetidamente e que usa artifícios retóricos para tentar induzir a população a acatar as recomendações de políticas que ele faz também não é perigoso e autoritário? Afinal, há pesquisas, elaboradas por cientistas renomados, que contestam ou relativizam muito a eficácia das medidas rígidas de quarentena e de lockdown que Iamarino e outros defendem[*]. Mas nem por isso vamos sair por aí dizendo que Iamarino tem de ser censurado. Ele se beneficia da liberdade de expressão que deseja negar aos outros.

[*] Referências

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

A arte das comparações estatísticas desonestas numa matéria da BBC

As comparações feitas na matéria Brasil tem mais mortes por covid em 1 semana do que 63 países juntos na pandemia inteira são desonestas. Os 63 países mencionados no título têm populações que, somadas, são muito maiores do que a nossa, mas o artigo não informa que a grande maioria destes é formada por países muito pobres, ou seja, países nos quais a confiabilidade dos dados é tão baixa que cientistas preferem desconsiderar esses dados na elaboração de estudos sobre a pandemia. É o caso de uma pesquisa sobre a possível correlação entre as políticas de aplicação universal de vacina BCG e a pandemia atual. Os cientistas que fizeram o estudo desconsideraram as informações de todos os países de baixa renda devido à falta de confiabilidade nas informações, e os dados brasileiros foram levados em conta porque o Brasil é um país de renda média.

O que se vê na matéria é uma tentativa de alarmar a opinião pública para induzi-la a apoiar medidas mais duras de restrição de contato. E, no afã de cumprir esse objetivo, manda a coerência às favas, como fica claro no momento em que a matéria compara os dados do Brasil com os do Japão e enfatiza que este último tem muito menos mortes... 

Ora, o Japão é um país que nunca aplicou lockdown, nem quarentena. Seu diferencial está justamente em aplicar medidas bastante brandas de distanciamento. Não fechou as fronteiras para viajantes vindos da China mesmo quando os hospitais de Wuhan já estavam sobrecarregados e outros países se fechavam. A pandemia chegou ao Japão em fevereiro, mas só em 07 de abril se decretou estado de emergência. Mesmo com a decretação, os estabelecimentos comerciais foram apenas "convidados" a fechar, e não havia nenhuma punição prevista para os estabelecimentos que abrissem. Em 25 de maio, o balanço das medidas tomadas no Japão e de seus resultados era o seguinte:
Não foram impostas restrições à mobilidade de residentes, e empresas, como restaurantes e salões de beleza, permaneceram abertas. Não foram implantados aplicativos de alta tecnologia que rastreavam os movimentos das pessoas. O país não possui um centro de controle de doenças. E, mesmo quando os países foram exortados a "testar, testar, testar", o Japão testou apenas 0,2% da população, uma das taxas mais baixas entre países desenvolvidos. No entanto, a curva foi achatada, com mortes bem abaixo de mil, de longe o menor número entre países desenvolvidos do G-7. Em Tóquio, com alta densidade populacional, os casos caíram para um dígito na maioria dos dias (aqui).
Agora, na segunda onda, enquanto a Europa já aplicava lockdown, o Japão nem sequer mandava fechar os cinemas: milhões lotaram as salas para assistir um desenho animado. Mesmo assim, a BBC usa a comparação entre Brasil e Japão para dizer que precisamos de medidas mais duras de isolamento! De outro lado, a matéria informa que o Brasil está em 19º lugar quando se trata de mortes por milhão de habitantes, mas não menciona que muitos países em situação pior do que a nossa aplicaram medidas rígidas de quarentena e de lockdown já desde a primeira onda. São os casos da Itália, Espanha, Reino Unido, França e Argentina. 

E, falando na Argentina, é importante ressaltar que a matéria só compara o Brasil com extremos de pobreza e riqueza, nunca com os países mais próximos de nós em termos geográficos e socioeconômicos, ou seja, com os países mais desenvolvidos da América Latina. Desonestidade intelectual absoluta.

Ora, os dados citados pela BBC sobre o aumento recente nos números de casos e de mortes no Brasil são preocupantes, e estão sendo levados em conta pelos governadores. São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul são três exemplos de estados que intensificaram as medidas de distanciamento social para evitar a saturação dos serviços de saúde. Não precisamos de comparações desonestas para justificar esse tipo de medida. E convenhamos: até agora, o Brasil não precisou de quarentena e nem de lockdown para evitar o colapso dos seus sistemas de saúde, ao contrário do que recomendaram vários especialistas que, embora tendo divulgado projeções erradas, ganharam muito destaque em certa imprensa ávida por fazer alarmismo.

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segunda-feira, 30 de novembro de 2020

"Bacurau" é só propaganda ideológica de baixa qualidade

 Assisti Bacurau faz algum tempo e não vi nenhuma dessas qualidades que o crítico Luiz Carlos Merten atribui ao filme (aqui). A obra não faz reflexão política e social coisa nenhuma. É só um monte de clichês esquerdistas a serviço de um maniqueísmo político primitivo, que opõe nacional e estrangeiro, dominantes e "excluídos". 

E a falta de inteligência e o primitivismo político do filme refletem bem o modo de (não) pensar de Kléber Mendonça, que dirigiu esse filme e também Aquarius. Quando Aquarius foi exibido em Cannes,  o elenco e a equipe técnica do filme protestaram contra o suposto "golpe" que teria derrubado Dilma! Ou seja, contaram uma mentira descarada para fazer propaganda partidária e, de quebra, dar visibilidade ao filme. No caso de Bacurau, vale dizer que esse filme tem ainda o defeito de ser didático na exposição de seus clichês políticos maniqueístas e que não se salva nem como filme de ação, já que as cenas de combate são muito pobres em comparação com o que o cinema e a TV americanos já oferecem disso todos os anos, às toneladas. 

Enfim, é um lixo de filme, e a crítica nacional e internacional que o elogia só está interessada em usá-lo como peça de propaganda política contra Bolsonaro e Trump. Isso fica bem evidente no texto de Merten, o qual comenta a associação explícita que a crítica faz entre Bacurau e a oposição a esses políticos. Assim, não surpreende que essa crítica (incluindo Merten) aponte no filme qualidades que este definitivamente não tem. 

As discussões sobre o filme refletem estes tempos de forte polarização política e ideológica, cuja consequência é o empobrecimento dos debates e das avaliações sobre obras artísticas. Chegamos assim ao ponto em que até uma parábola política maniqueísta e cheia de clichês ideológicos explicados na forma de diálogos didáticos pode ser qualificada por certa crítica como obra "audaciosa"! 

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