segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Pandemia: políticos agem com um olho nas urnas e outro no caixa do governo

No começo de maio e no começo de junho de 2020, as redes sociais reverberaram a perplexidade de muita gente com o fato de os estados terem adotado medidas de controle da pandemia mais restritivas  em meados de março, quando os números de casos e de mortes eram pequenos, e relaxado tais medidas justo quando esses números estavam mais altos do que nunca. Domingos Alves, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, afirmou: "O Brasil é o único país que abriu [a economia] com aumento de casos e óbitos" (aqui). Apesar disso, não é difícil entender por que isso foi feito quando nos lembramos de que o homem reage a incentivos e, no caso dos políticos, isso implica agir com um olho nas urnas e outro nas restrições de caixa.

Vejamos: Bolsonaro recebeu o Estado falido pela incompetência e retardamento ideológico do governo Dilma. Logo, sabia que as medidas de distanciamento iriam derrubar drasticamente a arrecadação fiscal e que os investimentos em saúde e assistência social teriam de ser ampliados. Isso agravaria ainda mais a crise fiscal do Estado, cujas despesas já superavam em muito a arrecadação, e de forma crescente, desde o governo petista. De outro lado, os governadores sabiam que a situação fiscal de seus estados também estava bastante comprometida (sobretudo por conta dos gastos previdenciários), mas também tinham em mente três coisas:
  1. que a impopularidade causada por crises econômicas sempre atinge com intensidade o governo federal, mas não os governos locais;
  2. que poderiam pedir ajuda financeira para o governo federal (como sempre!) a fim de amenizar os efeitos das medidas de distanciamento;
  3. que várias pesquisas de opinião pública mostraram que a maior parte da população desejava a execução de medidas duras para barrar a pandemia, como o lockdown;
Não surpreende, portanto, que as primeiras medidas de distanciamento social tenham sido tomadas em meados de março: os governadores atenderam ao apelo popular, e os bolsonaristas mais empedernidos apoiaram as provocações e críticas do presidente contra as medidas. Em 27 de maio, uma pesquisa do Datafolha mostrava resultados interessantes: 60% dos entrevistados achavam que seria recomendável um lockdown e 36% eram contra, mas, ao mesmo tempo, a adesão às medidas de distanciamento havia caído um pouco desde um mês antes (aqui). Apesar disso, a arrecadação do ICMS já havia despencado, e os governadores sabiam que a ajuda do governo federal não seria suficiente para manter a capacidade de gasto dos estados por muito tempo. Chegaria a hora em que seria inviável continuar pagando os salários do funcionalismo, entre outras despesas mandatórias. E, se existe uma coisa sacrossanta no Brasil, são os salários e privilégios do funcionalismo público...

Assim, Doria e outros governadores contrariaram a maioria da opinião pública e abrandaram as medidas que, desde o início, eram mais brandas do que o recomendado por muitos epidemiologistas. O resultado foi que, depois de uma fortíssima queda da atividade econômica no mês de abril, houve leve crescimento nos meses de maio e junho, em comparação com abril (aqui).

Isso não significa, é claro, que os governadores e prefeitos ignoraram completamente a necessidade de controlar a pandemia. Afinal, se o número de casos explodisse, superando a capacidade de atendimento dos sistemas de saúde, o número de mortes poderia disparar, e os noticiários mostrariam cenas dramáticas de gente morrendo por falta de leitos e de UTI, o que poderia ter efeitos muito danosos para a imagem pública desses governantes. Portanto, governadores e prefeitos montaram equipes de especialistas para monitorar os números de casos, de óbitos, capacidade de atendimento hospitalar e de demanda por serviços médicos com o fim de abrandar as medidas de distanciamento tanto quanto possível sem, entretanto, ocasionar o colapso dos sistemas de saúde.

E não há como negar que essas medidas atingiram o objetivo. Contrariando especialistas que afirmaram que poderia haver "rebote" do número de casos e de mortes, vimos que a taxa de contágio diminuiu de junho em diante, de sorte que as curvas do número diário de casos e do número diário de óbitos permaneceram "achatadas", preservando a capacidade de atendimento hospitalar. Hoje, essas taxas tendem a declinar, e há boas evidências científicas de que a imunidade de rebanho já foi atingida em alguns estados.

Mas e a vacina?

No final das contas, podemos avaliar que os governadores e prefeitos, de um modo geral, agiram corretamente, ao menos com base nas informações disponíveis até o momento. Mas será que não teria sido melhor prolongar as medidas de distanciamento tomadas em meados de março, a fim de salvar mais vidas? No curto prazo, é óbvio que a resposta é "sim". Mas, no médio e longo prazos, a resposta depende de saber quando haverá uma vacina eficaz contra o covid-19 e quando essa vacina poderá ser aplicada de forma massiva no Brasil. Se a vacina vier logo, talvez cheguemos à conclusão de que poderíamos ter salvo muito mais gente sem causar tanto dano à economia quanto o que era esperado inicialmente. Mas, se a vacina demorar, poderá ficar claro que as decisões de governadores e prefeitos, mesmo tomadas com um olho nas urnas e outro no caixa, foram as melhores para combinar controle da pandemia com crescimento econômico, o qual também é vital para salvar vidas, uma vez que recessão também mata muito (aqui)

No reino das escolhas trágicas, não há estratégia boa; só estratégias menos ruins.

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quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Doria versus Bolsonaro: o primeiro agiu certo




Não gosto de fazer previsões em assuntos nos quais sou leigo, como é o caso das políticas sanitárias para conter pandemias. Quando Bolsonaro entrou em guerra com vários governadores por conta das medidas contra o coronavírus, decidi não fazer avaliações antes de observar os resultados dessas medidas. As considerações que farei agora sobre o modo como o Brasil vem lidando com o problema vão ter como focos principais o governo federal e o do estado de São Paulo, que é o estado com maior número de casos e de mortes.

De início, é bom notar que as projeções catastrofistas do Imperial College of London (IC) e do biólogo Atila Iamarino erraram feio ao desenharem cenários sobre a velocidade com que a doença se espalharia no Brasil e sobre o número de mortes. O próprio Iamarino reconheceu mais tarde que o Brasil estava em situação melhor do que EUA, Itália, Espanha, França e Reino Unido, mas, para não ter de admitir que exagerou, disse que o Brasil estava melhor por ter agido rápido, afirmação essa que contradiz o que ele mesmo havia publicado no Twitter, em 13 de março, sobre a demora brasileira em agir (aqui). No começo de maio e, outra vez, no começo de junho, as medidas de distanciamento estabelecidas pelos governadores, que desde o início eram brandas em comparação com as recomendadas pelo IC e por Iamarino, foram relaxadas (aqui). Ainda assim, o contágio perdeu velocidade em São Paulo, Rio de Janeiro e também no Norte e Nordeste, de sorte que as curvas nacionais de casos diários e também de mortes diárias foram "achatadas" (acima). Só não houve queda na média nacional de casos e de mortes porque a pandemia se acelerou em Minas Gerais, no Sul (com o início do inverno) e também no Centro-Oeste, onde o vírus demorou mais tempo para chegar.

Bem, isso significa que Bolsonaro tinha razão em minimizar o problema e em recusar-se a fechar as fronteiras do país? Ele estava certo em ficar fazendo críticas e provocações contra os governadores que decidiram tomar medidas de distanciamento social e em criar empecilhos normativos até para a obrigatoriedade do uso de máscaras? Observando-se os números, está claro que, se Iamarino e outros especialistas exageraram muito o problema, Bolsonaro errou feio no sentido contrário.

Escolhas trágicas

Ora, o objetivo das variadas políticas de distanciamento social, isolamento, supressão, lockdown, etc. é "achatar a curva" do número de casos de modo a evitar que a demanda por hospitalização e por serviços de UTI ultrapasse a capacidade de atendimento dos sistemas de saúde. Após o início da pandemia (embora não de forma imediata, é óbvio) a oferta de leitos de UTI cresceu 45% no Brasil. Ainda assim, houve vários casos localizados de saturação dos serviços hospitalares, sendo Manaus o pior de todos, com a capacidade do sistema superada em 500% (aqui)! Na capital paulista, a ocupação de leitos hospitalares chegou a 91%, mas recuou, mesmo depois que as medidas de distanciamento já tinham sido relaxadas. 

Diante desse quadro, é fácil perceber que, se nada tivesse sido feito, haveria muito mais episódios de colapso dos sistemas de saúde no Brasil, levando a ainda mais mortes por covid e também por falta de atendimento de pacientes com outros problemas graves de saúde. Nesse sentido, podemos concluir que Doria e vários outros governadores e prefeitos agiram de forma acertada. De um lado, evitaram implementar uma política de supressão rígida e prolongada, a qual salvaria mais vidas no curto e médio prazos, mas sem garantia de continuar salvando no longo prazo[*], e cujos efeitos sociais seriam ainda mais destruidores do que os causados pelas medidas de distanciamento efetivamente tomadas. De outro lado, não minimizaram o problema e nem tentaram justificar a pouca ação com discursos que exageram a eficiência de certos medicamentos ou que não passam de tolices sobre "histórico de atleta", entre outras falas populistas de Bolsonaro.

Mas não quero fazer uma análise moralista e ingênua, segundo a qual os políticos que agiram da forma como eu considero mais acertada assim fizeram por terem tido maior sensibilidade para a situação dos pobres sem descuidarem da pandemia. O homem reage a incentivos, afinal, e é ao considerar os incentivos que influenciam as decisões políticas que conseguimos entender melhor as escolhas dos dirigentes. No caso, os governadores agiram com um olho nas urnas e outro no caixa do governo. Trato disso no próximo post, pois este já ficou muito grande.

[*] Diversas pesquisas internacionais levaram à hipótese de que a aplicação por seis meses ou mais de medidas rígidas de lockdown ou de quarentena severa é a estratégia que mais salva vidas no curto e médio prazos, mas, no longo prazo, pode matar tanto quanto não fazer nada. As medidas mais eficazes para salvar pessoas sem prejudicar demais a economia seriam a aplicação de testes em massa e isolamento dos doentes, segundo esses estudos (aqui).

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sexta-feira, 24 de abril de 2020

Cientista responsável é o que informa ou o que assusta?

O Observatório Covid-19 BR é um grupo interdisciplinar e independente de cientistas que se dispõem a reunir informações oficiais sobre a pandemia no Brasil e a tratar essas informações com o uso de métodos estatísticos e de modelos matemáticos elaborados por epidemiologistas. Seus objetivos são: fornecer informações úteis para o planejamento das políticas públicas e também "informar a população a partir de um ponto de vista científico" (aqui).

No dia 20 de março de 2020, a imprensa apresentou alguns dos primeiros resultados do trabalho do Observatório. Ficamos assim sabendo que o "ritmo de contágio do coronavírus no Brasil está igual ao registrado na Itália e acelerando". Além disso, os cientistas calcularam que o número de casos da doença, no Brasil, apresentava a tendência de dobrar a cada 54 horas e 43 minutos (aqui)!

Todavia, essa primeira projeção não se confirmou (aqui), e parece já existir um consenso de que o vírus não vem se propagando no Brasil no mesmo ritmo em que isso se deu nos países mais afetados - EUA, Itália, Espanha, França e Reino Unido -, e que o número de mortes diárias pelo covid-19 está também bem mais baixo do que nesses países. O epidemiologista Atila Iamarino, que trabalhou com uma projeção equivocada como aquela em março, já reconheceu que o Brasil está em situação bem melhor, por enquanto (aqui)[*].

Mas isso não significa que o Observatório tenha feito um trabalho incompetente. Os cientistas não dispõem de um conhecimento completo dos muitos fatores que afetam as taxas de infeção, morbidade e de mortalidade desse vírus em cada país, de modo que as projeções podem falhar e ser corrigidas mais tarde à luz de novas informações. Os cálculos divulgados pelo Observatório poucos dias depois indicavam que, em 23 de março, o tempo de duplicação do número de casos era um pouco maior, chegando a 62 horas (aqui). Mas e hoje? Ao acessar o site do Observatório, em 23 de abril, deparei-me com esse pequeno texto: 
No momento não é possível estimar tempos de duplicação da epidemia, pois há um enorme acúmulo de testes moleculares sem resultados, necessários para que os casos sejam confirmados e notificados. Essa demora faz com que os números disponíveis publicamente (número de notificações) cresça de maneira artificialmente lenta.
Assim, a evolução dos números oficiais informa hoje sobre a dinâmica de notificação, não da epidemia. Seria irresponsável seguir divulgando medidas de propagação da epidemia no Brasil com esses números (aqui).
Todos sabem que os números de casos e de mortes são subnotificados, mas não são menos subnotificados hoje do que eram há pouco mais de um mês, quando o Observatório usou os dados oficiais para calcular a velocidade de duplicação de casos com precisão de minutos! Por que antes era responsável calcular o tempo de duplicação e divulgar o resultado, mas hoje não é mais? Por que os primeiros dados oficiais permitiam fazer cálculos que projetavam uma catástrofe, mas agora os mesmos dados oficiais, já melhorados, revelam que a epidemia não se propaga  tão depressa quanto se pensava?[**]

Ao que parece, os cientistas que integram o Observatório acreditam que a responsabilidade deles está em mostrar o cenário mais tenebroso possível para convencer a opinião pública e as autoridades de que as medidas de isolamento precisam ser precoces, rígidas e bastante prolongadas. Se for esse o caso, trata-se de uma postura ética bastante questionável, independentemente de que tais medidas sejam realmente as melhores ou não. Afinal, segundo o filósofo Karl Popper, o compromisso do cientista está na sua atitude pessoal em relação à verdade. Nesse sentido, não é aceitável que cientistas de certas áreas filtrem informações com o fim de criar um efeito psicológico na opinião pública e nas autoridades que as induza a tomar as decisões que esses cientistas julgam ser as melhores. A responsabilidade do cientista reside no compromisso de produzir conhecimentos objetivos sobre os fenômenos e de divulgar esses conhecimentos para que cientistas de outras áreas, além de políticos, juristas, jornalistas e a opinião pública debatam o que fazer com base nesse conhecimento.

Por fim, mas não menos importante: se os cientistas se preocuparem com os efeitos políticos do conhecimento que divulgam ao ponto de filtrarem informações e/ou de não admitirem erros que são inerentes ao trabalho científico, o efeito disso em parte da opinião pública pode ser extremamente danoso para a própria ciência. Afinal, como os cientistas e professores poderão reclamar quando virem que parte da opinião pública prefere dar ouvidos a jornalistas e políticos que confirmam suas convicções sobre determinado assunto ao invés de confiarem na palavra dos especialistas se existirem exemplos concretos de cientistas que filtram informações com o objetivo de alterar as decisões políticas? 

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[*] Iamarino explica a melhor situação brasileira afirmando que nossas autoridades foram precavidas e agiram cedo (sic!), o que contraria o que ele mesmo dizia em 13 de março e não é sustentável à luz dos fatos (aqui).
[**] Os dados atuais sobre número de óbitos por dia são melhores do que os disponíveis quando o Observatório fez suas primeiras projeções. Isso porque há uma defasagem de vários dias entre o registro de óbito e a entrada dessa informação nas estatísticas do Ministério da Saúde, o qual vai corrigindo os dados sobre óbitos diários conforme as informações vão sendo consolidadas (aqui).

domingo, 19 de abril de 2020

Atila Iamarino errou, mas finge que acertou?

Um vídeo do epidemiologista Atila Iamarino que vem sendo bastante compartilhado nas redes sociais faz uma comparação das estatísticas do Brasil, EUA, Itália, Espanha, França e Reino Unido e, com base nesses números e em projeções, conclui que o Brasil exibe bem menos mortes registradas do que os outros porque foi bem rápido em tomar medidas de isolamento (aqui). A primeira conclusão a extrair dessa fala é que Iamarino teria acertado, no mês de março, quando afirmou que a epidemia se espalhava aqui tão depressa quanto na Itália ou EUA e que medidas de supressão deveriam ser tomadas o quanto antes, e prolongadas por vários meses, para evitar uma hecatombe. A segunda conclusão é que os fatores mais importantes para explicar o grau de sucesso de um país no combate à pandemia seriam a precocidade e intensidade das medidas de isolamento adotadas.

Bem, é chato dizer, mas o que esse autor andou escrevendo no Twitter em 13 de março indica que, na visão dele, o Brasil já havia perdido a chance de se antecipar:
Nós tivemos 2 meses pra ver o que aconteceu com a China (e menosprezar por ser outra cultura), 1 mês pra ver o que aconteceu com a Itália e Japão. Já poderíamos ter planejado fechamento de escola, ajuda com empresa pra mandar gente pra casa, treinado as pessoas pra se afastarem.
10:44 PM · 13 de mar de 2020 (aqui
Não aproveitamos a oportunidade, provavelmente pelo bem da economia e para não gerar pânico de mercado. Vamos ver o caminho onde entramos. Não deixem as pessoas culparem o vírus lá na frente. Isso não aconteceu, isso foi decidido.
10:44 PM · 13 de mar de 2020 (aqui)
No dia 18 de março, Iamarino usou uma pesquisa do Imperial College of London para, por meio da extrapolação dos dados sobre os EUA para a realidade brasileira, traçar os seguintes cenários (aqui):
  • Se nada fosse feito, haveria 1,4 milhões de mortos pelo coronavírus no Brasil até agosto de 2020 e 2,6 milhões de mortos devido ao colapso do sistema de saúde, já que a demanda por leitos hospitalares, UTIs e por respiradores ultrapassaria em muitas vezes a capacidade de atendimento.
  • Já o "melhor cenário de mitigação" seria "[...] todo mundo com sintomas é isolado em casa, a família é quarentenada e isolamos idosos com mais de 70 anos";"[...] ainda faltam leitos, o que dobra a mortalidade. Extrapolando essa situação pro Brasil (sem levar em conta a proporção de idosos aqui) seria o equivalente a ainda ter mais de 1 milhão de brasileiros mortos até o fim de agosto".
  • "A única forma de diminuir drasticamente as mortes pela simulação seria a supressão: escolas e universidades fechadas, idosos isolados, casos sintomáticos e familiares isolados e a maior parte dos locais públicos ou com muita gente (como trabalho) fechados".
  • "Nesse cenário, a maior parte das pessoas se salvam. Temos alguns milhares de mortos por algumas semanas, mas os casos caem. Quase todo mundo que precisa de UTI é tratado. Sem milhões de mortes. MAS se suspender a supressão, casos explodem e milhões de mortes de novo".
Ora, se essas previsões de meados de março estivessem corretas, Iamarino jamais poderia falar agora como se o Brasil fosse um exemplo para o mundo, o país que agiu rápido e com muita firmeza para salvar vidas. Afinal, nós não isolamos a população idosa, não isolamos os infectados e nem suas famílias. Para isso, teríamos de fazer testes em massa para identificar os doentes (sintomáticos e assintomáticos), mas o Brasil efetua apenas 269 testes por milhão de habitantes. Portanto, é ponto pacífico que o Brasil não aplicou a política de supressão recomendada por Iamarino. O que fizemos (com diferenças entre estados) foi uma política de distanciamento social sem o reforço do isolamento daqueles grupos.

Mas será que, apesar disso, tais medidas de distanciamento não teriam sido rápidas e rígidas o bastante para nos aproximarmos da supressão? Bem, o presidente Bolsonaro declarou que o covid-19 é "só uma gripinha" e, sendo assim, não declarou quarentena nacional e nem sequer restringiu a entrada de pessoas vindas do exterior pelos aeroportos, mesmo em se tratando de viajantes provenientes de países muito atingidos pela epidemia, como EUA e Itália. Esse governo até bloqueou algumas iniciativas estaduais, pois a Anvisa entrou na justiça para impedir alguns governadores de aplicarem uma política de medir a febre de pessoas chegadas do exterior nos aeroportos. Em função disso, a epidemia já havia chegado até a aldeias indígenas no dia 30 de março (aqui).  

Devido à inação do governo federal, as medidas de distanciamento foram sendo implantadas de forma progressiva e descoordenada, à semelhança do que aconteceu nos EUA, onde governadores foram implantando medidas mais rígidas do que aquelas tomadas por Trump. No dia 16 de março, a imprensa anunciava que as medidas de isolamento se restringiam a "alguns estados", como São Paulo (aqui). Não é à toa que, três dias antes, Iamarino tuitava que não estávamos aproveitando a oportunidade. Em 27 de março, os governadores de Santa Catarina, Mato Grosso e Rondônia anunciavam que iriam permitir a reabertura de algumas atividades de comércio e serviços, enquanto a grande maioria dos governadores declarava que as restrições seriam mantidas (aqui). 

Em face da descoordenação, é preciso contar com a tecnologia para tentar conhecer a efetividade das medidas de restrição por estado e na média nacional. No dia 02 de abril, a imprensa informava que, segundo levantamento feito por uma empresa de software de geolocalização aplicado a smartphones, a média nacional de pessoas em casa era de 58,3% (aqui). Se esse levantamento for razoavelmente preciso, significa que cerca de 40% da população não estava propriamente isolada até começo de abril, de modo que as medidas de distanciamento social aplicadas no Brasil não foram precoces e ficaram muito aquém do que foi recomendado por Atila Iamarino para evitar que o Brasil repetisse o desastre italiano.

Portanto, o caso brasileiro depõe contra a segunda conclusão mencionada acima, isto é, a de que a precocidade e intensidade das medidas de isolamento são os fatores mais importantes para explicar o grau de sucesso alcançado por cada país. Mas seria o Brasil o único ponto fora da curva? 

Não. Poderíamos citar também o caso japonês. Até o dia 24 de março, o governo japonês não havia nem sequer proibido as pessoas de saírem às ruas, embora a doença já tivesse chegado ao país havia cerca de dois meses - antes de ter chegado à Europa, portanto (aqui). Foi só em 07 de abril que o governo desse país decidiu declarar estado de emergência. Mesmo assim, o Japão registrou pouquíssimos óbitos diários nos meses de janeiro até começo de abril, e acumulava apenas 85 mortes naquela data. De outro lado, Itália, Espanha e França implantaram medidas duras de quarentena entre os dias 09 e 17 de março, mas, ainda assim, amargaram centenas de óbitos por dia dali até 12 de abril, acumulando milhares de mortes cada um (aqui).

Qual é a explicação que Atila Iamarino dá ao caso japonês no vídeo citado acima? Nenhuma, pois os gráficos que ele mostrou não incluíam o Japão. A impressão que fica é que o autor selecionou apenas os casos que supostamente confirmam sua teoria e ignorou os casos que não se encaixam. Um artifício válido nos campos do direito e da política, em que se trabalha com a retórica, mas não no campo científico, no qual é preciso levar em conta todos os casos.

Cientistas e professores odeiam quando pessoas leigas num assunto preferem dar ouvidos a jornalistas e políticos que confirmam as convicções delas ao invés de confiarem nos especialistas. Mas, quando até um leigo em epidemiologia, como é o meu caso, consegue perceber pela análise dos fatos que um cientista de currículo reconhecido pode estar se contradizendo e filtrando informações, fica difícil deixar de pensar que aquela atitude de desconfiança de boa parte do público é estimulada pela forma como alguns cientistas participam dos debates públicos.

P.S. - Obviamente, não nego que medidas de isolamento salvam vidas. A questão é que precisamos conhecer bem as causas das diferenças de desempenho entre países para calibrar essas medidas (ver abaixo). Afinal, é inconteste que distanciamento social diminui as taxas de infecção e de mortalidade, mas é igualmente inconteste que distanciamento gera recessão e que recessão também mata.

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segunda-feira, 13 de abril de 2020

Pandemia nos pôs no mundo das escolhas trágicas

Um clichê muito comum nos filmes de ação e de super-heróis é o que eu chamo de “falsa escolha trágica”. Aquele momento em que o vilão força o herói a escolher entre salvar a vida da mulher que ele ama ou salvar o mundo, a cidade, ou dezenas de pessoas que ele não conhece. Mas, embora o herói sempre opte por salvar primeiro quem ele ama, sempre acaba tendo tempo de salvar também as outras pessoas. Então a escolha trágica é falsa, pois o herói não é realmente obrigado a escolher quem vai salvar: ele salva todo mundo, pronto.


Pena que o mundo real não seja assim. Na vida real, há ocasiões em que se é obrigado a escolher quem morre e quem vive, ou a escolher entre mais mortes ou menos mortes. E o pior: sem ter certeza sobre qual decisão vai matar mais. É bem nessa situação que a pandemia colocou o mundo. 


Isolamento horizontal prolongado nem sempre é necessário e nem todos podem bancar 


Todo mundo, inclusive eu, já disse que EUA e Itália estão em situação pior do que os outros países porque demoraram a agir. Mas, à medida em que o tempo foi passando, ficou claro que não é bem assim [*].


A França decretou quarentena em 17.03 e já tem 14,3 mil mortes registradas. A Espanha decretou quarentena em 15 de março e já acumulou 16,9 mil mortes. A Itália decretou quarentena nacional em 09 de março, mas já está com 19,8 mil mortes confirmadas. 


A doença chegou ao Japão antes de chegar a esses países todos e, mesmo assim, os japoneses só decretaram estado de emergência em 07 de abril. Até aquela data, esse país registrava só 85 mortes acumuladas. Em 12 de abril, eram 108 mortes.


Os EUA até que se parecem com o Brasil. Lá, assim como aqui, o isolamento horizontal foi se estabelecendo de forma progressiva e diferenciada por estado, já que os governadores implantaram medidas mais restritivas do que o governo Federal. Mas a diferença de resultado é abissal: os EUA já contam 21,3 mil mortes, enquanto o Brasil registra apenas 1,1 mil mortes. 


Esses fatos mostram que a precocidade e intensidade das medidas de isolamento não são os fatores mais importantes para explicar as diferenças de desempenho entre os países. E nem dá para dizer que o isolamento horizontal é a única alternativa que funciona: quando o Japão decretou estado de emergência alegando perigo de descontrole, estava em situação muitíssimo melhor do que a de quase todos os países do mundo. Logo, o isolamento horizontal não era uma necessidade absoluta para esse país. Lá, o endurecimento das medidas foi uma resposta do governo ao estado psicológico da população, que, na sua maior parte, apoia medidas de isolamento pelo desejo de salvar o maior número possível de vidas. É compreensível as pessoas quererem salvar o máximo de vidas em números absolutos, sem se importarem se estão em situação relativa melhor ou pior. Ainda assim, o governo japonês só tomou essa decisão porque irá levantar 1 trilhão de dólares para custear o isolamento… Pouquíssimos países podem contar com tantos recursos assim.


Isso significa que nem todos os países precisam de isolamento horizontal e que a maioria dos que talvez precisem ou desejam implementar essa medida não têm dinheiro para isso. Mas, se as medidas de isolamento não são o fator mais importante para explicar as diferenças de desempenho entre países, qual seria? 


Pelo que eu li até o momento, a melhor hipótese é a das políticas nacionais de aplicação de vacina BCG. Sabe-se há tempos que a vacina BCG não imuniza só contra a tuberculose, mas também contra vários tipos de doenças respiratórias. Os pesquisadores do Departamento de Biomedicina do Instituto de Tecnologia de Nova Iorque resolveram então testar se havia correlação entre as políticas de aplicação universal de BCG e as taxas de infecção, morbidade e de mortalidade por covid-19. 


O que descobriram? Países sem políticas universais de aplicação de vacina BCG, ou que interromperam tais políticas, estão sofrendo muito mais com esse vírus: EUA, Itália, Espanha, França e Holanda, entre outros. O caso do Irã é ilustrativo porque esse país só começou com a vacinação universal em 1984 e, portanto, não imunizou sua população idosa. De outro lado, países com políticas de vacinação universal e obrigatória iniciadas há mais tempo e mantidas continuamente são os que têm as menores taxas de infecção e de mortalidade. Entre eles estão o Japão, que deu início a tal política em 1947, e o Brasil, que começou em 1920.


Mas é certo que identificar uma correlação entre dois fatores não significa que não haja outros fatores atuando. O Japão pode ter sido ajudado também por sua “cultura de resguardo”, como já comentou um infectologista brasileiro. O Brasil não conta com essa cultura, mas pode estar sendo beneficiado em alguma medida pelo fato de que, como já é conhecido desde os anos 1980, os vírus da classe corona não se disseminam tão depressa em regiões de clima quente.


Escolhas trágicas


Se as projeções do Imperial College of London sobre o Brasil tivessem acertado, nós estaríamos agora no rumo de uma hecatombe: cerca de 1 milhão de mortes. Tivemos sorte, pois, mesmo com medidas bastante frouxas (em comparação com aquelas recomendadas por essa instituição e pelo epidemiologista Atila Iamarino), estamos nos saindo bem na comparação com EUA, Itália, Espanha, França, Equador, etc. 


Mas o problema é que as medidas de isolamento já tomadas, mesmo sendo brandas, têm efeitos econômicos potencialmente desastrosos. Recessão também mata; e mata muito. Em apenas um ano, o número de pobres e de miseráveis poderá crescer facilmente em milhões de pessoas (ver abaixo). E nós não dispomos de recursos para bancar medidas rígidas e prolongadas de isolamento, ao contrário de outros países citados aqui. Só com as medidas tomadas até o momento, o governo de Minas Gerais já está ficando sem dinheiro até para pagar o funcionalismo.


Então o melhor seria começar a abrandar as medidas de isolamento a partir de agora? Talvez não, pois não podemos olhar o número de infectados e de mortos sem levar em conta a capacidade do nosso sistema de saúde, especialmente no que diz respeito ao atendimento em UTI. No Brasil, a taxa de leitos hospitalares é inferior ao mínimo recomendado pela OMS para épocas normais. Só isso já é uma boa indicação de que nosso sistema de saúde pode entrar em colapso mesmo com um ritmo de infecções e de mortes diárias muito inferior ao dos países mais afetados.


É possível que o Brasil esteja diante de uma escolha trágica: se as medidas de isolamento forem prolongadas ou intensificadas, o desastre econômico será de tal ordem que, muito provavelmente, vai matar mais do que a pandemia, ainda que num prazo mais longo. Por outro lado, se as medidas forem abrandadas, mais gente vai morrer pelo vírus. E não adianta chamar pelo Super-Homem.

[*]: Os números citados for obtidos em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51987873. Acesso em: 12 abr. 2020.


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sexta-feira, 10 de abril de 2020

"Instinto de negatividade" na pandemia

O médico Hans Rosling chamava de "instinto de negatividade" à tendência que as pessoas têm de prestarem muito mais atenção às informações negativas do que às positivas. Essa seria uma das razões que explicam por que a maioria das pessoas, mesmo as mais instruídas, acha que o mundo está piorando, quando todas as evidências empíricas provam que o mundo melhorou enormemente nas últimas décadas, em quase todos os países e em todos os setores (Rosling, 2019). 

Ora, a reação de muitos brasileiros à atual pandemia é um exemplo interessante de como esse instinto opera. Quando surgiram os primeiros casos confirmados da doença no Brasil, os pesquisadores do Observatório Covid-19 BR afirmaram que esta vinha se disseminando aqui à mesma velocidade com que havia se espalhado na Itália e na Espanha poucas semanas antes. Isso deixou a opinião pública alarmada, e com toda razão. Contudo, os cálculos efetuados pelos cientistas estavam errados!

Em 20 de março de 2020, com efeito, o Observatório estimou que, no dia 24 de março, haveria um mínimo de 2.714 e um máximo de 3.400 casos no Brasil. E previram que a tendência a partir dali era de o número de casos dobrar a cada 54 horas e 43 minutos. Todavia, os números oficiais mostram que o número de casos no dia 24 era de apenas 2.201. Bem menos do que o mínimo estimado! Além disso, se o número de casos dobrasse naquela velocidade, deveriam haver 86.848 casos até o dia 11 de abril. Só que o número de casos confirmados nessa data ficou em apenas 10.278...

Todavia, quando eu comento com as pessoas nas redes sociais que essa e outras projeções falharam, quase todas se mostram céticas e dizem: "Mas os números oficiais são subestimados! Para saber com certeza teríamos de fazer muitos testes, mas não fazemos! O número real com certeza é muito maior"! 

Essa resposta demonstra que as pessoas se deixam levar pelo "instinto de negatividade" a tal ponto que não percebem que o argumento da falta de testes tanto pode servir para dizer que o número real é muito maior como também para explicar por que as projeções iniciais do Observatório exageraram.

A razão é simples: como o Brasil faz poucos testes (e a grande maioria dos países também testa pouca gente) isso significa que é bastante razoável supor que a doença não chegou ao Brasil em 26 de fevereiro, data do primeiro caso confirmado, mas bem antes disso. Afinal, já que o número de pessoas testadas é pequeno, nada mais lógico que a doença tenha chegado ao Brasil semanas antes do que se pensa e se disseminado por um bom tempo até ser detectada pela primeira vez, certo? Os pesquisadores do Observatório teriam errado por que supuseram que o primeiro caso confirmado era realmente o primeiro caso de todos? Olharam os números de infecções relativos aos dias entre o final de fevereiro e começo de março e acharam que estavam vendo o início da pandemia no Brasil, quando o que viam era a doença já com algumas semanas de infecção?

Na verdade, os cálculos e projeções que esses cientistas elaboraram tomavam como ponto de partida o dia 14 de março, quando já havia 121 casos registrados, porque esse era o número mínimo necessário para que os cálculos pudessem ser feitos. Mas então por que as projeções falharam?

Seja qual for a resposta, a reação de muitas pessoas à notícia de que o Covid-19 não se espalhou no Brasil tão depressa quanto na Itália demonstra que elas se deixam levar pelo "instinto de negatividade" ao ponto de argumentarem de forma contraditória, pois não percebem que a razão que alegam para acreditar no pior cenário possível é exatamente a mesma que nos ajuda a explicar por que esse cenário não se realizou até o momento. 

P.S. - Não pretendo substituir o instinto de negatividade por um otimismo exagerado. O número diário de mortes continua crescendo devagar, sem tendência exponencial, mas mudou um tanto de patamar no início de abril. Apenas ressalto que as previsões mais catastróficas falharam, e isso tem de ser levado em conta no planejamento de medidas de isolamento, cujos efeitos sociais são terríveis.

Atualização do post (15.07.20) - "[...] cientistas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) identificaram a presença do vírus em amostras de esgoto congeladas, que foram coletadas a partir de 27 de novembro [de 2019]". A mesma matéria informa que, na Espanha, o vírus já estava presente nos esgotos um ano antes do primeiro caso registrado da doença  (aqui). Portanto, as estimativas do Observatório em março falharam ao concluir que a doença estava se espalhando aqui com a mesma velocidade com que havia se espalhado em países como Itália e Espanha, e a falha ocorreu porque esse grupo não levou em conta que o vírus, muito provavelmente, havia chegado ao Brasil antes do que se imaginava, sendo que o pequeno número de testes realizados era o principal motivo para levar isso em consideração.

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ROSLING, H. Factfulness: o hábito libertador de só ter opiniões baseadas em fatos. 2. ed. Rio de Janeiro: Record,  2019.

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