segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Thiago Amparo usa "bullshit" racialista para atacar Leandro Narloch

Como dizem, "contra fatos não existem argumentos". A crítica de Thiago Amparo a um texto de Leandro Narloch que foi publicado na Folha de São Paulo é a prova disso. Narloch resenhou um livro de Antonio Risério, o qual baseou-se em pesquisas realizadas por historiadores para tratar das "sinhás pretas", ou seja, das negras brasileiras que, ainda no período da escravidão, conseguiram comprar sua liberdade, acumularam bens e se tornaram donas de escravos. Um exemplo citado por Narloch:

Em 1836, Marcelina Obatossi comprou sua alforria de um outro negro liberto e a partir de então acumulou 18 escravos, meia dúzia de casas no que hoje chamamos de centro histórico de Salvador e muitas joias (aqui).

Muito bem: qual é a crítica de Thiago Amparo a essa resenha? Rigorosamente falando, nenhuma! Ele apenas ataca uma exposição baseada em fatos usando "bullshit", ou seja, palavras e imagens com forte apelo emocional que visam convencer as pessoas sem a apresentação de argumentos racionais. Vejamos:

1 -  Qual foi a fonte de pesquisa histórica usada por Amparo para contestar os fatos relatados por Narloch? Nenhuma!

2 - Amparo afirma que "Narloch usa histórias individuais para mascarar a brutalidade do seu argumento: legitimar a escravidão ao relativizá-la". Portanto, Amparo reconhece que os fatos citados por Narloch são reais, e sua crítica às conclusões que esse autor extrai dos fatos não tem base racional nenhuma. Afinal, Amparo não explica o que entende por relativizar a escravidão, não demonstra que Narloch a relativizou e nem explica qual seria a ligação entre relativizar e legitimar no caso da resenha criticada; 

3 - Como não consegue contestar os fatos e nem esclarece o seu raciocínio, Amparo encena indignação e apela para o emocionalismo: "senti ânsia de vômito, literalmente; um misto de repugnância e desânimo. [...] Imagino como se sentiriam as escravas diariamente estupradas lendo seu texto; ou os escravos doentes jogados ao mar: faltou-lhes capitalismo?".

Mediunidade e capitalismo

A indigência intelectual do texto de Amparo é tamanha que lê-se nele até o truque retórico de falar pelos mortos! Para demonstrar a desonestidade intelectual desse truque, é o caso de perguntar a Amparo o que ele imagina que Marcelina Obatossi, Francisca Maria da Encarnação, Custódia Machado de Barros e Joaquina Borges de Sant’Anna, entre outras sinhás pretas, pensariam se lessem o texto de Narloch... Ou ainda: como ele reagiria se alguém, imaginando o que os mortos pensariam, sugerisse que as sinhás pretas sentiriam orgulho ao saberem que seriam lembradas por suas conquistas sociais e econômicas quase 200 anos no futuro?

E vale dar uma resposta à pergunta retórica e irônica: "faltou-lhes capitalismo?". E a resposta é: sim, os horrores da escravidão só podem existir sob formas de capitalismo não plenamente desenvolvidas, como dizem autores marxistas, ou baseadas em instituições extrativistas, como afirmam os autores institucionalistas. No primeiro caso, autores marxistas sustentam que a relação de produção fundamental do capitalismo é o assalariamento, de sorte que sociedades nas quais vigoram regimes de trabalho compulsório, como a escravidão, não são "capitalistas por excelência". Por sua vez, os institucionalistas afirmam que o capitalismo só realiza seu potencial de inclusão dos pobres na economia de mercado quando é sustentado por um arcabouço institucional que, sem privilegiar nenhum grupo oligárquico ou empresarial, promove a livre concorrência e protege as transações entre todos os agentes econômicos. Portanto, nem é preciso ser um entusiasta do capitalismo para reconhecer que o desenvolvimento desse sistema econômico exige a abolição da escravatura e, portanto, de toda a crueldade que acompanha esse regime de trabalho forçado - o qual já existia na África antes do capitalismo e antes do colonialismo, aliás.

Censura racialista

Não bastasse usar de tanta "bullshit", Thiago Amparo acusa Narloch de racismo e reclama que o pluralismo da FSP acabou servindo para dar espaço a um texto racista... Ora, o texto de Amparo é a maior prova de que certos discursos que se apresentam como antirracistas são extremamente autoritários, intolerantes e obscurantistas, pois atacam textos de divulgação científica por meio de "bullshit", exigem que fatos históricos sejam escondidos da opinião pública e ainda usam falsas acusações de racismo para censurar as verdades que afrontam as narrativas de certos grupos militantes.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Sociedade alternativa, com esquerda identitária, é sociedade repressora

Quando eu era aluno da USP, na segunda metade dos anos 80, um dos cantores mais tocados nas festas da geografia era Raul Seixas. E uma das músicas dele que quase sempre tocava era Sociedade alternativa. Eu gosto dessa música do Raul (entre outras dele), cuja letra diz:

Viva a sociedade alternativa

Se eu quero e você quer
Tomar banho de chapéu
Ou esperar papai noel
Ou discutir Carlos Gardel
Então vá!
Faz o que tu queres
Pois é tudo da lei!
Da lei!

Na época, a esquerda universitária era pautada principalmente pelas teorias econômicas marxistas, mas, como também tinha incorporado a cultura do sexo, drogas e rock and roll, legada pela geração de 68, nutria muita simpatia pela ideia de um modo de vida hippie, ou seja, com pouco trabalho, pouco consumo e liberdade para viver como se deseja.

E hoje? Bem, a esquerda não abandonou as velhas críticas econômicas ao capitalismo, mas suas pautas políticas estão muito mais atreladas ao politicamente correto e ao identitarismo. Resultado: segundo uma "Nota de Esclarecimento" divulgada em 2014 pelo Centro Acadêmico de Estudos Linguísticos e Literários - Caell, da USP, houve um conflito durante uma festa a fantasia organizada por esse Centro. O problema começou quando travestis militantes de um "coletivo" que luta pelos direitos dos transgêneros acusou três alunos gays de desrespeito e discriminação porque estes estavam fantasiados de Sailor Moon. Os rapazes acusados tiraram as fantasias em público, no meio da festa, tal como os travestis exigiram, mas estes não sossegaram. Segundo afirma o Caell, as discussões com os travestis militantes continuaram até chegar o ponto em que estes últimos exigiram que a festa fosse encerrada imediatamente e que as mulheres do Centro, que eram as responsáveis pela organização, fizessem um mea culpa diante de todos os presentes, confessando que a gestão do Caell era transfóbica, homofóbica e machista (oi?)! Mas, como os integrantes do Caell se recusaram a atender às exigências, os travestis chamaram a polícia militar... 

Paro aqui a descrição dos acontecimentos narrados pela nota do Caell, a qual está disponível na internet para quem quiser ler. Afinal, o que está dito acima já é suficiente para eu fazer alguns apontamentos. O primeiro deles é que a esquerda universitária dos anos 80 falava em democracia e em liberdade de costumes, mas queria transformar o Brasil numa nova Cuba, país onde não existem nem uma coisa, nem outra. O segundo é que a esquerda atual só fala em combater preconceitos, mas, quando os militantes se reúnem para festejar, quem age como desmancha prazeres e estraga festa não são os "caretas" de antigamente ou a direita religiosa atual, mas sim os próprios militantes identitários, cuja intolerância é inegável 

Encerro dando um aviso de quem já conviveu com muitos militantes universitários e que ainda observa a atuação deles, agora na qualidade de professor: quando virem esse pessoal curtindo o trabalho bem humorado de artistas como Raul Seixas, não se deixem enganar: ontem como hoje, esquerdistas radicais costumam ser gente mal humorada, intransigente, intolerante e preconceituosa. O humor que melhor se encaixa no perfil deles é o do Porta dos Fundos mesmo...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Atila Iamarino presta desserviço à ciência e à democracia

Em março do ano passado, Atila Iamarino divulgou projeções erradas sobre números de casos e de mortes por covid no Brasil. Depois, caiu em contradição ao tentar explicar por que os números reais não bateram com a previsão. No começo de maio, usou um estudo diferente para concluir que tinha sido "muito otimista" ao prever que haveria mais de 1 milhão de mortes até final de agosto se não fossem adotadas as medidas que ele recomendava. Errou de novo e, em junho, mesmo tendo finalmente admitido o erro, usou uma retórica risível para nos convencer de que os números que ele divulgou, embora errados, continuavam "válidos"! [*]

Ele também diz e repete que as pesquisas científicas já provaram que a cloroquina não é eficaz contra a covid e que pode provocar efeitos colaterais muito perigosos. Curioso, pois a Associação Médica Brasileira - AMB, em comunicado oficial, afirma que os estudos sobre a eficácia desse remédio e seus efeitos colaterais ainda não são conclusivos. A AMB é formada por gente ignorante no assunto e que espalha notícias falsas, ou é Atila Iamarino quem faz isso? 

Agora, Iamarino diz que vacinação obrigatória é "autoritarismo necessário". Ora, mas quem diz que vacinação obrigatória é medida autoritária são justamente aqueles que preferem basear as políticas de combate à pandemia na distribuição de cloroquina! Portanto, Iamarino acabou de dar um argumento para os inimigos da vacinação obrigatória: "até o Atila reconheceu que obrigatoriedade é autoritarismo"...

Não bastasse tudo isso, ele diz que "calar" aqueles que criticam a vacinação é também uma forma de "autoritarismo necessário", e a única coisa que podemos fazer se não for decretada vacinação obrigatória. Ora, estou de pleno acordo que os movimentos anti-vacina são irracionais e que prejudicam a saúde pública, mas discordo da ideia de censurar as pessoas que espalham esses discursos. 

Informações falsas se combatem com a divulgação de informações corretas. Desde o começo da pandemia, Iamarino divulgou projeções erradas às pencas e usou argumentos contraditórios e sem sentido para fazer de conta que tinha acertado, mas acha que, agindo assim, contribuiu com a qualidade dos debates públicos. Na verdade, ele prestou um enorme desserviço à ciência, pois suas previsões furadas e argumentos toscos serviram para a produção de centenas de memes que se espalharam pelas redes sociais e, assim, estimularam a desconfiança em relação às intervenções de cientistas nos debates públicos. 

Resumo da ópera: Atila Iamarino é um divulgador científico que fomenta involuntariamente a desconfiança do público contra os cientistas e que ainda reforça essa desconfiança ao propor censurar quem nega a eficácia das vacinas. 

As pessoas que Iamarino quer censurar realmente andam espalhando ideias perigosas, mas um pesquisador que divulga projeções erradas repetidamente e que usa artifícios retóricos para tentar induzir a população a acatar as recomendações de políticas que ele faz também não é perigoso e autoritário? Afinal, há pesquisas, elaboradas por cientistas renomados, que contestam ou relativizam muito a eficácia das medidas rígidas de quarentena e de lockdown que Iamarino e outros defendem[*]. Mas nem por isso vamos sair por aí dizendo que Iamarino tem de ser censurado. Ele se beneficia da liberdade de expressão que deseja negar aos outros.

[*] Referências

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

A arte das comparações estatísticas desonestas numa matéria da BBC

As comparações feitas na matéria Brasil tem mais mortes por covid em 1 semana do que 63 países juntos na pandemia inteira são desonestas. Os 63 países mencionados no título têm populações que, somadas, são muito maiores do que a nossa, mas o artigo não informa que a grande maioria destes é formada por países muito pobres, ou seja, países nos quais a confiabilidade dos dados é tão baixa que cientistas preferem desconsiderar esses dados na elaboração de estudos sobre a pandemia. É o caso de uma pesquisa sobre a possível correlação entre as políticas de aplicação universal de vacina BCG e a pandemia atual. Os cientistas que fizeram o estudo desconsideraram as informações de todos os países de baixa renda devido à falta de confiabilidade nas informações, e os dados brasileiros foram levados em conta porque o Brasil é um país de renda média.

O que se vê na matéria é uma tentativa de alarmar a opinião pública para induzi-la a apoiar medidas mais duras de restrição de contato. E, no afã de cumprir esse objetivo, manda a coerência às favas, como fica claro no momento em que a matéria compara os dados do Brasil com os do Japão e enfatiza que este último tem muito menos mortes... 

Ora, o Japão é um país que nunca aplicou lockdown, nem quarentena. Seu diferencial está justamente em aplicar medidas bastante brandas de distanciamento. Não fechou as fronteiras para viajantes vindos da China mesmo quando os hospitais de Wuhan já estavam sobrecarregados e outros países se fechavam. A pandemia chegou ao Japão em fevereiro, mas só em 07 de abril se decretou estado de emergência. Mesmo com a decretação, os estabelecimentos comerciais foram apenas "convidados" a fechar, e não havia nenhuma punição prevista para os estabelecimentos que abrissem. Em 25 de maio, o balanço das medidas tomadas no Japão e de seus resultados era o seguinte:
Não foram impostas restrições à mobilidade de residentes, e empresas, como restaurantes e salões de beleza, permaneceram abertas. Não foram implantados aplicativos de alta tecnologia que rastreavam os movimentos das pessoas. O país não possui um centro de controle de doenças. E, mesmo quando os países foram exortados a "testar, testar, testar", o Japão testou apenas 0,2% da população, uma das taxas mais baixas entre países desenvolvidos. No entanto, a curva foi achatada, com mortes bem abaixo de mil, de longe o menor número entre países desenvolvidos do G-7. Em Tóquio, com alta densidade populacional, os casos caíram para um dígito na maioria dos dias (aqui).
Agora, na segunda onda, enquanto a Europa já aplicava lockdown, o Japão nem sequer mandava fechar os cinemas: milhões lotaram as salas para assistir um desenho animado. Mesmo assim, a BBC usa a comparação entre Brasil e Japão para dizer que precisamos de medidas mais duras de isolamento! De outro lado, a matéria informa que o Brasil está em 19º lugar quando se trata de mortes por milhão de habitantes, mas não menciona que muitos países em situação pior do que a nossa aplicaram medidas rígidas de quarentena e de lockdown já desde a primeira onda. São os casos da Itália, Espanha, Reino Unido, França e Argentina. 

E, falando na Argentina, é importante ressaltar que a matéria só compara o Brasil com extremos de pobreza e riqueza, nunca com os países mais próximos de nós em termos geográficos e socioeconômicos, ou seja, com os países mais desenvolvidos da América Latina. Desonestidade intelectual absoluta.

Ora, os dados citados pela BBC sobre o aumento recente nos números de casos e de mortes no Brasil são preocupantes, e estão sendo levados em conta pelos governadores. São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul são três exemplos de estados que intensificaram as medidas de distanciamento social para evitar a saturação dos serviços de saúde. Não precisamos de comparações desonestas para justificar esse tipo de medida. E convenhamos: até agora, o Brasil não precisou de quarentena e nem de lockdown para evitar o colapso dos seus sistemas de saúde, ao contrário do que recomendaram vários especialistas que, embora tendo divulgado projeções erradas, ganharam muito destaque em certa imprensa ávida por fazer alarmismo.

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segunda-feira, 30 de novembro de 2020

"Bacurau" é só propaganda ideológica de baixa qualidade

 Assisti Bacurau faz algum tempo e não vi nenhuma dessas qualidades que o crítico Luiz Carlos Merten atribui ao filme (aqui). A obra não faz reflexão política e social coisa nenhuma. É só um monte de clichês esquerdistas a serviço de um maniqueísmo político primitivo, que opõe nacional e estrangeiro, dominantes e "excluídos". 

E a falta de inteligência e o primitivismo político do filme refletem bem o modo de (não) pensar de Kléber Mendonça, que dirigiu esse filme e também Aquarius. Quando Aquarius foi exibido em Cannes,  o elenco e a equipe técnica do filme protestaram contra o suposto "golpe" que teria derrubado Dilma! Ou seja, contaram uma mentira descarada para fazer propaganda partidária e, de quebra, dar visibilidade ao filme. No caso de Bacurau, vale dizer que esse filme tem ainda o defeito de ser didático na exposição de seus clichês políticos maniqueístas e que não se salva nem como filme de ação, já que as cenas de combate são muito pobres em comparação com o que o cinema e a TV americanos já oferecem disso todos os anos, às toneladas. 

Enfim, é um lixo de filme, e a crítica nacional e internacional que o elogia só está interessada em usá-lo como peça de propaganda política contra Bolsonaro e Trump. Isso fica bem evidente no texto de Merten, o qual comenta a associação explícita que a crítica faz entre Bacurau e a oposição a esses políticos. Assim, não surpreende que essa crítica (incluindo Merten) aponte no filme qualidades que este definitivamente não tem. 

As discussões sobre o filme refletem estes tempos de forte polarização política e ideológica, cuja consequência é o empobrecimento dos debates e das avaliações sobre obras artísticas. Chegamos assim ao ponto em que até uma parábola política maniqueísta e cheia de clichês ideológicos explicados na forma de diálogos didáticos pode ser qualificada por certa crítica como obra "audaciosa"! 

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sábado, 21 de novembro de 2020

Negros que o movimento negro não quer celebrar (e que o Facebook apaga da história)

Em uma sociedade não racial, não deveria haver "dia da consciência negra" ou branca ou de qualquer outra raça. Mas, já que instituíram um Dia da Consciência Negra no Brasil, ao menos deveriam ter escolhido uma data que homenageasse um negro importante da história brasileira que realmente lutou pela abolição e contra o racismo. Mas o movimento negro prefere mitificar Zumbi, rei de um Quilombo dentro do qual havia trabalho escravo, conforme já foi apontado por diversos historiadores. E, não bastasse isso, ainda apagam a história dos negros que realmente labutaram pela abolição e contra o racismo só porque a história desses negros revela a grande importância da Lei Áurea e da Princesa Isabel.

Como exemplos, transcrevo aqui alguns pequenos textos que contam a história desses negros esquecidos pela militância política e pelos professores de história e de geografia. Começo por André Rebouças, abolicionista cuja história vem sendo censurada pelo Facebook porque não está de acordo com os "Padrões da Comunidade".

Boa leitura!

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Engenheiro André Rebouças

Em 1873, o engenheiro André Rebouças, durante viagem aos Estados Unidos, se depara com o racismo que dominava a sociedade norte americana da época. Ao tentar se hospedar em vários hotéis de Nova Iorque, é impedido de entrar por ser negro, situação que nunca tinha passado no Brasil.

Teve de pedir ajuda ao cônsul Brasileiro em Nova Iorque, Luís Henrique Ferreira de Aguiar, para se hospedar no Washington Hotel. Logo após sofrer essa série de humilhações nos hotéis da cidade, Rebouças ainda passa por uma humilhação maior: é barrado de entrar no Grand Opera House de Manhattan, simplesmente por ser negro.

Apesar de ter sofrido na pele a experiência da segregação racial em sua visita aos Estados Unidos, Rebouças ficou encantado com o progresso técnico e o desenvolvimento econômico. Segundo o historiador Antônio Higino, os planos de modernização do Brasil sonhados por Rebouças se sustentavam numa associação entre uso de tecnologia, liberalismo econômico, associacionismo e trabalho livre dos EUA.

Ele demonstrou muita familiaridade com a história, a literatura e o próprio estilo de vida do país, sobretudo com os aspectos da política e da legislação norte-americanas.

Embora expressasse o seu total desdém pelo fato dos Estados Unidos ser uma República (André Rebouças era monarquista e amigo íntimo da família imperial).

Fonte: O Negro André: a questão racial na vida e no pensamento do abolicionista André Rebouças, de Anita Maria Pequeno Soares. Equipe Pedro II do Brasil. 


André Rebouças, Protetor dos Filhos da Princesa Isabel

Na manhã do dia 15 o Conde d'Eu e a Princesa Isabel faziam, pelas imediações do palácio, o habitual passeio a cavalo na companhia dos filhos, percorrendo laranjeiras até a praia do flamengo- "sem sombra de preocupação", dirá o Conde depois à Condessa de Barrai. O aspecto das ruas e dos transeuntes, a igual de toda a cidade, era o mesmo de sempre. Foi só na volta à casa, quando Gastão se pôs a ler os primeiros jornais do dia, que ele deparou com uma notícia incerta no Diário do Comércio, sobre um "movimento de indisciplina" que teria havido na Escola Militar, e que levará os Ministros a se reunirem, até alta noite, na Secretaria da Guerra. Não deu, porém, maior importância à notícia.

Estavam, assim, todos tranquilos naquela casa quando apareceu, por volta das dez horas, o Alferes Ismael Falcão, com a notícia de que as tropas estavam reunidas em frente do Quartel-General, com o Marechal Deodoro e Quintino Bocaiúva. "Neste caso, disse o Conde d'Eu - acabou se a Monarquia no Brasil.

Mal se tinham vindo a si os donos da casa diante de tais notícias, quando começaram a aparecer, sucessivamente, outros amigos, entre eles o Engenheiro André Rebouças "que me abraça, segundo o seu costume nas ocasiões solenes" - dirá o Conde d'Eu, com o plano que ele combinara com o Visconde de Taunay, de o Imperador ficar em Petrópolis, cercar-se ali de personagens importantes e organizar um Governo para enfrentar a insurreição militar.

O plano também foi apresentado à própria Princesa Isabel, que lamentaria mais tarde, depois de tudo perdido, não ter sido adotado. Além de apresentar um plano concreto de resistência a Deodoro da Fonseca, Rebouças propôs a Princesa Isabel e a Ramiz Galvão, professor dos Príncipes Pedro, Antonio e Luis, deixarem a proteção dos herdeiros da Casa de Orleans e Bragança sob seus cuidados. E sugeriu levá-los ao bordo couraçado Riachuelo e depois a Cidade de Petrópolis onde ficariam a salvo do caos do momento.

A intenção de Rebouças, que o Conde d'Eu demorou a compreender, era acompanhar e zelar pelos pequenos Príncipes Imperiais, aos quais se mostrara sempre muito afeiçoado, substituindo, de um certo modo, o Barão de Ramiz Galvão, que por motivos particulares não os podia acompanhar à Europa. Rebouças desceu de Petrópolis com os príncipes na madrugada de 17 de novembro, já decidido a compartilhar da sorte dos mesmos na Europa. Decidido "a partir para a Europa, - diz rebouças em seu Diário, - "com a Família Imperial, em lugar do Dr, Ramiz Galvão, Impossibilitado de partir pela numerosa família". 

O já deposto Imperador e a princesa Isabel tentaram convencer Rebouças a ficar no Brasil, onde seus conhecimentos seriam de bom proveito a nação, porém o engenheiro e empresário baiano já havia decidido que não iria participar de um governo que considerava ilegítimo, que jamais aceitaria seus planos econômicos de reforma agrária. Se já não podia restaurar o Império, Reboucas pelo menos poderia ajudar o amigo deposto de seu cargo de chefe de estado. Rebouças serviu de professor aos netos do Imperador até a morte do Monarca Brasileiro em 1891".

Fonte: História da queda do Império, Por Heitor Lyra. O livro consta do acervo da Biblioteca do IBGE, mas o Facebook censurou o post acima dizendo que viola os "Padrões da Comunidade"!


Francisco de Paula Brito (1809-1861)

Jornalista, escritor, poeta, dramaturgo e tradutor. Trabalhou em diversas tipografias e fundou a "Sociedade Petalógica", que teve como membro ilustre o então jovem escritor Machado de Assis. Foi ativista político e o primeiro a inserir no debate político a questão racial. Em sua tipografia foram impressas obras como “O Mulato“ e o jornal “O Homem de Cor”, colocando-o como precursor da imprensa negra. Em 1850, criou a “Imperial Typographia Dous de Dezembro”, data de seu aniversário e do Imperador Dom Pedro II, que se tornou seu acionista. Paula Brito foi, assim, o primeiro editor genuinamente não-especializado do país, pois incluía grande variedade de obras e assuntos, ao contrário de seus antecessores, que se dedicavam mais aos assuntos técnicos.



Monteiro Lopes (1867-1910)

Primeiro deputado federal negro do Brasil, nasceu na cidade de Recife, estado de Pernambuco, em 25 de dezembro de 1867. Filho do operário Jerônimo da Motta Monteiro Lopes e de Maria Egiphicíaca de Paula Lopes - ambos escravos libertos. Fez sua formação básica no Ginásio Pernambucano; em seguida, matriculou-se na Faculdade de Direito do Recife com a ajuda de Pedro II com sua bolsa para negros libertos a famosa “bolsa do Imperador”, período no qual revelou sua "têmpera de lutador" e se tornou um "acérrimo abolicionista". Em 1889, Monteiro Lopes mudou-se para o norte do país, onde exerceu cargos públicos e enfrentou embates políticos. Foi "nomeado promotor público de Manaus, sendo mais tarde elevado às funções de juiz de direito na mesma cidade". Por volta de 1894, transferiu-se para a capital federal, a fim de se dedicar à advocacia. Após conseguir se eleger vereador da cidade do Rio de Janeiro, em 1903, apenas 15 anos depois da lei áurea, Monteiro Lopes lançou sua candidatura a deputado federal, o que detonou uma fortíssima reação de cunho racista em contra sua candidatura. Depois de um duríssimo embate, a talvez maior mobilização de negros vista em escala nacional após a luta abolicionista levada a cabo no século XIX, alcançou-se pleno êxito, conseguindo Monteiro Lopes ser diplomado e empossado como o primeiro deputado federal negro da história brasileira, ele recebeu uma carta de parabéns da Princesa Isabel do exílio na França, porém, no ano seguinte em 1910, a diabetes deu cabo de sua vida, aos 43 anos.



Dr. José Ferreira de Menezes

Neto de escravos alforriados de São Paulo, Ferreira de Menezes foi um abolicionista, escritor, advogado e fundador da influente folha "Gazeta da Tarde", em 1880. Menezes fazia parte da crescente elite intelectual negra da época, era amigo de Luiz Gama, Machado de Assis, José do Patrocínio e André Rebouças.

Seu jornal foi Pioneiro na causa abolicionista, suas páginas estavam fartas de denúncias da reescravização ilegal de negros libertos, crime previsto no Código Criminal da época. Menezes morreu apenas um ano após a criação do jornal, seu amigo José do Patrocínio liderou a continuidade do jornal até 1887, quando fundou a “Cidade do Rio”.



Hemetério José dos Santos (1858-1939) 

Foi professor, gramático, filosofo e escritor, nascido na cidade de Codó, província do Maranhão, no ano de 1858, Hemetério José dos Santos mudou-se para a província do Rio de Janeiro em 1875, aos 17 anos. Hemetério era filho do Major Frederico dos Santos Marques Baptisei, proprietário da fazenda Sam Raymundo, e de sua escrava Maria. Seu pai pagou seus estudos no Collégio da Imaculada Conceição, em São Luis.

Aos 20 anos de idade já era professor do Colégio Pedro II, na capital do Império; em 1889 era nomeado professor adjunto de língua portuguesa do Colégio Militar do Rio de Janeiro pelo Imperador Dom Pedro II, onde, mais tarde, tornou-se professor vitalício. Cursou a Escola de Artilharia e Engenharia, conquistou a patente de Major, obtendo, depois, o galardão de Tenente-Coronel honorário em 1920. 

Sua atuação enquanto professor em diferentes espaços escolares, tais como o Colégio Militar do Rio de Janeiro e a Escola Normal Livre, ia além do fazer em sala de aula, pois o mesmo se utilizava desses e de outros espaços a fim de ministrar palestras e conferências a respeito do ensino. Na opinião de Sílvio Romero, ombreava com Olavo Bilac, Graça Aranha, Aluísio e Artur Azevedo, no uso da palavra escrita.



Capoeiras Nagoas (Partido Conservador) versus Capoeiras Guaiamuns (Partido Liberal) 

Os Nagoas e os Guaiamuns foram os dois maiores grupos de capoeiras que dominavam o cenário urbano do Rio de Janeiro a partir da segunda metade do século XIX. Os Nagoas e os Guaiamuns, como se identificavam, eram maltas rivais que brigavam pelo espaço e o destaque na sociedade carioca. Os Nagoas, como o próprio nome diz, remete a Nagô. Era formada somente por escravos africanos, sendo proibida a entrada de negros nascidos no Brasil, mestiços ou brancos.

Os capoeiristas Nagoas tinham filiação partidária com os Conservadores e frequentemente atacavam os Capoeiristas Guaiamuns (composto em sua maiora de mulatos e imigrantes portugueses) que tinham filiação com o Partido Liberal. No período eleitoral, os Capoeiras eram usados pelos políticos da corte como instrumento de intimidação dos eleitores. A eleição de 1880 foi a última com voto indireto e a participação massiva da população, pois em 1881 a Câmara dos Deputados aprovou lei que passava para 200 mil-réis a exigência de renda, proibia o voto dos analfabetos e tornava o voto facultativo, excluindo quase 90% do eleitorado da época. As maltas de Capoeiras do Rio de Janeiro foram extintas por Deodoro da Fonseca em 1890 pela associação desses grupos com a Guarda Negra e o Isabelismo.

Fonte: Capoeira: A History of an Afro-Brazilian Martial Art, de Matthias R. Assunção, citado por Brazil Imperial (será que esse post também foi censurado pelo Facebook?).

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Racismo: Facebook serve à mentira, à censura e à intolerância


Compartilhei um post no Facebook que foi publicado originalmente na página Pedro II do Brasil. O post foi censurado com a seguinte justificativa: "Sua publicação vai contra nossos Padrões da Comunidade, portanto, somente você poderá vê-la". Ora, os tais "Padrões" estabelecem que um post pode ser denunciado por usuários do FB se apresentar problemas relacionados a:

  1. Comportamento violento e criminoso
  2. Segurança
  3. Conteúdo questionável
  4. Integridade e autenticidade
  5. Com respeito à propriedade intelectual
Francamente! O post censurado informa que o engenheiro e empresário André Rebouças (1838-1898) - foto acima -, que era amigo pessoal de D. Pedro II e da Família Imperial, tentou organizar uma resistência ao golpe militar que implantou a República no Brasil. Informa também que ele se ofereceu para proteger os filhos da Princesa Isabel e que atuou como professor destes na Europa, onde a Família Imperial se exilou. A fonte dessas informações é a obra História da queda do Império, de Heitor Lyra, que consta do acervo da biblioteca do IBGE.

Só por esse breve resumo já fica mais do que claro que o post não viola os tais "Padrões da Comunidade" do Facebook! Por que então foi denunciado e censurado? A única explicação plausível é esta: como André Rebouças era negro, sua trajetória depõe contra a narrativa de que a abolição da escravatura não fez diferença para a população negra. Além disso, destacar o papel científico, cultural e/ou político desempenhado por negros como André Rebouças na história brasileira joga contra a estratégia de mitificação de Zumbi dos Palmares, o qual nunca fez nada pela abolição e ainda era rei de um Quilombo dentro do qual havia escravos. 

A existência dos tais "Padrões da Comunidade" do Facebook pode não ser ruim em si mesma, mas está servindo para que militantes políticos autoritários e pessoas comuns com uma visão de mundo intolerante façam denúncias falsas contra um post só porque este informa verdades históricas inconvenientes para as narrativas que essa gente está interessada em impor. Nesse sentido, aqueles "Padrões", ao invés de contribuírem para fazer valer a verdade, servem à mentira, à censura e à intolerância! 

Abaixo, o texto censurado pelo Facebook: desafio quem quer que seja a provar que esse texto viola os tais "Padrões da Comunidade"!

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André Rebouças, Protetor dos Filhos da Princesa Isabel

"Na manhã do dia 15 o Conde d'Eu e a Princesa Isabel faziam, pelas imediações do palácio, o habitual passeio a cavalo na companhia dos filhos, percorrendo laranjeiras até a praia do flamengo - "sem sombra de preocupação", dirá o Conde depois à Condessa de Barrai. O aspecto das ruas e dos transeuntes, a igual de toda a cidade, era o mesmo de sempre. Foi só na volta à casa, quando Gastão se pôs a ler os primeiros jornais do dia, que ele deparou com uma notícia incerta no Diário do Comércio, sobre um "movimento de indisciplina" que teria havido na Escola Militar, e que levará os Ministros a se reunirem, até alta noite, na Secretaria da Guerra. Não deu, porém, maior importância à notícia.

Estavam, assim, todos tranquilos naquela casa quando apareceu, por volta das dez horas, o Alferes Ismael Falcão, com a notícia de que as tropas estavam reunidas em frente do Quartel-General, com o Marechal Deodoro e Quintino Bocaiúva. "Neste caso, disse o Conde d'Eu - acabou se a Monarquia no Brasil".

Mal se tinham vindo a si os donos da casa diante de tais notícias, quando começaram a aparecer, sucessivamente, outros amigos, entre eles o Engenheiro André Rebouças "que me abraça, segundo o seu costume nas ocasiões solenes" - dirá o Conde d'Eu, com o plano que ele combinara com o Visconde de Taunay, de o Imperador ficar em Petrópolis, cercar-se ali de personagens importantes e organizar um Governo para enfrentar a insurreição militar.

O plano também foi apresentado à própria Princesa Isabel, que lamentaria mais tarde, depois de tudo perdido, não ter sido adotado. Além de apresentar um plano concreto de resistência a Deodoro da Fonseca, Rebouças propôs a Princesa Isabel e a Ramiz Galvão, professor dos Príncipes Pedro, Antonio e Luis, deixarem a proteção dos herdeiros da Casa de Orleans e Bragança sob seus cuidados. E sugeriu levá-los ao bordo couraçado Riachuelo e depois a Cidade de Petrópolis onde ficariam a salvo do caos do momento.

A intenção de Rebouças, que o Conde d'Eu demorou a compreender, era acompanhar e zelar pelos pequenos Príncipes Imperiais, aos quais se mostrara sempre muito afeiçoado, substituindo, de um certo modo, o Barão de Ramiz Galvão, que por motivos particulares não os podia acompanhar à Europa. Rebouças desceu de Petrópolis com os príncipes na madrugada de 17 de novembro, já decidido a compartilhar da sorte dos mesmos na Europa. Decidido "a partir para a Europa, - diz rebouças em seu Diário, - "com a Família Imperial, em lugar do Dr, Ramiz Galvão, Impossibilitado de partir pela numerosa família". 

O já deposto Imperador e a princesa Isabel tentaram convencer Rebouças a ficar no Brasil, onde seus conhecimentos seriam de bom proveito a nação, porém o engenheiro e empresário baiano já havia decidido que não iria participar de um governo que considerava ilegítimo, que jamais aceitaria seus planos econômicos de reforma agrária. Se já não podia restaurar o Império, Reboucas pelo menos poderia ajudar o amigo deposto de seu cargo de chefe de estado. Rebouças serviu de professor aos netos do Imperador até a morte do Monarca Brasileiro em 1891".

Fonte: História da queda do Império. Por Heitor Lyra

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