quinta-feira, 28 de junho de 2018

Coletivo ENCONTTRA usa de difamação para intimidar vozes discordantes na universidade

Fazendo uma pesquisa no Google, esbarrei com uma Carta Aberta para que a Universidade Continue Sendo um Espaço de Debate de Ideias. A carta foi assinada pelo Coletivo de Estudos sobre Conflitos pelo Território e pela Terra - ENCONTTRA, e publicado num blog em 27.03.2017.

A dita carta faz uma crítica a um post que eu publiquei neste blog, a saber: Professora da UFPR defende ensino doutrinador, mas diz que doutrinação não existe. Nesse post, eu fiz uma crítica às ideias expostas pela professora Mônica Ribeiro da Silva durante um debate realizado sobre a reforma do ensino médio, o qual acabou tratando também do movimento Escola Sem Partido - ESP. A minha crítica é a de que existe uma incoerência lógica nos argumentos da professora, a qual afirma não haver doutrinação no ensino brasileiro, mas, ao mesmo tempo, baseia-se num conceito marxista de ideologia como falsa consciência da realidade para propor que a escola cumpra um papel desideologizador. Nesse sentido, a professora afirma não haver doutrinação, mas propõe que a escola tem a função de inculcar na cabeça dos alunos que as teorias críticas do capitalismo são verdades científicas e que toda afirmação em contrário deve ser vista como uma mentira, uma ideologia útil a interesses de classe particulares.

Acusação sem prova

Muito bem. Qual foi o argumento que o ENCONTTRA apresentou em sua Carta para se opor à minha crítica? Nenhum! O que o Coletivo ou Grupo de Pesquisa escreveu foi isto:
[...] fomos informados pela profª. Mônica Ribeiro da Silva que o prof. Luís Lopes Diniz Filho, docente do curso de Geografia, que estava entre o público presente na ciranda, fez uma postagem no seu blog no qual fazia ataques pessoais à professora. A postagem ocorreu no dia 14 de março (ver no endereço do Blog Tomatadas: http://tomatadas.blogspot.com.br/) e foi publicado em outro blog de forma mais ofensiva ainda no dia 21 do mesmo mês (ver no endereço do Blog Vista Direita: http://www.vistadireita.com.br/blog/professoradoutrinadora-da-ufpr-e-pega-no-pulo/).
Ora, já que eles ignoraram o que eu escrevi e fizeram eco à acusação da professora de que eu teria agido de forma ofensiva, por meio de ataques pessoais, o mínimo de honestidade intelectual que se poderia esperar do Coletivo era que reproduzisse as passagens do meu texto que conteriam as supostas ofensas e ataques, não é mesmo? Mas a honestidade passou longe da tal Carta! Em vez de provarem a acusação que fizeram, prosseguiram dizendo isto:
[...] em nossa avaliação, as ações realizadas pelo prof. Diniz Filho não contribuem para o bom, amplo e livre debate e fortalecimento da democracia institucional. Pelo contrário, prejudica a todos, inclusive a ele mesmo e ao próprio Departamento e Curso onde trabalha, na medida em que outros profissionais convidados pela casa podem declinar convites para palestras e debates, pois podem
ter receio de sofrerem ataques pessoais deste tipo. Como o que sofreu a profª. Mônica, com uma exposição pessoal e unilateral nas redes sociais, onde uma única versão é colocada a público, após um debate público.
A passagem acima é mentirosa, hipócrita e incompatível com o espírito do debate acadêmico.

Mentirosa porque eu não fiz nenhum ataque pessoal, o que fica provado pelo fato de o próprio grupo não haver citado qual foi o ataque. Mentem sobre ataques e ofensas que não existiram para desqualificarem minhas ideias, e a mim como debatedor, sem argumentar. E a carta mente também quando afirma que eu expus a professora e de forma unilateral. Na verdade, eu expus as ideias da professora sobre o ESP, isso sim. E, justamente por eu haver reproduzido as ideias que ela expressou durante o debate público em questão, é falsa a acusação de que eu fui unilateral. Eu dei voz à professora, sim - até porque, como eu conseguiria apontar uma incoerência no discurso dela sem antes reproduzir o que ela disse?

Portanto, a professora Mônica e o ENCONTTRA poderiam fazer uma crítica séria e construtiva se demonstrassem que eu reproduzi incorretamente as falas feitas pela professora no debate. No entanto, nem ela, nem o ENCONTTRA apresentaram qualquer reparo ao que eu escrevi sobre isso! Não houve unilateralismo da minha parte e nem distorção.

E a Carta é hipócrita porque condena o unilateralismo, mas, ora vejam, o "debate-ação" (sic) sobre a reforma do ensino médio organizado pelo ENCONTTRA foi claramente unilateral! Eu apontei isso logo no começo do meu post, ao escrever: "como é de praxe nos eventos de Geografia, os três debatedores convidados tinham as mesmas opiniões sobre o tema, informadas por teorias e ideologias de esquerda radicais. Então, só houve debate durante a sessão de perguntas que se seguiu às exposições porque eu participei do evento, visto que, a julgar pelas perguntas não dirigidas a mim, ninguém discordou de nada!".

ENCONTTRA é contra o livre debate de ideias

Finalmente, a carta demonstra que o ENCONTTRA não suporta a crítica acadêmica e o debate de ideias. E digo isso por uma razão muito simples: não há nada mais natural e mais salutar num debate acadêmico do que indicar as fontes consultadas, e isso nada tem a ver com exposição pessoal de um autor. Afinal, se a fonte é um artigo científico, um livro ou uma fala proferida num evento, não há como citar a fonte sem dizer quem é o autor, ora essa! É por isso que, quando algum acadêmico critica meus escritos publicamente, ao invés de me fingir de vítima, eu redijo uma resposta.

Prova inequívoca disso é que a professora Ana Fani Alessandri Carlos fez críticas pesadas a um artigo meu durante uma conferência que ela proferiu num evento internacional (chegou a dizer que eu desconheço o assunto), críticas essas que foram reproduzidas em sites e também em revista especializada. E o que eu fiz? Escrevi uma resposta, a qual saiu publicada no primeiro capítulo do livro Por uma crítica da geografia crítica.

Isso, sim, é fazer um debate acadêmico e democrático de ideias. Então, se algum professor disser que não vem dar palestra no Departamento onde eu trabalho por ter medo de ser criticado no meu blog, fica claro que esse professor, ou tem receio de não saber que argumentos usar para contrapor aos meus, ou é alguém avesso ao debate de ideias, alguém que quer falar sem ser contestado.

Mais imposturas na Carta

Perto do fim, a Carta diz: "é fundamental que debatamos amplamente no nosso Curso
esse tipo de postura antiética".

Ora, se o ENCONTTRA achasse fundamental debater o assunto, bastaria que o professor Jorge Ramon Montenegro, que é coordenador do Grupo de Pesquisa com esse nome, e que era Vice-Coordenador do Curso de Geografia da UFPR na época da publicação da Carta (hoje ele é Coordenador) propusesse isso como tema de pauta de uma de nossas reuniões de Colegiado. Se acaso ele não o fez, é porque o ENCONTTRA não quer debater coisa nenhuma. Ao contrário, querem que eu seja chamado de antiético na internet sem saber que estou sendo acusado disso e sem me dar, portanto, a chance de contra-argumentar.

O ENCONTTRA usa de mentira e difamação para intimidar vozes discordantes dentro da  universidade e, ao mesmo, se vale dessas mesmas mentiras e difamações para fazer vitimismo e dizer-se democrático. E não vou nem comentar agora a posição do ENCONTTRA sobre as invasões de escolas e de universidades ocorridas em 2016.

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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Não param com o festival de bobagens sobre o impeachment de Dilma!

Continuo recebendo pelo Whatsapp textos que, embora escritos por acadêmicos, apelam para todo o tipo de simplificação no intuito de convencer as pessoas de que Dilma foi vítima de um "golpe das elites". Um texto que prima pelas simplificações na defesa dessa tese foi escrito pelo economista Róber Iturriet Avila, o qual afirma o seguinte: 
Vargas e Goulart saíram do poder ao tempo em que concediam direitos sociais, sobretudo aos menos favorecidos. Não é novidade que durante os governos do PT, os trabalhadores ampliaram sua renda, o salário mínimo cresceu de maneira contínua e houve uma série de programas sociais. [...] Não surpreende que, mais uma vez, setores da sociedade brasileira se ergam contra tais políticas, ainda que, escamoteadamente, o bordão seja “contra a corrupção” (aqui).
Francamente! A elevação contínua do salário mínimo teve início em 1994, com o Plano Real, e os primeiros programas federais de transferência de renda (hoje unificados no Bolsa Família) foram instituídos em 2001. Também nesse período, especialmente no biênio 1994-95, houve uma expressiva redução da pobreza. Portanto, o autor elogia mudanças que foram encetadas pelos governos tucanos  como se fossem conquistas do PT e, assim fazendo, deixa de responder a uma questão de lógica elementar: por que então esses setores sociais que supostamente não gostam de pobre não aproveitaram os escândalos de corrupção dos anos 1990 para derrubar FHC? Aliás, considerando que o PT ficou no poder por treze anos, por que esses setores não tentaram ou não conseguiram usar o escândalo do mensalão para derrubar Lula?

Depois, ele afirma:
Evidentemente, existem elementos factuais dos governos Lula e Dilma que causaram desconforto e indignação a todos os cidadãos. Contudo, é preciso muita inocência para imaginar que as manifestações contra o governo são incentivadas pelo descontentamento com a corrupção, pela elevação do preço do combustível ou da energia (idem, ibidem).
A única coisa evidente é o esforço de Avila para minimizar a corrupção dos anos petistas e a destruição econômica produzida pelos governos de Dilma Rousseff, isso sim! Afinal, ele escreve como se o petrolão fosse apenas um caso de corrupção como qualquer outro e como se o único efeito negativo da política dilmista fosse o aumento dos preços da energia elétrica e dos combustíveis. Meu Deus, só a Petrobras foi sangrada em uns R$ 21 bilhões em dez anos, segundo estimativas de que seus investimentos recolhiam em média 3% do dinheiro para propinas. E a política econômica petista fez a dívida pública explodir, jogou o país na pior recessão de sua história - dois anos seguidos de forte redução do PIB -, fez aumentar a pobreza e ainda produziu 13 milhões de desempregados! Mesmo assim, Avila escreve como se as ruas tivessem se enchido de milhões de pessoas pedindo o impeachment só por causa de um discurso anti-corrupção!

Truques retóricos e estatísticos

Mais adiante, o texto apresenta alguns gráficos para tentar provar que os governos Vargas, Jango e os do PT foram os melhores da história no que diz respeito à elevação dos salários médios e do salário mínimo, o que provaria haver uma relação de causa e efeito entre elevação salarial e golpes de Estado. Mas o argumento não se sustenta, nem política, nem economicamente.

Em primeiro lugar, ao contrário do que aconteceu nos governos de Vargas e Jango, Dilma foi apeada do cargo por vias rigorosamente constitucionais, sem qualquer uso da força. Afinal, é fora de dúvida que ela cometeu crime de responsabilidade por conta das "pedaladas fiscais". E lembremos que Collor também sofreu impeachment com base no que estabelece a Constituição, certo?  

Em segundo lugar, vemos que os gráficos citados por Avila mostram a variação da média salarial e do salário mínimo medidos em valores absolutos, o que não é adequado para comparar o ritmo de variação em diferentes períodos de tempo. Isso porque, quando se dá um processo prolongado de elevação do valor real de um bem ou serviço, ocorre um efeito cumulativo que faz com que os valores mais recentes, mesmo deflacionados, avancem a saltos cada vez maiores, ainda que a variação proporcional permaneça constante. 

Por exemplo: se o salário mínimo fosse de R$ 1.000,00 no ano de 2017 e crescesse 10% ao ano em termos reais durante três anos, veríamos esse valor subir para R$ 1.100,00 em 2018, para R$ 1.210,00 em 2019 e para R$ 1.331,00 no ano de 2020. Um gráfico com esses números criaria a impressão de que o salário mínimo subiu mais depressa no final do período, já que em 2018 a variação real foi de R$ 100,00 em relação ao ano anterior, ao passo que, em 2020, a variação foi de R$ 121,00. A verdade, porém, é que a velocidade de elevação do salário mínimo permaneceu sempre a mesma: 10% ao ano. 

Isso é válido para qualquer dado econômico, como o salário mínimo, a média salarial, o PIB, as dívidas pública e privada, o lucro líquido das empresas, e assim por diante. Assim, quando se calculam as taxas anuais de variação real do salário mínimo, que é a forma adequada de medir e comparar a variação desse valor em diferentes períodos, constata-se que os governos tucanos e petistas praticamente empataram nesse quesito - e isso desconsiderando os efeitos devastadores da crise criada por Dilma de 2013 em diante, quando os aumentos do salário mínimo tiveram de ser restringidos para evitar que a dívida pública crescesse ainda mais depressa.

Esse fato inconteste repõe a pergunta que Avila se recusou a encarar: por que setores sociais que supostamente não gostam de pobre teriam derrubado Dilma, em cujo governo o salário mínimo cresceu à taxa de 3,5% ao ano, até 2013, mas não fizeram o mesmo com FHC e Lula, governos nos quais o salário mínimo se valorizou a taxas anuais de 4,7% e 5,5%, respectivamente?

Concentração de renda aumentou com o PT

E isso para não comentar que, de 2006 a 2012, a participação dos 5% mais ricos na renda nacional subiu de 40% para 44%. Não bastasse a fragilidade dos argumentos usados por Avila, esse número comprova que nenhum setor social de renda alta teve motivos para reclamar dos governos petistas, que foram mais favoráveis para os ricos do que para a população pobre.

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terça-feira, 20 de junho de 2017

Reportagem da Galileu sobre Paulo Freire é enviesada

A revista Galileu faz proselitismo ideológico disfarçado de divulgação científica - com direito até à divulgação de manipulações estatísticas produzidas pelo governo Dilma. Quando fiquei sabendo que a publicação iria fazer uma matéria sobre Paulo Freire, logo previ que esta seria enviesada. Não deu outra!

A matéria ocupa seis páginas e, embora afirme que o legado de Freire é "defendido por uns e odiado por outros" (sic), não deu praticamente nenhum espaço para as críticas ao método que ele supostamente inventou. Num dado momento, reproduz brevemente a crítica jurídica de Miguel Nagib, coordenador do Escola Sem Partido, de que a aplicação de algumas ideias freirianas "viola a liberdade dos alunos e a neutralidade política e ideológica do Estado" (citado por Souza, 2017, p. 49). Depois, a matéria afirma que, em 2016, o verbete sobre Paulo Freire na Wikipedia foi "alterado com informações incorretas", mas não explica o que haveria de incorreto nas críticas que o texto fez às ideias do autor. Ao invés de discutir as críticas, limitou-se a informar que as edições no verbete foram feitas, segundo a Serpro, "em um órgão público federal cujo nome não pode ser divulgado por questões contratuais" (Souza, 2017, p. 50).

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Qual a diferença entre Joesley Batista e Marcos Valério?

Marcos Valério foi condenado pelo STF a 37 anos de cadeia porque operava o esquema do "mensalão". Joesley e Wesley Batista não vão ser nem sequer processados, muito embora Joesley seja o líder de uma grande "organização criminosa" (Badaró, 2017, p. 56) e tenha confessado crimes envolvendo quantias de dinheiro que deixam o "mensalão" no chinelo.

Ah, mas alguém pode lembrar que o acordo de leniência firmado pela holding J&F, que controla a JBS e é presidida por Joesley, determina o pagamento de R$ 10 bilhões, valor que é o maior já pago em acordos desse tipo. O problema é que esse dinheiro vai ser pago em prestações a perder de vista (25 anos) e corresponde a apenas 5,6% do faturamento obtido pela J&F só no ano de 2016. Os irmãos Batista não vão precisar vender nenhum patrimônio pessoal para pagar o acordo. Não vão diminuir em nada o padrão de vida sultanesco que conquistaram com a corrupção.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A responsabilidade da imprensa e a nossa

Assim que eu vi a Globo noticiar de forma categórica que uma gravação comprovava que Michel Temer ofereceu suborno para calar Eduardo Cunha e que pediu propina para a JBS, acreditei de pronto. Como a minha avaliação de Michel Temer e do PMDB é bastante negativa (ver abaixo), fiquei imediatamente a favor do impeachment. Contudo, os fatos recentes mostraram que:

1. A gravação que compromete Temer não é confiável, pois há cerca de 50 cortes nela, segundo os especialistas. Além disso, o nome do arquivo foi alterado, o que impossibilita saber em qual aparelho de gravação aquele arquivo foi gerado. Logo, não há como dizer se os cortes são falhas do aparelho ou produto de uma montagem fraudulenta. Considerando que o autor da gravação é um criminoso confesso (Joesley) a gravação acaba sendo tão suspeita quanto uma nota de R$ 3,00.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Sistema previdenciário atual me privilegia, mas quero a reforma. Por que a maioria da população é contra?

Pesquisa Datafolha mostra que 71% das pessoas são contra a reforma da previdência e que, entre os funcionários públicos, a rejeição chega a 83%. É, estou entre os 17% desse grupo que são a favor... sou sempre minoria. 

Mas, a esta altura do campeonato, já deveria estar mais do que evidente a necessidade da reforma! De 2001 a 2015, o déficit financeiro acumulado pelo INSS foi de R$ 400 bilhões e o do sistema de aposentadoria do setor público alcançou impressionantes R$ 1,3 trilhões. Observando-se a evolução do déficit ano a ano, vê-se que a deterioração das contas da seguridade social vem se dando cada vez mais depressa, sobretudo com a crise iniciada em 2013. Só em 2016, o déficit do orçamento da seguridade social chegou a R$ 257 bilhões (Cf.: 7 coisas que você precisa saber sobre a reforma da previdência).

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Reforma trabalhista: sindicatos e políticos podiam fazer greve de contar mentiras

Recebo muita mensagem com conteúdo mentiroso pelo WhatsApp, mas uma que recebi estes dias convocando para a greve de hoje prima pelo descaramento! Como se trata de um "textão", não vou comentar todos os 13 itens em que está dividido, mas apenas chamar atenção para algumas mentiras muito flagrantes.