terça-feira, 14 de março de 2017

Professora da UFPR defende ensino doutrinador, mas diz que doutrinação não existe

Na última sexta, aconteceu no Departamento de Geografia da UFPR um "debate-ação" (sic) com o tema A reforma do ensino médio na Geografia: enfrentando a desinformação e o descaso. Como é de praxe nos eventos de Geografia, os três debatedores convidados tinham as mesmas opiniões sobre o tema, informadas por teorias e ideologias de esquerda radicais. Então, só houve debate durante a sessão de perguntas que se seguiu às exposições porque eu participei do evento, visto que, a julgar pelas perguntas não dirigidas a mim, ninguém discordou de nada!

Repetições

Com efeito, embora o tema do debate fosse a reforma do ensino médio, a primeira expositora, professora Mônica Ribeiro da Silva, fez críticas enfáticas ao Escola Sem Partido - ESP. E isso foi bom, pois tive oportunidade de debater e também de conferir se ela tinha alguma crítica nova para acrescentar ao debate.

E a expositora não tinha! Ela não apresentou nenhum exemplo de livro didático que não faça doutrinação esquerdista e nem citou qualquer pesquisa que aponte não haver unilateralismo nos conteúdos desses livros. Tudo o que fez foi repetir que não há sentido em acusar a ocorrência de doutrinação no ensino porque a neutralidade é algo que não existe e nem pode existir, seguindo assim a mesma linha de argumentação de Daniel Cara e dos demais críticos do ESP. Disse também que o ESP supõe que o aluno é uma "folha em branco", ou seja, alguém incapaz de refletir sobre os conhecimentos aprendidos com base num repertório de informações e de valores provenientes da família, dos círculos de amigos, dos meios de comunicação, etc. Também nesse caso, o argumento apenas repete o que outros críticos afirmam (aqui).

Ora, o argumento de que a neutralidade é impossível serve apenas para disfarçar o fato de que há várias diretrizes que os professores podem e devem adotar para garantir o máximo de objetividade possível aos conteúdos ministrados, e é justamente esse esforço na busca por objetividade que dá substância ao compromisso que os professores devem ter com a neutralidade política e ideológica. Eu mesmo já apresentei três dessas diretrizes neste blog (aqui).

E o argumento da "folha em branco", conforme eu afirmei durante o debate, também não se sustenta. Afinal, o ESP não diz que o professor é quem constrói a consciência política e moral dos alunos, mas apenas que o professor não tem o direito de usar o acesso a uma plateia cativa, que são os estudantes, para promover suas próprias visões ideológicas e/ou para fazer propaganda política, partidária ou corporativista. É o que afirmam o primeiro e o terceiro dos Deveres do Professor. Além do mais, quando o ESP afirma que o quarto Dever do Professor é apresentar ao aluno visões diferentes da realidade ao tratar de temas políticos, sócio-culturais e econômicos, deixa explícita a concepção de que o ensino deve levar o aluno a refletir autonomamente sobre tais visões, reflexão essa que envolve, obviamente, informações obtidas dentro e fora da escola.

Contradição

Depois de repetir à exaustão esses argumentos baseados na deturpação da proposta do cartaz anti-doutrinação, a professora Mônica acabou se traindo. Foi no momento em que ela disse que, se não pode existir neutralidade no ensino, isso não significa que a escola não tenha um papel desideologizador a cumprir. Exemplo disso seria quando o professor desnuda as "mentiras" e discursos ideológicos veiculados pela "mídia".

Respondi dizendo que, dessa forma, a professora tinha acabado de defender explicitamente que o professor faça doutrinação teórica e ideológica em sala de aula, já que ela empregou o conceito marxista de ideologia como falsa consciência da realidade para qualificar qualquer discurso não marxista como uma mentira na qual o professor não deve deixar que o aluno acredite.

Realmente, o conceito de ideologia como falsa consciência foi elaborado por Marx e é amplamente utilizado por autores marxistas desde o período da Segunda Internacional Comunista - Marilena Chauí o emprega até hoje, inclusive em seu livro didático. Nessa formulação, ideologia é qualquer discurso, seja científico, político, artístico, religioso ou jornalístico, que negue a validade da teoria marxista da luta de classes. Ou seja, qualquer discurso que negue a existência de interesses de classes inconciliáveis que estruturam a sociedade capitalista ou que apresente os interesses particulares de uma classe como se fossem interesses gerais da sociedade. Tal conceito implica necessariamente uma visão cientificista, portanto, já que supõe que a teoria marxista é uma verdade científica inquestionável e que todos os discursos não marxistas devem ser classificados como ideologias que expressam a visão de mundo e interesses das classes dominantes[*].

Qualquer professor que raciocine nos termos desse conceito de ideologia, como quer a professora Mônica, vai se colocar diante dos alunos como o dono de uma verdade marxista imbuído da missão de "desmentir" a "mídia", de sorte que o aluno não poderá discordar do professor sem estar enganado. Assim, esse professor irá apresentar aos alunos uma visão unilateral, a teoria marxista, e deixá-los na ignorância quanto à existência de outras teorias explicativas da sociedade. Ou, caso comente alguma teoria alternativa àquela, será para dizer que tal teoria é só discurso ideológico, isto é, uma mentira. E as duas atitudes nada mais são do que doutrinação teórica e ideológica em estado puro (Diniz Filho, 2013).

Sem resposta

Qual foi a resposta da professora Mônica a essa crítica? Nenhuma. Ela ignorou essa fala e se pôs a refutar a ideia de que o professor deve trabalhar o pluralismo teórico em sala de aula. Segundo afirmou, o pluralismo não garante isenção, pois, quando o professor apresenta pontos de vista distintos, ele ao mesmo tempo se posiciona sobre estes.

De novo, a professora ignora ou finge ignorar que há diretrizes que podem e devem ser seguidas para que a apresentação de visões opostas sobre o mesmo assunto se faça de modo a minimizar a interferência de juízos do professor sobre tais visões, e é dever do professor adotar tais diretrizes. Uma delas é a fidelidade aos fatos. Outra é permitir que o aluno leia textos com visões diferentes sobre um mesmo assunto muito polêmico, inclusive textos dos quais o professor discorda. Outra ainda é concentrar a elaboração dos conteúdos nas teorias e debates científicos (aqui).

Em suma, a professora Mônica Ribeiro da Silva sustenta que neutralidade e pluralismo são impossíveis apenas porque pensa que o professor deve ensinar aos alunos uma única visão da realidade, formada pelas teorias críticas com as quais ela concorda, e acusar todo discurso alternativo de ser ideológico. Ela defende um ensino doutrinador ao mesmo tempo em que afirma não existir doutrinação.

Em tempo

De início, a proposta do cartaz anti-doutrinação previa uma lista de cinco Deveres do Professor. Hoje, vemos ali seis. Eu discordo do quinto, mas deixo essa questão para outra hora.
[*] Nota: mesmo entre autores marxistas há críticas contra o conceito de ideologia como falsa consciência, o qual serve apenas para afirmar que o marxismo é a verdade e que todo discurso não marxista é mentiroso por definição (Moraes, 1988, p. 39-40). 
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DINIZ FILHO, L. L. Por uma crítica da geografia crítica. Ponta Grossa: Editora da UEPG, 2013.

MORAES, A. C. R. Ideologias geográficas: espaço, cultura e política no Brasil. São Paulo: Hucitec, 1988.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Doutrinação: a escola serve para ensinar quais leis são "boas" e quais não são?

Quem pesquisa no Google a expressão "escola sem partido" vê logo de cara um link que é anúncio pago, possivelmente, por sindicatos de professores. Afinal de contas, o link remete a um texto totalmente contrário ao Projeto de Lei apelidado de "Escola Sem Partido". De outro lado, não há nenhum anúncio pago no Google para dar destaque aos textos favoráveis a esse PL ou, pelo menos, ao diagnóstico de que o problema da doutrinação no ensino existe, é grave e precisa ser enfrentado. Ainda assim, os sindicatos de professores sempre gostam de posar de vítimas do poder econômico...

Ironias à parte, o fato é que o artigo de Caio Zinet apresenta as refutações de especialistas em educação contra o site Escola Sem Partido e o PL citado. Neste post, vou tratar da primeira refutação, que é a seguinte:
Para o coordenador da Campanha Nacional pelo Direito a Educação, Daniel Cara, a neutralidade absoluta é impossível de ser atingida. "Não é possível (ser neutro) porque qualquer tema que se aborde leva um juízo de valor do professor, o que é importante. O que ele não pode fazer é limitar a aula a seu juízo de valor. Determinar a neutralidade política numa lei é um equivoco absoluto", afirmou (Zinet, 2016).

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Supremo fez bem em determinar indenização de presidiários

Já escrevi um tanto contra esses intelectuais e jornalistas de esquerda que pensam no criminoso como uma vítima do capitalismo que deve ser poupada da cadeia tanto quanto possível. Mas isso não quer dizer que eu concordo com essa direita primitiva brasileira, que defende execução de criminosos e até se regozija em saber que nossos presídios são insalubres como calabouços e lugar de sevícias e torturas.

Mas não vou gastar tempo explicando a essa direita questões elementares de valor e de cidadania. Vou apenas explicar que a decisão do STF de indenizar os presos em condições degradantes foi a melhor dentre as alternativas possíveis, que eram três:

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Doutrinação: professor Luan Pablo Rosa usa argumentos desonestos ao tratar do tema

O professor Luan Pablo Rosa fala grosso e se faz de defensor intransigente da liberdade de ensinar quando quer atacar o Projeto de Lei "Escola Sem Partido", mas fica mansinho e se posiciona de forma ambígua e contraditória quando se trata dos piqueteiros da UFPR, universidade em que ele estuda. É uma clara demonstração de hipocrisia. Não bastasse isso, seus argumentos contra a minha fala na audiência pública da Câmara que tratou do PL citado são intelectualmente desonestos.

Para quem ainda não sabe, esse Projeto de Lei nasceu da preocupação de informar aos estudantes que o professor não tem o direito de se aproveitar de uma plateia cativa, que são seus alunos, para induzi-los a ter as mesmas ideias políticas do professor. Daí a proposta de elaborar uma lista de Deveres do Professor relacionados ao respeito pela liberdade de aprender dos estudantes. Ao participar da última audiência pública da Câmara que discutiu o tema, fiz uma exposição com o objetivo de demonstrar que o problema da doutrinação existe e é muito sério.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Professor Luan Pablo Rosa faz ataque hipócrita ao Escola Sem Partido

Participei recentemente de mais uma audiência na Câmara dos Deputados para debater o Projeto de Lei apelidado de "Escola Sem Partido". Um professor que também é aluno de Geografia da UFPR fez uma postagem no Grupo Geografia UFPR, do Facebook, com o seguinte ataque ao projeto:
EU EDUCADOR/PROFESSOR NÃO ACEITO SER AMORDAÇADO, assim cerceado do direito livre e constitucional da prática docente, imposta nesta PL como uma clara restrição arbitrária da liberdade de ensinar que apenas prejudica os alunos, limitando o debate sobre a educação escolar nos aspectos relacionados à educação sexual, moral e religiosa.
Quanta indignação! Quanta coragem na defesa da liberdade de ensinar! Quem lê esse texto jamais imaginaria que o professor Luan é bastante indulgente quando se trata de piquetes na universidade, ou seja, que ele não vê nenhum problema sério no fato de uns poucos baderneiros impedirem certos professores de exercer a liberdade de ensinar (e em prejuízo daquela maioria de alunos que não aderiu à paralisação estudantil) por meio de intimidação física!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Mais da metade dos "grevistas" reprovou por não ter entregue os trabalhos!

Os cerca de 50 alunos da minha disciplina que não aderiram à paralisação estudantil do final de 2016 fizeram as provas (dentro das condições possíveis, tendo em vista os piquetes) e praticamente todos foram aprovados. No caso dos 15 pseudo-grevistas que solicitaram reposição de aulas, também era bem fácil passar. Conforme o plano de reposição aprovado no Colegiado de Curso de Graduação, bastaria entregarem cinco resenhas de cinco textos com temas pertinentes ao conteúdo ministrado no semestre. Ou seja, tiveram quase o mês de janeiro todo livre para fazer 5 trabalhinhos fáceis e que não demandavam mais do que umas poucas horas de esforço cada um. Mesmo assim, dos 15 "grevistas", 8 não entregaram nem uma resenha sequer!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Revista Galileu faz péssimo dossiê sobre a crise nos presídios

A revista Galileu já foi boa; hoje, é um lixo. Uma demonstração disso é o "Dossiê Prisões" (Tanji, 2016), matéria do mês passado que nada tem de divulgação científica e que, ainda por cima, reproduz informações estatísticas falseadoras e dogmas ideológicos disfarçados de ciência. 

Com efeito, a ideia central do dossiê é que o problema prisional brasileiro se deve ao suposto fato de que o Estado não investe o suficiente em programas sociais e pratica uma política intensiva de encarceramento de pessoas, combinação essa que só levaria a mais violência e injustiça. Mas tal conclusão, que é um dos dogmas sagrados da esquerda, está errada por muitas razões. Vejamos três delas: