quarta-feira, 21 de setembro de 2016

"Aquarius": no cinema ou no planejamento, esquerdistas são sempre maus perdedores

O título do capítulo 2 do meu livro Por uma crítica da geografia crítica, publicado em 2013, é o seguinte: "a impotência das teorias críticas no domínio prático e a lógica dos maus perdedores". A segunda metade desse capítulo, em que são analisadas propostas de planejamento urbano e regional, faz uma revisão bibliográfica que pode ser resumida assim: 
[os] autores dessa tradição de pensamento [crítico] têm tanta convicção de que a sociedade é estruturada por contradições insolúveis fora da realização de alguma utopia social anticapitalista que são incapazes de pensar em qualquer explicação para os fracassos das suas teses que não esteja no processo político e na imprensa (p. 99).
[Rainer] Randolph concorda com Ana F. A. Carlos e Arlete M. Rodrigues, entre outros, quanto ao pressuposto de que existe uma vida urbana cuja plenitude é negada pelo capitalismo, sobretudo em sua versão globalizada e "neoliberal"; concorda com aqueles que constatam a incapacidade dos instrumentos de planejamento participativo para fazer surgir e levar adiante propostas de superação do capitalismo; credita essa incapacidade às assimetrias de poder entre as classes e, como consequência, à "mídia", ao processo político de formação de consensos e à democracia representativa, que transformariam os sistemas participativos em mera ilusão; por fim, sustenta que, se o Estado for efetivamente sujeito a uma vontade popular manifesta por meio de mecanismos democráticos alternativos - a tal inversão das relações entre planejadores e população -, ver-se-á o surgimento de demandas às quais o planejamento só poderá atender se assumir um papel "subversivo" frente à lógica capitalista, demandas essas pertencentes à esfera subjetiva das vivências e das práticas espaciais concretas de certos grupos sociais (p. 104).
[...] Portanto, a crise da teoria social crítica, derivada da ausência de um projeto razoavelmente preciso e viável de sociedade alternativa ao capitalismo, empurra urbanistas e geógrafos para a formulação de propostas radicais que se sustentam em velhas teorias marxistas da luta de classes e em suposições apriorísticas e ideológicas sobre a subjetividade das pessoas, não no estudo direto dos problemas urbanos. É a atitude típica dos maus perdedores: quando vencem, é prova de que estão certos; quando perdem, é culpa das regras do jogo (p. 105).
Muito bem. Vejamos agora este comentário do jornalista Reinaldo Azevedo (aqui):
Kleber Mendonça Filho, o diretor de "Aquarius", revelou que é mesmo um esquerdista típico. Ele só reconhece o resultado de um jogo quando vence. Concedeu uma entrevista ao site DW Brasil e criticou a escolha do longa "Pequeno Segredo" para representar o país no Oscar. Para ele, o "processo de escolha foi corrompido desde o início", e o Ministério da Cultura fez uma seleção com base em "elementos políticos e não técnicos".
Ainda segundo Kleber, deixar "Aquarius" de fora da cerimônia foi uma "retaliação ao filme" feita pelo governo Temer em resposta à manifestação em Cannes, quando atores e a equipe técnica do longa levaram cartazes no tapete vermelho falando que o Brasil havia sido vítima de um golpe. O diretor não citou nominalmente Michel Temer na entrevista, mas falou sobre o ministro da Cultura, Marcelo Calero, que, segundo ele, "mostrou uma falta de treinamento muito grande com a ideia da democracia ao criticar abertamente o protesto feito em Cannes".
Bem, dizer o quê? Corrompido e corrupto é o caráter de quem:
– pega dinheiro público para fazer um filme;
– viaja ao exterior às expensas dos brasileiros;
– uma vez em solo estrangeiro, mente sobre o processo político no país e difama milhões de brasileiros;
– mantém um cargo público mesmo considerando o governo golpista;
– pega financiamento público para fazer filme quando, sendo funcionário público, estaria impedido de fazê-lo;
– resolve apelar ao proselitismo para dar visibilidade à sua obra, que, então, se impõe mais em razão da polêmica política do que das qualidades estéticas.
Corrompido.
Corrupto.

Como se vê, a lógica dos maus perdedores não pauta apenas as "reflexões" de intelectuais que se dizem "críticos" quando constatam o fracasso das suas teses no âmbito do planejamento e quando disputam verbas públicas para pesquisa científica, mas também as opiniões expressas por esquerdistas que se dedicam a outras áreas de atividade, como o cinema. Com muito raras exceções, o marxismo e demais vertentes teóricas e políticas anticapitalistas são a negação do pensamento científico e da democracia, além de inúteis para a formulação de políticas de Estado e anti-republicanas quanto à gestão dos recursos públicos.


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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Caso Cunha: geógrafos petistas pensam que todo mundo é igual a eles

Assinei uma petição online em favor do impeachment de Dilma Rousseff e outra pela cassação de Eduardo Cunha - ambas pelo Change.org, já que eu não prestigio a Avaaz de maneira alguma. Do mesmo modo, entendo que Michel Temer deveria ter seu mandato cassado, na medida em que, como a chapa pela qual ele se elegeu vice-presidente era única, o dinheiro do petrolão, se entrou nas contas de campanha de Dilma, beneficiou também a candidatura dele. São todos posicionamentos coerentes com a defesa da democracia, do Estado de Direito e da ética na política.

Bem diferente é o caso dos geógrafos petistas - expressão que é quase um pleonasmo... -, já que a grande maioria deles não se preocupa em defender princípios e nem em ser coerente com as teses que expõe em seus trabalhos acadêmicos. Realmente, a maior parte dos geógrafos e professores que se dizem "críticos" não têm autocrítica e, por isso, defendem cegamente um partido que cometeu estelionato eleitoral e em cujos governos funcionaram os maiores "esquemas" de corrupção da história do Brasil!

terça-feira, 12 de julho de 2016

Viva os transgênicos! Abaixo o Greenpeace!

Já fui abordado na rua, umas três vezes, por militantes do Greenpeace doidos para me arrancar doações de dinheiro. Eu podia responder que estou com pouca grana (o que nem seria mentira), mas prefiro cortar logo a conversa dizendo a verdade: não tenho simpatia pelo Greenpeace.

Mas como alguém pode não simpatizar com uma organização que defende tão belas causas? Simples: repudio organizações que tentam me enganar com mentiras descaradas e que, ao defender causas inegavelmente belas, propõem "soluções" que, quando aplicadas, geram efeitos contrários aos prometidos.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Bolsonaro, Wyllys e a miséria da política brasileira

Recentemente, comentei que Jair Bolsonaro possui ideias afinadas com as do fascismo italiano, afirmação essa embasada numa pesquisa organizada por Leandro Narloch. Esse é um ponto em que o, digamos, "pensamento" de Bolsonaro se aproxima ao das esquerdas, tendo em vista que, segundo a mesma pesquisa, PCdoB e PT são os dois partidos cujos deputados mais se identificam com as ideias de Mussolini.

Bem, um comentário publicado sobre essa postagem afirma o seguinte, entre outras coisas:
Eu gostaria conhecer as respostas do Bolsonaro a cada uma das questões do Leandro, pois nem todas elas refletem idéias exclusivas do fascismo (as questões 1 e 5, por ex.). No caso do Bolsonaro deve-se considerar ainda a sua formação militar, baseada nos princípios da hierarquia, disciplina e ordem, sob a influência do positivismo, dos jovens turcos, da missão francesa e, mais recente, dos EUA. Além do mais, indivíduos podem mudar de idéias ao longo do tempo: anarquistas podem virar liberais, liberais viram conservadores, etc.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

A classe operária vai a Donald Trump!

Donald Trump e Jair Bolsonaro são duas caricaturas vivas de tudo o que pode haver de mais populista, oportunista e ridículo na política. E a ascensão eleitoral de ambos (muito maior no caso de Trump, na verdade) chama atenção para alguns fenômenos bastante irônicos. Neste post, vou tratar apenas do bufão norte-americano, deixando o fascistoide tupiniquim para o próximo.

O caso de Trump é interessante porque, embora a intelligentsia esquerdista aponte a xenofobia como um dos elementos definidores do pensamento conservador e suponha que este é uma expressão dos preconceitos das classes abastadas, o eleitorado de Trump mostra uma realidade muito diferente. De fato, embora Trump tenha cerca de 23% das intenções de voto no segmento mais rico da população, sua força eleitoral reside principalmente no grupo formado por homens brancos casados, sem diploma universitário, pertencentes à classe média e que trabalham no setor industrial (talvez não seja demais lembrar que, nos países desenvolvidos, mais do que no mundo em desenvolvimento, trabalhadores industriais integram a classe média).

terça-feira, 24 de maio de 2016

Agricultor familiar prefere plantar fumo a fornecer verdura para a merenda escolar

Uma das muitas aberrações do Brasil atual é o discurso de que a agricultura "camponesa" não age movida pelo interesse em obter lucros, mas sim pelo objetivo de reproduzir seu modo de vida, o qual se adaptaria ao capitalismo de forma "contraditória". Em função disso, haveria uma "lógica da produção camponesa" que, contrariamente à "lógica do agronegócio", estaria orientada para a produção de alimentos saudáveis de forma ambientalmente sustentável e destinados ao consumo no mercado interno.

Mas como os "pesquisadores" que estudam o agro com esses parâmetros explicam o fato de que a maior parte da produção de tabaco é realizada pela agricultura familiar? Bem, ou eles simplesmente omitem esse fato - tal e qual acontece nas tabelas do suplemento especial do Censo Agropecuário 2006 sobre agricultura familiar -, ou então sugerem que o produtor familiar muitas vezes planta fumo por falta de opção. Noutros termos, justificam suas explicações apriorísticas com uma racionalização ad hoc segundo a qual muitos "camponeses" se vêm forçados a assimilar a "lógica capitalista", ao menos parcialmente, como estratégia para resistir no meio rural.

sábado, 14 de maio de 2016

O que esperar do governo Temer: de volta à Era da Mediocridade

Se Michel Temer levasse a sério combate à corrupção, eficiência administrativa e modernização da economia, jamais teria passado 13 anos apoiando e até participando dos governos do PT. E é sabido que o PMDB não passa de uma agremiação fisiológica e patrimonialista que apoia qualquer governo em troca de cargos e que, por isso mesmo, escolheu o PT como seu aliado preferencial, nas últimas quatro eleições. 

De fato, o PT é um partido que investe no agigantamento do Estado, por razões tanto ideológicas quanto corporativistas e fisiológicas. O melhor negócio para o PMDB, apesar de o apetite petista por cargos e verbas ser tão grande quanto o peemedebista, era apoiar o PT. Só deixou de ser bom negócio quando as multidões tomaram as ruas para exigir "Fora, Dilma"...