quinta-feira, 9 de abril de 2015

Paulo Freire, marxismo e violência nas escolas: tudo a ver

A Gazeta do Povo publicou recentemente mais um artigo de José Maria e Silva desancando o patrono da educação brasileira: Paulo Freire. No artigo, Silva mostra a relação que existe entre as ideias freirianas e a violência, conforme se lê nesta passagem:
Não é exagero afirmar que a transformação de criminosos em "reeducandos" [o novo tipo penal em vigor] – com graves implicações morais – é um efeito colateral das ideias de Paulo Freire. O autor da Pedagogia do Oprimido, espalhada em dezenas de idiomas pelo seu livro homônimo, assassinou Durkheim e divinizou Marx, transformando a educação numa arena política, em que o aluno concreto é sacrificado no altar da revolução. Para Freire e seus discípulos, nunca há responsabilidade individual no conhecimento e o aluno relapso ou delinquente vale até mais do que o aplicado, pois sua conduta é vista como uma contestação legítima ao sistema (texto completo aqui).

Realmente, não há exagero algum aí. Afinal, Paulo Freire era um marxista. Talvez não propriamente um teórico marxista, na medida em que ele nunca produziu teoria alguma. Mas, sem sobra de dúvida, ele foi um militante marxista, e petista, de ideias bastante superficiais. E, como é próprio dos pensadores e militantes marxistas, ele via qualquer ato de desobediência ou de desrespeito à autoridade como manifestação de resistência, muitas vezes "inconsciente", contra o sistema capitalista! 

Para dar uma pequena prova disso, vou citar uma passagem de um texto de Helena Callai sobre educação. A autora expressa a visão descrita por Silva de forma bastante explícita, mas, em vez de citar Freire, faz referência ao teórico e político marxista Antonio Gramsci, como se pode ver abaixo:
Na concepção gramsciana, em contraposição à dominação cultural, ocorrem sempre formas de resistência. [...] Esta resistência aparece em sala de aula, na escola e na vida social mais ampla, de diversas formas que, se não forem entendidas, e mesmo noutra perspectiva de educação, passam a ser consideradas como mau comportamento. Em geral, se expressam na linguagem, no vestuário, na resistência a fazer em sala de aula o que o professor propõe. Ao contrário de subestimá-la, ou desconsiderá-la, cabe à escola, preocupada em educação para a cidadania, conseguir transformar esta ação, muitas vezes isolada dos procedimentos habituais, em uma força e ação ampliada para um forma de resistência mais politizada (Callai, 1999, p. 79-80 – grifos meus).
E depois os professores se dizem vítimas da violência nas escolas...

Postagens relacionadas

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CALLAI, H. C. A geografia no ensino médio. Terra Livre, São Paulo, n. 14, p. 56-89, jan.-jul. 1999.

9 comentários:

  1. Lendo este seu artigo e postagens relacionadas acima, tomei a liberdade de fazer um comentário relacionado, e expondo um caso semelhante. Faço isso com a consciência de que possivelmente poderei sofrer represálias diretas ou indiretas. O caso que mencionou do prof. Marcelo Hermes da UnB não é único. Conheço pelo menos um caso ocorrido também na greve de 2012, mas neste caso não havia policiais defender a professora cuja aula foi invadida. Agora novamente os estudantes da instituição em que leciono estão em greve, há mais de um mês, reivindicando transporte gratuito, direto e exclusivo para um único campus. A posição dos professores tem sido, aparentemente, depois do caos da greve de 2012, de não se manifestar publicamente nem a favor nem contra, seja sobre as reivindicações, seja sobre os métodos de reivindicação. Foi relatado que nas portas das salas de aula houve barricadas de cadeiras para impedir sua utilização por eventuais professores que, por desinformação ou "desacato", comparecessem para lecionar. Depois disso, resta saber se haverá ou não reposição das aulas, sendo que obviamente os alunos esperam (ou até exigem) que sejam repostas integralmente. Sinceramente, depois de anos, me recuso a me submeter a isso. Mas tudo leva a crer que eu seria ameaçado até fisicamente se me dispusesse a lecionar apesar da greve. A lógica é que se deve sentir dó da situação, e que, por conseguinte, os menos favorecidos, obrigados a utilizar o transporte público e pagar por ele, deveriam ser cumulados com benefícios e privilégios. Essa lógica, é claro, só serve para estes estudantes deste campus e desta universidade. Ninguém tem dó de professores submetidos a situações absurdas. Pois bem: já foram duas vezes que me colocaram em uma "disciplina fantasma" (na qual não se pode ensinar nada e cujos alunos não precisam assistir aulas) por "falta de salas"; não tenho material didático (livros e periódicos na biblioteca); não tenho nem nunca tive financiamento algum para pesquisa nem para apresentação de trabalhos no país. Segundo essa lógica, eu também teria direito a fazer greve.

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    1. Meus parabéns por denunciar essa situação absurda, professor! Eu já li um texto de sua autoria (no blog do professor Adonai Sant'Anna, se não me falha a memória), e fiquei estarrecido com os fatos relatados. Torço para que o ambiente acadêmico desestimulante para suas pesquisas e até hostil frente ao seu inconformismo não acabe fazendo o senhor desistir da carreira!

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    2. Meus parabéns por denunciar essa situação absurda, professor! Eu já li um texto de sua autoria (no blog do professor Adonai Sant'Anna, se não me falha a memória), e fiquei estarrecido com os fatos relatados. Torço para que o ambiente acadêmico desestimulante para suas pesquisas e até hostil frente ao seu inconformismo não acabe fazendo o senhor desistir da carreira!

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    3. Luiz, obrigado pelo apoio. À medida que o tempo passa, tendo a considerar que o absurdo seria as coisas mudarem, ou que alguém se revoltasse contra tudo isso. Na greve de 2012, isso ocorreu. Mas, mesmo assim, a greve se estendeu e durou um semestre. Agora, o que mais vejo é indiferença. Alunos não se importam em se formar um mês (ou um ano) mais tarde. Programas de graduação e pós-graduação são aprovados, no primeiro caso com nota total pela CAPES, mesmo com gente que publica livros e artigos fantasmas, mesmo com infraestrutura precária e qualidade duvidosa. Vitórias burocráticas são travestidas de vitórias (avanços) na produção de conhecimento. O prof. Adonai publicou um texto, "Conquistando respeito acadêmico sem esforço", que se encaixa perfeitamente. Só que os casos que presencio superam a descrição dele. Ainda estou buscando, por vezes, uma alternativa ao "Laissez passer, laissez faire", mas, academicamente, pelo menos na minha área e neste país, não existem alternativas ao "quietismo". Basta presenciar os "especialistas" que se repetem na mídia falando de Oriente Médio. Recentemente realizei uma entrevista para a TV (educativa...) UNIVESP-TV, que foi simplesmente cortada do "debate", sem qualquer explicação. Acho que, com tudo isso, talvez seja melhor me recolher a uma atitude de "mineiro" e "deixar quieto" -- mas dando uns coices, é claro, de vez em quando.

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  2. Diniz, outro dia eu discutia com um opositor desta tese. Ele argumentava que o "método Paulo Freire" não incentivava, explicitamente, a indisciplina escolar e, no que concordei, que precisaríamos desenvolver pesquisas mais apuradas para relacionar e tecer causalidades entre a atuação dos professores e a leitura/aceitação do referido método. Ocorre que, mesmo achando necessária tal pesquisa, não há uma lógica mono-causal, i.e., há mais fatores que corroboram e tornam a educação permissiva para com a indisciplina (o ECA é um dos mais notórios conjuntos legais neste sentido). Eu o contestei, no entanto, dizendo que sim, o pedagogo mais lido nos cursos de educação é Paulo Freire e sua vitimização do aluno (como pretenso corolário da "exploração de classe") anula qualquer possibilidade de estudos e desenvolvimento de protocolos de atuação para resolução de conflitos em sala de aula. A ordem é não resolvê-los, mas como é do feitio deles, deixar que "as contradições se processem". Muitos professores, a bem da verdade, nunca leram Paulo Freire, assim como nunca leram Karl Marx e nunca leram nada que se assemelhe a um livro, mas são 'embalados' pelas ideias desses através da repetição de clichês por pedagogos. E estes concentram demasiado poder que leva à destruição da escola ao se situarem entre os professores (que ministram aulas e têm mais conhecimento de causa que qualquer pedagogo) e as secretarias de educação empenhadas em não gastar tempo precioso em que poderiam estar tomando cafezinho e fofocando. Como se isto não bastasse, a miopia dos professores e seus sindicatos que só sabem lutar por "melhores condições de trabalho", leia-se, salários nunca dispensa tempo para discutir a sala de aula. Esta é mesmo o último lugar dentre as prioridades da atual escola brasileira. Qualquer funcionário escolar, sem cerimônia nenhuma, abre a porta da sala para tirar alunos para formalidades burocráticas sem antes ter pedido tua permissão, distribuir camisetas ou fazer rifas. Seja lá o que for, a sala de aula não apresenta mais nenhuma sacralidade, não passando de um espaço de entretenimento.

    Sim, a escola atual sofre com os efeitos da extinção da disciplina e compostura graças à Paulo Freire e outros abominadores da civilidade. Afinal, o instinto revolucionário vai contra qualquer construção histórica em prol do ser civil.

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  3. Está ai o resultado, ou um dos resultados, disso que o Diniz e o Anselmo tratam:

    https://www.youtube.com/watch?v=3iVQAFv1CTA

    Revoltante não?

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    1. Não estou podendo escrever muito, mas não resisto a comentar com uma palavra: estarrecedor!!!

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  4. Olá Luis,
    Bom texto.
    Aproveitando pra te indicar esse texto: https://www.academia.edu/12638612/The_limits_to_Marx_David_Harvey_and_the_condition_of_postfraternity
    Parece que a Geografia Radical norte-americana está se desmantelando dentro uma própria tradição de esquerda.
    Obg, Bruno Frank

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  5. EXISTE UMA DIFERENÇA ENTRE SER OPRIMIDO E OPRESSOR!
    BEM! ALUNOS BUSCAM AQUILO QUE ELES ACREDITAM SER MAIS FÁCIL, QUER TUDO PRA ONTEM, TUDO A CURTO PRAZO, POR ISSO, ESTUDAR DURANTE 12 ANOS É ALGO QUE OS ALUNOS NÃO TEM PACIÊNCIA...

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