sábado, 8 de dezembro de 2012

"Oscar Niemeyer é um déspota"

Quem é o autor da frase que serve de título para este post? Dirão geógrafos e petralhas que só pode ser algum direitista, um conservador qualquer que, por não gostar das ideias políticas do genial arquiteto, nega também o seu talento profissional. Nada disso! Quem fez essa afirmação foi o marxista Marshall Berman, autor do livro Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade (Companhia das Letras, 1986).


Li esse livro na graduação, e o ataque contra Niemeyer aconteceu durante uma palestra que Berman proferiu, com tradução simultânea, no anfiteatro do Departamento de História e Geografia da USP, na segunda metade dos anos 1980. Eu estava lá e, quando indagado a respeito de Brasília, Berman foi veemente nas críticas contra Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, pois sustentava que essa cidade é expressão de um projeto político autoritário. A razão disso é que, conforme está no livro dele, assim como em trabalhos de diversos geógrafos e urbanistas, os espaços públicos - em especial, a rua - devem ser projetados como lugares de encontro. Todavia, o plano urbanístico de Brasília dá privilégio ao automóvel como meio de circulação e dispersa as pessoas em espaços descentralizados de comércio e serviços, impedindo justamente esse encontro de todos com todos e, mais ainda, afastando o povo do poder. Na época, um amigo meu comentou que, em resposta, Niemeyer declarou numa entrevista que Berman era um "filho da puta". Se a resposta foi assim mesmo ou se é só boato, não sei dizer.

Mas escrevo estas linhas para ressaltar uma ironia presente nos textos jornalísticos e debates que vêm sendo travados na internet a respeito da trajetória de Niemeyer, agora que ele morreu. Os petralhas e outros esquerdistas antidemocráticos aproveitam que Niemeyer era uma celebridade admirada internacionalmente para fazer com que as ideias políticas autoritárias e homicidas dele parecessem humanistas. Nada a ver, realmente! Um sujeito que passou uns oitenta anos de vida a defender assassinos como Stálin e Fidel Castro podia ser qualquer coisa, menos democrata ou humanista! Na outra ponta do espectro ideológico, Reinaldo Azevedo afirma que é preciso separar a obra arquitetônica de Niemeyer, que ele reputa esteticamente genial, das ideias políticas retrógradas que ele defendia. E aí vem a patrulha esquerdista da internet acusar Azevedo de ser um conservador que teria renegado o talento de Niemeyer por conta de um anticomunismo furibundo.

A verdade, porém, é que Reinaldo Azevedo foi generoso com Niemeyer, pois teve o cuidado de separar trabalho artístico de ideias políticas; Marshall Berman, como marxista típico, sempre deixou claro que as duas coisas são inseparáveis, de sorte que nada se podia salvar das contribuições do arquiteto. Encerro citando o próprio Berman, numa entrevista que sintetiza a visão politizada dele (texto completo aqui):
FOLHA – Projetos "extremos", como o de Brasília, são uma coisa do século 20 ou ainda há demanda?
BERMAN – Será que Brasília era apropriada mesmo para os tempos de ontem? Só se você aceitar o modelo de Luís 14 em Versalhes, de o governo manter distância do povo. Luís 14 era um dos heróis de Le Corbusier. Para Niemeyer, seguidor de Le Corbusier e de Stálin, esse estilo de autocracia fazia sentido. Quando as pessoas exigem democracia (e cada vez mais povos fazem isso no mundo), querem o governo a seu alcance.

4 comentários:

  1. Dois anos antes de ser inaugurada, a poetiza americana E. Bishop visitou Brasília e se surpreendeu com a secura e desolação do local. Ela estava antevendo como seria a cidade. Também já li que Brasília é "a última cidade medieval do mundo" ou "a cidade medieval mais moderna do mundo", algo assim, devido ao princípio de isolamento do público. De acordo com Vesentini em seu A Capital da Geopolítica, ela foi realmente pensada para apartar: os próprios pontos de ônibus são distantes uns dos outros para evitar aglomerações. E não precisamos ser experts no assunto para perceber porque aqueles prédios só devem funcionar em clima seco, como é de fato o Planalto Central, pois quando chove há muita infiltração; suas paredes envidraçadas também funcionam como estufas onde o uso de ar condicionado permanente se faz obrigatório. Tudo bem "ecológico", que nossos críticos politicamente corretos esqueceram de comentar. Niemeyer, como admirador do vulgo Le Corbusier, quem dizia que "a arquitetura serve para disciplinar", não poderia deixar de pensar algo como espetáculo de concreto: é uma obra que não dialoga com o cidadão, apenas expõe para o mesmo. Se há um sentido naquilo, mais parece ser o de um cemitério vivo.

    Dizem que gosto não se discute, mas eu não vou me eximir de opinar por isto... Aquele museu em formato de disco voador, é algo psicodélico que deveria ser a nata da nata no início dos anos 70. Não que eu ache que devamos seguir os ditames da moda, mas acreditar que o que fez o badalado arquiteto é inovador, sem chance. Talvez ficasse bem colocado como cenário em um novo filme de Austin Powers, só que antes do mesmo retornar para o presente...

    Quanto ao comunismo deste hipócrita de contratos milionários, sem comentários.

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    1. Bem lembrado: eu estou justamente pensando em escrever um post para mostrar que a esquerda não-marxista, inspirada nas críticas pós-modernistas à razão, malha Niemeyer com a mesma impiedade do marxista Marshall Bergman. E o exemplo disso é "A Capita da Geopolítica". A esquerda militonta que sai em defesa de Niemeyer não sabe do que está falando.

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  2. Parabéns.

    Não discuto que tenha sido um arquiteto famoso. Mas, entre as catedrais góticas e a de Brasília, prefiro as primeiras. Niemeyer não entende nada de arte sacra.
    Brasília sempre achei fria e uma expressão do sistema abstrato. Para os sistemas abstratos as pessoas são nada. Como comunista ele soube traduzir isso na sua arquitetura.
    O Brasil é um país sentimentalóide.
    Agora que ele morreu tornou-se o maior arquiteto do mundo. Nunca foi. Aqui, para a fama, é necessária a aprovação, a chancela do grupinho de Ipanema e das ramificações da esquerda chique.
    Nem leram o texto do Azevedo e já caíram de pau nele.
    Gutenberg J
    Laudaamassada
    Também atiro tomates.

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    1. Eu gosto de várias obras de Niemeyer; de outras, não. Gosto do "Museu do Olho", aqui em Curitiba, por exemplo. Já visitei a Catedral de Brasília, e apreciei. Mas gostei mais de Notre-Dame, embora tenha estado lá faz muuuiito tempo. Enfim, mesmo do ponto de vista estético, há muita polêmica sobre a obra dele, que é acusada de desbujetivadora, fria, etc. Todavia, um dos efeitos colaterais do "complexo de vira-lata" dos brasileiros (a expressão é de Nelson Rodrigues) é que todo mundo se sente meio obrigado a elogiar os brasileiros que fazem sucesso no exterior. Mas eu não caio nessa, e muito menos na conversa de que esse arquiteto foi um humanista mesmo gostando de Stálin...

      E boas tomatada

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