sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Pelé não foi vítima de racismo, mas de racialismo, sim

Em seu livro Não somos racistas, Ali Kamel mostra como as teorias que dividem o Brasil em brancos e negros (mesmo com a imensa miscigenação!) foram aos poucos tomando conta do modo de pensar nacional, até se tornarem hegemônicas. Se me perguntarem sobre algum acontecimento que sirva como emblema de quando e como essa mudança aconteceu, eu cito uma entrevista que o Pelé concedeu a um grupo de jornalistas da TV Cultura, num programa que antecedeu o Roda Viva.


Não sei precisar quando foi, mas creio que se deu no finzinho dos anos 1970 e início da década seguinte. Eu ainda era bem jovem e, embora não curta futebol, assisti ao programa. Mas o importante é que, lá pelas tantas, um dos entrevistadores perguntou ao Pelé se ele já havia tido problemas com preconceito racial e ele respondeu que não teve. Perguntas relacionadas a futebol se sucederam depois disso, até chegar à rodada de encerramento do programa. Nessa fase, cada entrevistador tinha cerca de um minuto para dar suas impressões finais sobre a entrevista. Foi então que o sujeito que havia feito a pergunta sobre o racismo disse ter gostado muito da entrevista, mas achou que "naquela questão do racismo você escondeu o jogo, hein?". Pelé repetiu que nunca teve problema com discriminação racial e que, se tivesse tido, contaria sem problemas. Outros jornalistas falaram depois, e um deles afirmou concordar que, na pergunta sobre o racismo, Pelé tinha "escondido o jogo". Novamente, Pelé negou.

Essa entrevista é emblemática do profundo dogmatismo que pauta o modo de pensar racialista. Afinal de contas, Pelé não escondeu o jogo coisa nenhuma! Esconder o jogo é omitir-se de dar uma resposta, mas ele não se omitiu: pelo contrário, ele respondeu "não" claramente e reafirmou isso duas vezes! Dizer que ele estava escondendo o jogo era, portanto, uma maneira dissimulada de chamá-lo de mentiroso!

O modo de pensar racialista é dogmático e autoritário porque opera da seguinte forma: supõe que atribuir ao "racismo de marca" ou "de cor" um papel importantíssimo na explicação das desigualdades sociais brasileiras é dizer uma verdade óbvia e incontestável; sendo assim, quando um branco diz que não é racista, os racialistas concluem logo que, ou ele está mentindo por ter vergonha de reconhecer o preconceito, ou pode até pensar honestamente não ser preconceituoso, mas discrimina as pessoas inconscientemente mesmo assim; de outro lado, se um negro diz que é ou foi vítima de preconceito racial, isso significa que ele é um "negro consciente"; por fim, se um negro bem-sucedido como Pelé afirma que nunca teve problemas com discriminação racial, então ele está mentindo feito um branco! 

No final das contas, quem discorda do discurso racialista é mentiroso por definição, não importando se é branco, negro, pardo ou azul. O racialismo é um discurso dogmático e autoritário, pois interdita qualquer debate ao pressupor a desonestidade intelectual de quem discorde de suas teses, e ainda faz uma espécie de psicanálise de boteco quando sugere que mesmo pessoas bem intencionadas se equivocam quando pensam não ter preconceito, pois agiriam de forma preconceituosa inconscientemente.

Ora, eu não sou fã do Pelé, em nenhum sentido. Não ligo para futebol e nunca engoli aquela história de ele dizer que "brasileiro não está preparado para votar", e isso ainda durante a ditadura! Mas supor gratuitamente que ele mentiu ao dizer que não foi vítima de preconceito racial mostra como o pensamento racialista é nefasto para os debates públicos e o modo como ele conseguiu se tornar predominante. Aquela entrevista do Pelé mostrou que um negro de sucesso pode muito bem não ter sido vítima de preconceito racial, mas, se não afirmar que foi, será vítima do preconceito racialista, já que, segundo o racialismo, todas as vozes discordantes são mentirosas por definição.

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