sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Ainda sobre racialismo e cotas no Brasil

Por conta do dia da consciência negra - comemorado na suposta data de nascimento de Zumbi dos Palmares, rei negro de um reino escravocrata situado dentro do território do Brasil, tão escravocrata quanto o Quilombo - o jornal O Cândido fez várias matérias sobre o assunto.

A mais destacada foi uma entrevista com Nei Lopes, advogado, escritor e compositor negro de 73 anos que é também um conhecido pesquisador de cultura africana e afro-originada. O discurso de Lopes é afinado com as teses racialistas: ele reage contra a "invisibilidade"dos negros e, sobre a Lei Áurea, afirma que "nenhuma de suas consequências foi implementada".


A trajetória e as ideias de Lopes indicam algumas coisas interessantes sobre a questão do racismo no Brasil - e é óbvio que há racismo no Brasil. Vou destacar algumas passagens da entrevista e comentá-las:
[...] só tomei consciência da questão social na década de 1960, quando ingressei na Faculdade Nacional de Direito.
Segundo o Ipeadata, o percentual da população brasileira com 25 anos e mais de idade e pelo menos 11 anos de estudo passou de irrisórios 1,07%, em 1960, para ridículos 2,00%, em 1970. E dizer que uma pessoa tem ao menos 11 anos de estudo significa, segundo essa fonte, que ela completou pelo menos 1 ano de ensino universitário, não que tenha conseguido necessariamente tirar o diploma!

Nesse sentido, Nei Lopes conquistou, na década de 1960, algo que pouquíssimos brasileiros, de todas as cores, tinham e continuam tendo: um título de bacharel. Ainda por cima, em direito, curso que, até os dias atuais, é considerado elitista. E esse título lhe rendeu uma carreira que ele efetivamente seguiu, posto que foi só na década de 1980 que abandonou a advocacia para ser compositor de música popular.

Mais uma dentre mil outras evidências claras de que, no Brasil, nunca houve barreiras institucionais para a ascensão social dos negros e o racismo não foi impeditivo para que negros chegassem à universidade, nem para que usassem seus diplomas com o fim de exercer profissões qualificadas. De fato, Lopes não diz, ao menos nessa entrevista, que tenha sido obrigado a vencer preconceitos raciais para chegar à universidade e para se firmar na profissão. Mesmo porque, se ele demorou até entrar na universidade para tomar "consciência da questão social", é razoável supor que, durante a infância e adolescência, nunca foi vítima de racismo e nem testemunhou pessoas próximas a ele sendo vítimas de discriminação racial.  

O que dificulta aos negros pobres chegar à universidade são a pobreza e a má qualidade do ensino público, exatamente os mesmos problemas que impedem os brancos e pardos pobres de conquistarem diplomas universitários.

Cotas contra o "desconforto"

Isso chama atenção para um outro trecho da entrevista em que Nei Lopes comenta a contribuição da cultura negra para a cultura brasileira:
Esta contribuição foi decisiva. Mas um fenômeno cruel começa a fazer efeito: é a apropriação de boa parte dessa contribuição, principalmente no campo da cultura, por outros segmentos. Começou na música instrumental, passou pela capoeira... E hoje chega ao exercício das artes culinárias. Quando certas atividades ganham prestígio, os afrodescendentes são excluídos de seu exercício. Por razões puramente econômicas.
O interessante nessa resposta é ele não mencionar o racismo como causa da dita "exclusão", já que as razões são "puramente econômicas". Mais adiante, ele defende a necessidade de "políticas de inclusão na mídia, na propaganda", tendo em vista que:
É bastante desconfortável, para nós, afrodescendentes, não nos vermos representados nos veículos de comunicação, nas campanhas de publicidade...
Como é próprio do racialismo, Nei Lopes considera que o combate ao racismo deve ser feito por meio de políticas racistas, no sentido de que forçam as pessoas a classificar umas às outras com base em critérios raciais para impor diferenciações na disputa pelo mercado de trabalho. Mas desde quando institucionalizar o racismo ajuda a combater o racismo? 

Num país como os EUA, onde os negros eram proibidos de estudar em universidades e foi preciso até mobilizar a guarda nacional para proteger estudantes negros de agressões quando essa proibição caiu, tal contradição até pode parecer uma boa ideia. Mas num país onde um Nei Lopes já conseguia se formar advogado nos anos 1960 e onde, conforme ele mesmo reconhece, são as barreiras econômicas que supostamente excluem negros de atividades de prestígio, que cabimento tem instituir cotas em telenovelas? Até porque, sendo o Brasil um país fortemente miscigenado, esse tipo de cota acaba excluindo o pardo.

Realmente, os pretos, segundo o critério de auto classificação usado pelo IBGE, são só uns 7% da população. Os pardos é que constituem mais de 40% do total, e são classificados como "negros" pelo racialismo para se chegar àquela metade de população "negra" brasileira. Mas, se for assim, como funcionaria uma política de cotas para negros em comerciais de margarina? 

Obviamente, os responsáveis pela contratação de garotos propaganda vão ter de decidir quem é negro e quem não é pela aparência. Para não correrem o risco de serem acusados de racistas e de descumprirem a cota, esses responsáveis vão classificar como negros aqueles que mais se aproximarem do perfil que o IBGE chama "preto", deixando os pardos, pobres ou não, em desvantagem. De fato, isso chegou a acontecer nas universidades brasileiras quando se iniciaram as políticas de cotas, como analisado no livro Não somos racistas, de Ali Kamel.

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Um comentário:

  1. O sistema de cota cria "privilégio" e não igualdade. Pra mim, deveria ser como a da FATEC e ETEC. Aqui, quem estudou em escola pública (independente de cor) tem um acréscimo de 20% sobre a nota final. Então tanto faz se o candidato é branco ou negro, veio do ensino público, tem uma porcentagem a mais.
    Conheço vários negros que estudam em escola particular, não trabalham e ainda fazem cursos de inglês, informática etc., não é justo que esse negro entre em um universidade por cota, pois ele irá disputar vaga com outro negro que trabalha e estuda em rede pública, ou seja, ele estará tirando a oportunidade de um negro pobre de ingressar no ensino superior. O mais justo seria entre tipo de ensino público/privado independente da cor.
    O problema não é a cor da pessoa e sim a condição social.

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