sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Invasores de prédio da UFPR inventam nova modalidade de usurpação do espaço público

Quem disse que geografia não serve para nada? Alunos da UFPR acabaram de inventar um novo tipo de invasão de propriedade pública e de usurpação de prerrogativas do Estado (no caso, da universidade). Vejamos a cópia do e-mail que o "movimento" mandou aos professores.
Mensagem às professoras e aos professores do curso de Geografia. 
Bom, como já deve ser do conhecimento de vocês, nós, estudantes da Geografia, decidimos ontem em Assembleia ocupar o prédio Prof. João José Bigarella como forma de protesto aos diversos desmandos dos nossos governantes que ameaçam nossos direitos. 
A carta em anexo - de leitura obrigatória - foca principalmente na questão educacional, mas também estamos atentos a outras questões que representam um verdadeiro retrocesso, como a extinção da Mineropar, o PLS 654/2015 que modifica as regras de licenciamento ambiental, a reforma da previdência social, a flexibilização da legislação trabalhista (acordos coletivos que se sobreponham a leis trabalhistas), a PEC 215 que passa para o Legislativo a competência para demarcação das terras indígenas, a extinção do MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário) e o PL 6583/2013 que busca instituir o Estatuto da Família. 
Como o governo federal ilegítimo não está disposto ao diálogo não nos restou outra alternativa.
A escolha do Bigarella em detrimento do prédio do CT deu-se para evitar o esvaziamento da mobilização. Caso ocupássemos o CT, estudantes deixariam de vir para a UFPR e não acompanhariam a mobilização. Em breve lançaremos um calendário de atividades e contamos com o apoio e participação de vocês. Por hora, passaremos em sala todos os períodos que tenham atividades e os convocaremos a participar. Acreditamos no potencial educativo desta mobilização e vocês também fazem parte deste processo. 
Caso queiram ingressar no prédio ocupado ou já tenham alguma atividade programada no mesmo, informamos que ele não está fechado, inclusive para estudantes da pós. Contudo, solicitamos que entrem em contato com antecedência (através do email: ocupageoufpr@gmail.com) e exponham as razões para a entrada, a qual será analisada e deliberada pelas(os) estudantes que estarão na ocupação.  
Lembramos que esta luta não é só nossa, mas de vocês também, que certamente serão afetados pelas medidas acima citadas.

“Quem não se movimenta não sente as amarras que o prendem” Rosa Luxemburgo

Noutra hora eu talvez reproduza trechos da carta de "leitura obrigatória". Por enquanto, vou fazer algumas observações a essa mensagem.

A primeira é que todo grupelho de invasores fala como se representasse interesses coletivos, mas a verdade é que eles não representam ninguém além deles mesmos e mais uma meia dúzia que concorda com suas ideias. Uma evidência disso se revela na própria mensagem acima: uns dias antes da invasão, o "movimento estudantil" havia declarado que os alunos da UFPR iam entrar em greve. Contudo, o "movimento" justificou a invasão de um edifício onde quase todo o espaço é ocupado por laboratórios de pesquisa e atividades administrativas dizendo que, caso invadissem o bloco didático, os alunos não viriam mais para a universidade... Ora, mas se a convocação da greve estivesse sendo atendida pela massa dos alunos, tanto o prédio invadido quanto todos os outros já estariam às moscas, não? Patético!

A segunda observação é que, ao chamar o governo federal de "ilegítimo" e apresentar uma pauta de reivindicações de âmbito nacional e estadual, os invasores deixam muito claro que seus objetivos principais são partidários, sendo a educação mais um pretexto do que um fim em si. Eles são militantes ou simpatizantes de partidos como PT, PSOL, PCdoB e outros que tentaram manter no poder uma presidente que cometeu crime de responsabilidade e agora tacham de ilegítimo um presidente que só chegou ao poder porque os eleitores de Dilma votaram nele para o cargo de vice-presidente... Ora, eu acho que Temer deve ser cassado pelo TSE, caso o dinheiro sujo do petrolão tenha irrigado o caixa da chapa Dilma/Temer, mas, se ou enquanto isso não acontecer, não há dúvida de que o governo é legítimo e que suas decisões, sempre que ancoradas na lei, têm de ser respeitadas por todos. Mas esses partidos só aceitam o resultado do jogo político quando vencem - exatamente como os geógrafos críticos (Diniz Filho, 2013).

Por fim, vale notar que temos uma interessante inovação aqui: ao invés de ocuparem o edifício  para impedir seu funcionamento, como sempre acontece, os invasores resolveram "apenas" outorgar a si mesmos a prerrogativa de controlar o acesso ao prédio e as atividades que ali se exercem. Basta que os professores encaminhem previamente um e-mail solicitando entrar e justificando o que vão fazer lá dentro que eles deliberam se deixam entrar ou não. Que mimo! 

Quem disse que a geografia crítica não pode ser útil para a invenção de novas formas de convivência coletiva e de normatização do uso do espaço? Se bem que talvez a inovação não seja tão original assim. Talvez seja mais correto escrever algo como "(re)invenção do território usado" (coisa bem ao gosto de geógrafos críticos). Afinal de contas, quando traficantes assumem o controle do espaço público numa favela, também não impedem as pessoas de ir e vir. Contanto que não se trate de policiais, qualquer um pode entrar nos territórios do tráfico se pedir autorização aos bandidos e/ou seguir umas poucas regras que eles impõem, como não circular de carro com os vidros fechados ou, como já aconteceu, não usar roupas de determinada cor...

A geografia crítica chocou o ovo da serpente!

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2 comentários:

  1. "(re)invenção do território usado" sempre detestei essa mania brega de usar (de) ou "re" geralmente seguida de um "significado" ou um "territorialização" da vida. Coisa mais brega, ao ler esses títulos eu já imagino um texto cheio de indignação moralista e acusações genéricas...

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    1. É verdade, Bruno, rsrsrsr... Esse cacoete acadêmico é uma das maneiras pelas quais os intelectuais críticos procuram afetar profundidade e sofisticação ao dizer banalidades.

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