segunda-feira, 20 de junho de 2016

Bolsonaro, Wyllys e a miséria da política brasileira

Recentemente, comentei que Jair Bolsonaro possui ideias afinadas com as do fascismo italiano, afirmação essa embasada numa pesquisa organizada por Leandro Narloch. Esse é um ponto em que o, digamos, "pensamento" de Bolsonaro se aproxima ao das esquerdas, tendo em vista que, segundo a mesma pesquisa, PCdoB e PT são os dois partidos cujos deputados mais se identificam com as ideias de Mussolini.

Bem, um comentário publicado sobre essa postagem afirma o seguinte, entre outras coisas:
Eu gostaria conhecer as respostas do Bolsonaro a cada uma das questões do Leandro, pois nem todas elas refletem idéias exclusivas do fascismo (as questões 1 e 5, por ex.). No caso do Bolsonaro deve-se considerar ainda a sua formação militar, baseada nos princípios da hierarquia, disciplina e ordem, sob a influência do positivismo, dos jovens turcos, da missão francesa e, mais recente, dos EUA. Além do mais, indivíduos podem mudar de idéias ao longo do tempo: anarquistas podem virar liberais, liberais viram conservadores, etc.

Na verdade, creio que poucas ideias fascistas e nazistas foram inventadas por essas correntes ideológicas ou eram exclusivas delas. Os discursos nazi-fascistas se construíram pela assimilação e reinterpretação de uma série enorme de ideias científicas, filosóficas, religiosas, artísticas, bem como de ideologias, anteriores à chegada de Hitler e Mussolini ao poder. De fato, o chamado "pensamento proto-fascista europeu" se constituiu entre as últimas duas décadas do século XIX e primeira década do XX. Teve também uma forte influência sobre a intelectualidade brasileira desse período, e daí por que tantos intelectuais brasileiros apoiaram Getúlio Vargas, o presidente mais parecido com Mussolini que o Brasil já teve. 

Assim, reconhecer as raízes e amplitude do fascismo não livra a cara nem do Bolsonaro, nem do PCdoB e do PT, conforme os dados da pesquisa.

Loucura e método

Mas é verdade que Bolsonaro muda. Só que tais mudanças não se devem a um esforço de reflexão (no sentido de ele rever suas opiniões à medida em que estuda mais ou por reconhecer que os fatos mudaram), mas sim a uma estratégia eleitoral.

De fato, o filósofo Eduardo Wolf publicou um interessante artigo na Veja com o objetivo de refletir sobre a ascensão eleitoral recente de Bolsonaro e, logo no começo do artigo, relembrou dois fatos importantes: a) em 1995, Bolsonaro subiu num palanque da CUT para discursar contra as reformas planejadas por FHC e chamou os militantes da CUT e do PT de "companheiros"! Naquele tempo, Bolsonaro dizia que FHC estava fazendo um governo "criminoso" e que merecia ser "fuzilado" por isso; b) coerentemente com esses atos e palavras, Bolsonaro apoiou Lula na eleição presidencial de 2002...

Como foi então que ele virou o grande porta-voz da velha direita tupiniquim, essa direita autoritária, intervencionista, nacionalista e preconceituosa que, até hoje, defende o regime militar? 

Em boa parte, a incoerência não é tão grande quanto pode parecer, tendo em vista que o PT também é autoritário, nacionalista e intervencionista, de tal sorte que muitas críticas de Bolsonaro a FHC faziam eco aos discursos petistas sem soarem estranhas para a nossa direita. E há também um segundo ponto coerente nessa mudança, que é a já mencionada estratégia eleitoral.

Como já escreveu Leandro Narloch, deputados como Jair Bolsonaro e Jean Wyllys investem no discurso ideológico ultra-radical como estratégia para se reelegerem deputados pela vida toda. Eles não são articuladores políticos capazes de se tornarem líderes importantes de partidos importantes, muito menos para almejarem a presidência da Câmara. E eles não têm cacife eleitoral para disputar prefeituras de grandes capitais, governos estaduais, vagas no senado ou a presidência da república. Deputados com esse perfil almejam apenas se reeleger deputados (objetivo esse que, em sim mesmo, não tem nada de negativo).

Realmente, esse tipo de deputado costuma se especializar num determinado tema (saúde, educação, etc.) e/ou procura fixar a imagem de defensor de uma categoria social com interesses nesse tema: o candidato dos professores, o candidato dos aposentados, etc. Esses grupos sociais, embora muito pequenos para viabilizar voos políticos mais altos, formam um eleitorado suficientemente numeroso para garantir várias reeleições para deputado. 

E isso tem tudo a ver com Bolsonaro: um capitão reformado que se apresenta como representante dos interesses de policiais e militares ao mesmo tempo em que dispara provocações grosseiras e retórica radical exagerada contra o inimigo político da vez, seja este um governo tucano, sejam os governos petistas. Mas, tanto num caso como no outro, a barulheira abre espaço no noticiário e nos palanques, construindo assim uma imagem que assegura votos cativos junto aos setor mais radical do eleitorado de direita.

Em suma, Jair Bolsonaro faz mesmo afirmações afinadas com o fascismo, como revela a pesquisa de Narloch, mas a coerência de seus atos e palavras com esse tipo de estratégia sempre deixa a dúvida de saber onde terminam suas convicções fascistoides e onde começa o cálculo eleitoral.

A culpa do PSDB e do DEM

OK, é correto objetar que essa análise foi superada pelos fatos recentes, devido ao crescimento do eleitorado bolsonarista. Com relação a isso, Eduardo Wolf levanta uma hipótese que eu considero muitíssimo pertinente, embora seja difícil prová-la de forma objetiva:
[…] não foi a radicalização do PT, com seu discurso rancoroso e sectário, que empurrou para os braços de Bolsonaro uma parcela significativa de um eleitorado antes simpático a outros nomes da oposição. Creio, na verdade, que o raciocínio é o oposto: foi a oposição que, por ausência ou omissão, deixou vago o espaço que o capitão da reserva agora vem ocupando com galhardia e vulgaridade. O fato é que, ao longo de doze dos mais de treze anos de governo do PT, a população ficou com a sensação (não sem fundamento) de que não houve oposição.

Jean Wyllys e Jair Bolsonaro 


Sim, Jean Wyllys confirma o que foi dito acima porque segue a mesma estratégia para se reeleger, embora foque em nichos diferentes do eleitorado: se diz defensor dos grupos LGBT e cultiva uma imagem de esquerdista radical. E por que Wyllys, que apoia o PT, também cresceu eleitoralmente? Talvez por polarizar ideologicamente com Bolsonaro ao mesmo tempo em que emula com ele no estilo cafajeste de expressar ideias - com direito até a cusparada!

Nesse sentido, a atitude covarde e conveniente dos partidos e intelectuais que (não) fizeram oposição aos governos do PT deixou o campo livre para Bolsonaro capitalizar o descontentamento de grande parcela da população e, por conseguinte, abriu espaço para que um esquerdista mequetrefe como Wyllys ganhasse apoio junto às pessoas que se indignam com as barbaridades ditas pelo capitão boquirroto.

Concluindo, tem razão Reinaldo Azevedo quando diz que os dois alimentam um ao outro. Mas complemento, com base em Wolf, que PSDB e DEM são talvez os maiores culpados pelo crescimento dos dois.

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