quinta-feira, 13 de outubro de 2016

"Profunditude" nos debates intelectuais e políticos brasileiros

O jornalista e escritor Carlos Orsi, que trabalha com divulgação científica, publicou um texto interessante sobre o conceito de "profunditude" e  a aplicação deste na análise de fenômenos políticos recentes. Vejamos uma passagem do texto:
"Profunditude" é minha tradução pessoal para o neologismo da língua inglesa deepity, usado pelo filósofo Daniel Dennett para se referir a frases e expressões que têm dois sentidos: um verdadeiro e banal e outro supostamente profundo, mas falso. Resumindo, a profunditute só é verdadeira na medida em que diz algo trivial ao ponto da irrelevância; quando se tenta ler algo de relevante nela, torna-se falsa. Parece complicado? Talvez alguns exemplos ajudem: pense, por exemplo, naquela velha pérola da autoajuda, encruzilhada da espiritualidade prêt-à-porter com a Lei da Atração, "pensamentos são coisas materiais".
Na medida em que pensamentos são mudanças eletroquímicas que ocorrem no cérebro, trata-se de uma afirmação perfeitamente verdadeira: afinal, processos eletroquímicos são eventos do mundo material. Nesse nível, a afirmação é a mera constatação de uma banalidade. Mas, claro, quem usa a frase não está, na maioria das vezes - perdão -, pensando nesse sentido: o que a pessoa quer dizer é que pensamentos, por si sós, são capazes de causar mudanças no mundo externo ao corpo de quem pensa. Afinal, coisas que transformam o mundo, como meteoros, vulcões e tsunamis, são materiais. Se o pensamento também é, abracadabra! Nesse nível, não-banal, a afirmação é escandalosamente falsa (Cf.: Profunditudes e o mundo pós-verdade - itálicos no original).

Esse conceito é interessante como ferramenta para a crítica intelectual porque, de maneira simples e rápida, expõe certos truques de retórica com os quais "pesquisadores militantes", ativistas e políticos tentam nos engambelar. Um exemplo bem pertinente para a geografia é a frase "a natureza não foi feita para o homem", Para qualquer um que não seja criacionista, essa afirmação não passa de uma verdade óbvia. Mas quem diz isso costuma completar a frase concluindo que, sendo assim, "não temos o direito de usar a natureza como se fosse um recurso". Aí, chega-se a uma conclusão que é falsa porque frontalmente contraditória com a premissa. Conforme eu já demonstrei neste blog, ao criticar a visão de natureza de Fritjof Capra, é justamente por não terem sido criados para atender às necessidades humanas que os ecossistemas não estão aptos a nos garantir vida longa, saudável e alimentação abundante. Logo, não faz sentido supor aprioristicamente que agricultura orgânica ou qualquer outro sistema produtivo que implique um mínimo de alteração dos ecossistemas vai alcançar alta produtividade. Nesse sentido, a frase "a natureza não foi feita para o homem" só deixa de ser profunditude quando dela se extrai a conclusão inversa: "é por isso que somos forçados a usar a natureza como recurso, tal e qual todos os outros seres vivos fazem". 

Outros exemplos de profunditude podem ser encontrados na obra de Milton Santos, conforme já demonstramos num artigo e num livro recentes (Loch; Diniz Filho, 2014; Diniz Filho, 2013). Ao usar o estudo do espaço para tecer uma crítica radical ao capitalismo, esse autor não vai além de fazer observações óbvias sobre a distribuição espacial de infraestruturas ou as desigualdades de renda observáveis na paisagem para então inferir que, num certos sentido, podemos dizer que lugares agem e mantém relações de poder entre si como se fossem pessoas. 

E também no debate político não faltam exemplos de profunditude, como já analisado neste blog. É o caso da frase "saúde não é mercadoria", usada como slogan por sindicalistas hipócritas que se opõem à EBSERH.

Bem, considerando que eu já desmontei esse tipo de retórica ambientalista, anticapitalista e sindical em trabalhos publicados e também aqui no blog sem usar o conceito de profunditude, é válido concluir que esse conceito não é uma ferramenta indispensável para a crítica dos discursos intelectuais e políticos, embora seja útil e interessante pela forma eficiente como identifica e expõe argumentos que fisgam o leitor quando começam dizendo uma verdade óbvia e o enganam quando sacam dali uma conclusão absurda.

Mas o perigo que cerca o conceito de profunditude não está no conceito em si, e sim na tentação de aplicá-lo na análise de fenômenos de massa, como a ascensão eleitoral de Donald Trump e o Brexit. Carlos Orsi discute de maneira pertinente a forma como esse conceito tem sido usado por alguns jornalistas estrangeiros, pois expõe os dois lados do debate. Ainda assim, ele incorre no erro de indagar se a eleição de João Dória para prefeito de São Paulo não seria sintoma de uma tendência recente do eleitorado brasileiro a se deixar levar por profunditudes e por argumentos puramente emocionais, sem qualquer base nos fatos concretos. Devo tratar desse tema no próximo post, que este aqui já está muito longo.

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