terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Visão de natureza de Fritjof Capra não justifica propostas de sustentabilidade ambiental

Uma das muitas explicações banais que são repetidas o tempo todo por geógrafos e cientistas sociais é a de que a chamada "crise ambiental" tem origem numa visão dicotômica da relação sociedade/natureza, visão essa cujas origens estariam ligadas à moral judaico-cristã e à racionalidade cartesiana. Essa visão estabeleceria que a natureza é apenas um recurso a ser utilizado pelo homem, o qual, no esforço de "dominá-la", geraria desperdício de recursos naturais e uma série de impactos ambientais insustentáveis no médio e longo prazos. A alternativa, portanto, começaria por adotar uma perspectiva holística da relação sociedade/natureza, que seria própria das "filosofias orientais" e de certas descobertas da ciência moderna, como as da física quântica, que supostamente confirmariam essa perspectiva. A partir daí, seria possível constituir sistemas econômicos e técnico-científicos sustentáveis, já que baseados na concepção de que a natureza é, ao invés de um recurso para o homem, um sistema complexo  do qual o homem faz parte.


Talvez o maior inspirador desse tipo de explicação banalizada seja Fritjof Capra, autor de O tao da física e de O ponto de mutação, entre outros livros de sucesso - em textos de epistemologia da geografia, ele é muito citado. O problema é que as pessoas não percebem que essa concepção romântica da natureza como um "todo" que inclui o homem e cuja unidade seria acessível ao conhecimento - a qual não é exclusividade do pensamento oriental, pois também está no cerne da filosofia idealista alemã, que influenciou Humboldt e Ritter - contradiz as tentativas de empregá-la para justificar formas sustentáveis de produção.

Um pequeno exemplo disso está num comentário ao post Agrotóxicos não fazem mal à saúde, mas nutricionista se contradiz para propagandear orgânicos. O autor do comentário, que é produtor agroecológico, defendeu esse método de produção (ao qual eu não me oponho), afirmando que, conforme diz Capra, em O ponto de mutação, "o homem não teceu a trama da vida ele é apenas um fio". 

Ora, conforme eu já expliquei há tempos, numa palestra, esse tipo de argumento traz uma contradição lógica que o invalida e inverte sua conclusão. É absolutamente verdade que o homem constitui apenas um fio na trama da vida, mas é por isso mesmo que os ecossistemas não foram feitos para que o homem seja bem alimentado, saudável e tenha vida longa. Para uma espécie qualquer fazer parte de um ecossistema, basta que os indivíduos que a compõem tenham uma taxa de sobrevivência razoável e que o mesmo suceda a seus descendentes. Se os indivíduos dessa espécie são bem ou mal alimentados, se têm verminoses ou não, se são doentes ou não, se vivem até os 20 ou até os 100 anos, não importa. Os ecossistemas são o que são, e ponto. Daí, nada ser mais lógico do que a necessidade de alterar profundamente os ecossistemas para podermos comer mais e melhor, viver mais tempo e de maneira mais saudável.

Não há espécie melhor para demonstrar isso do que o homem. As antigas sociedades de caçadores-coletores estavam em "harmonia" ou em "equilíbrio" com o meio ambiente por conta de sua baixíssima densidade demográfica, do estilo de vida nômade e do uso de tecnologias rudimentares. Na verdade, estudos feitos com os índios da bacia do rio Juruá, na Amazônia brasileira, indicam que o estilo de vida desses povos até contribuiu para a elevadíssima biodiversidade hoje existente na região. É que, ao cortar árvores de grande porte para construir suas aldeias, esses índios ampliavam a incidência de luz solar na floresta, abrindo espaço para o desenvolvimento de muitos espécimes de outras plantas que não teriam como sobreviver na sombra. Ao caçar animais, e migrar de área quando as presas de maior porte começavam a escassear, esses índios também auxiliavam o desenvolvimento de espécies que competiam com suas presas. Noutras palavras, povos caçadores-coletores como esse colaboram para o aumento da biodiversidade porque matam animais e plantas em pequena escala, impedindo que haja um predomínio muito forte de poucas espécies no ecossistema.

Retomando, cabe perguntar: qual era a expectativa de vida dos povos caçadores-coletores no alvorecer da humanidade? Meros 26 anos de idade, na melhor das hipóteses (ver aqui). Isso é um terço da longevidade encontrada nos países mais desenvolvidos do mundo moderno e metade daquela vigente nos países mais miseráveis, geralmente assolados por guerras. Pesquisas feitas em esqueletos de povos pré-colombianos mostraram que a grande maioria deles passava fome e/ou tinha carência de nutrientes básicos, especialmente ferro - uma exceção eram certas tribos do atual litoral brasileiro, que combinavam a proteína do peixe com uma variedade razoável de alimentos de origem vegetal. E isso sem falar que, entre caçadores-coletores de todos os continentes, imperava a violência entre tribos rivais e também entre indivíduos de uma mesma tribo ou família (ver abaixo). Em suma, a baixa densidade demográfica dos caçadores-coletores era reflexo, ainda que não exclusivamente, dessa baixíssima expectativa de vida.

É impressionante a falta de lógica elementar de certos argumentos usados pelos críticos mais radicais da modernidade. Eles dizem "a natureza não foi feita para o homem, logo, não podemos encará-la como um recurso a ser usado". Um caso óbvio de conclusão que contradiz a premissa. O correto é afirmar "a natureza não foi feita para o homem, logo, somos obrigados a usá-la como recurso se quisermos comer bem e ter vida longa e saudável". 

Se as intervenções que as sociedades modernas estão fazendo nos ecossistemas são sustentáveis ou não, é algo a ser analisado e debatido. Mas pensar que qualquer forma de produção que interfira o mínimo possível nos ecossistemas pode ser generalizada sem sacrificar a qualidade de vida conquistada por essas sociedades implica supor que a natureza foi feita para atender às necessidades humanas, o que é falso. O debate sobre sustentabilidade não pode se basear em concepções românticas de natureza, tal como a defendida por Fritjof Capra.

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5 comentários:

  1. Você terá de ler as paginas 11 a 18 do Ponto de mutação pra definir se o autor tem uma posição romãntica em relação do homem com o meio.
    A frase é do livro A Teia da Vida.
    Temos que lembrar é que somos a natureza e que desfrutar do que ha de recuros é um don natural porem não exaurir e comprometer a possibilidade futura.
    E então ( tudo está entrelaçado nada existe se não a presença de outros seres como a luz seria real se não houvesse algo para refletir?

    Realino Lopes.

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    1. A filiação desse autor às concepções românticas de natureza - embora referenciadas no pensamento oriental - já está explícita desde seu livro "O Tao da Física". Ademais, quem citou o Ponto de Mutação não fui eu, mas o autor do comentário ao qual eu estava respondendo no post.

      Na sequência, você mostra como o discurso desses que citam Capra é contraditório, conforme escrevi no post. Todos os seres vivos usam o ambiente como recurso, conforme demonstra a biologia evolutiva, mas os críticos radicais da modernidade dizem que não temos o direito de usar a natureza como recurso pelo fato de que esta não foi feita para o homem... Desnaturalizam o homem no momento mesmo em que afirmam a necessidade de vê-lo como parte intrínseca da natureza.

      Depois, você diz o óbvio, isto é, que não podemos usar os recursos naturais até exauri-los. Ninguém é tolo de discordar disso, conforme eu mesmo escrevi no final do texto: é preciso avaliar se as intervenções que estamos fazendo nos ecossistemas são sustentáveis ou não.

      O "X" da questão é que a maneira correta de proceder a essa avaliação não é insistir na visão romântica de natureza, mas usar os métodos da ciência dita newtoniana mesmo. Foi com base nessa ciência que nós constituímos as tecnologias que alavancaram a expectativa de vida do homem nós últimos cem anos, afinal de contas.

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  2. Tanta teoria para nada!
    É tão explícito o problema do abuso em relação aos recursos naturais e à desvalorização da vida que já não é necessário nenhuma dessas teorias para explicar de onde vem uma coisa ou outra. É fato e pronto! E é muito sério! E mesmo que alguns ficam numa posição bastante confortável porque ganham muito dinheiro com essas explorações ou outros quais se conformam apenas com o conforto de não se afligir com o problema, é só uma questão de tempo para atingir a todos.
    Como já postei em outro comentário, é tanto blá blá blá intelectual que termina servindo de piada! Do jeito que a coisa vai, o mundo acaba enquanto os intelectuais discutem qual teoria é melhor, quem é o mais inteligente, quem sabe mais...

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    1. Só porque alguém diz "isso é um fato e pronto", não quer dizer que realmente seja. Se você quer me convencer das coisas que afirma, tem de mostrar evidências para comprovar. Mas seus comentários neste blog já mostraram que seu modo de pensar é dogmático como os da geocrítica quase sempre são, algo que você explicitou agora, mais do que nunca, com esse papo de "é um fato e pronto".

      E não venha com essa hipocrisia de dizer que alguns que discordam de você só o fazem porque "ganham muito dinheiro". Você ganha dinheiro com agroecologia, então está defendendo seus interesses tanto quanto qualquer grande capitalista. O fato de ganhar menos do que grandes proprietários e gastar a maior parte de seus lucros com consumo, sem acumular capital, não muda o fato de que você defende interesses econômicos individuais tanto quanto qualquer outra pessoa.

      Finalmente, essa história de "o mundo acaba enquanto os intelectuais discutem" é uma retórica que visa interditar o debate instilando medo nas pessoas. "Façam o que eu digo sem discutir, ou o mundo se acaba"... É um dos exemplos de "patifaria retórica" que Schopenhauer poderia ter incluído em seu livro "Como Vencer um Debate sem Precisar ter Razão", se tivesse vivido para conhecer Al Gore, o IPCC, Greenpeace, etc.

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    2. EM TEMPO - Não esqueça de publicar esta resposta no seu blog e também nas redes sociais, hein?

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