segunda-feira, 27 de maio de 2013

Alunos preguiçosos praticam o socialismo sem saber (é, eu já fui aluno...)

Quando eu estava no primeiro ano do ensino médio, tive o primeiro contato com a geografia crítica. A professora não usava livro didático, não aplicava prova e dava poucas aulas expositivas. Quando fazia uma exposição, ficava só comentando assuntos políticos e econômicos do momento à luz de suas ideologias esquerdistas. No mais das vezes, organizava debates, sendo que a classe era dividida em dois grupos, um contra e outro a favor de determinada ideia ou proposta. Creio que o primeiro debate de todos foi "capitalismo versus socialismo". Houve um outro que tratava sobre pagar ou não pagar a dívida externa. Ao fim de cada debate, ela fazia um comentário sobre a discussão, posicionando-se. Assim, ficamos sabendo que ela era marxista, socialista e petista. Tudo bem ao gosto de um Paulo Freire da vida, autor do qual ela falava como se fosse um gênio. Mas, de geografia mesmo, não falou patavina.


Eu não tinha do que reclamar, pois me identificava com as ideias dela, intervinha muito nas discussões e me saía bem na argumentação. Recebia muitos elogios, e minhas notas bimestrais eram boas por estarem baseadas na participação, já que não havia provas. Mas, nos últimos meses do ano, talvez para que não saíssemos por aí reclamando que não tínhamos aprendido nada sobre geografia, ela nos mandou fazer trabalhos escritos sobre as regiões brasileiras. A turma foi dividida em cinco grupos, um para cada região, sendo que o meu grupo ficou com a região Sul.

Ora, eu pensei que, como de hábito, os membros do grupo iriam marcar uma reunião para dividir as tarefas. O tempo foi passando, e nada disso acontecer. Um dia, comentei com um aluno do grupo, que era meu amigo desde o pré-primário, sobre o trabalho. Ele deixou claro que estavam todos esperando que eu fizesse sozinho! Eu já conhecia bem o fato de que, num trabalho em grupo, sempre há um ou dois que se encostam nos outros e levam nota sem fazer nada. Mas eu já nem ligava, pois estava acostumado. Agora, deixar tudo para um só fazer, aí foi demais. 

Me senti tapeado, só que também não estava disposto a brigar com todos os meus amigos por causa disso. Me resignei a trabalhar sozinho, mas, para não me sentir um otário completo, decidi que ia fazer nas coxas. Como não existia Wikipedia, consultei a Barsa que havia em casa. Limitei a pesquisa a quatro verbetes, sendo um sobre a região Sul e um para cada estado dessa região. Copia daqui, resume ali, escrevi um texto a mão em algumas folhas de almaço, pus o nome de todos os membros do grupo e entreguei assim mesmo. Nem me dei ao trabalho de arranjar mapas ou gravuras para enfeitar. 

Não me lembro a nota que tiramos, mas era algo pouco acima do mínimo necessário para não ficar no vermelho. Como eu sabia que o texto era pobre, nem fui buscar o trabalho corrigido. Quem fez isso foi aquele meu amigo de infância. Ele veio depois me contar as críticas que a professora havia feito, com uma expressão visivelmente decepcionada. Ouvi a tudo com a maior indiferença. "Ela disse que você consultou fontes muito antigas". É, consultei, já que estávamos nos anos 1980 e a edição da Barsa que eu tinha à mão era de 1969! Fiquei só respondendo "ah, é?", com a maior cara de João sem braço. Depois, pensei: "e não é que ele tava tão crente que ia tirar dez às minhas custas que ainda se achou no direito de ficar decepcionado?!". 

Experiência socialista
A grande ironia dessa história toda é que a nossa professora socialista não ficou sabendo que o trabalho em grupo foi uma experiência prática de como o socialismo funciona. Afinal, o socialismo, especialmente na visão bocó desses professores freirianos, se baseia na máxima "de cada um segundo as suas capacidades e a cada um segundo as suas necessidades". 

Foi bem esse o caso ali. Todos os alunos precisavam de nota e, como eu era considerado o mais capaz nessa matéria (embora o mesmo não fosse verdade em outras), acharam que eu ia carregar o piano sozinho só para ganhar mais elogios da professora. Mas, sentindo-me explorado - até porque eu tinha de estudar para outras matérias nas quais não ia bem -, fiz um trabalho tosco. E assim as necessidades de todos foram atendidas de forma igualitária... e medíocre. Mas nem por isso a justiça foi feita, já que, embora reduzindo o esforço até o mínimo, trabalhei para os outros e obtive o mesmo retorno de todos que não fizeram nada.

E vale ressaltar que o resultado só alcançou a mediocridade porque nota é algo intangível que, por isso mesmo, pode ser distribuído a todos de forma indefinida. Mas e se a questão fosse produzir comida? Ora, se todos esperassem que o mais capaz produzisse sozinho, duas coisas poderiam acontecer. Eu produziria apenas o mínimo necessário para alimentar a todos, entregaria a produção para a professora, e ela dividiria entre todos igualmente. Nesse caso, ninguém passaria fome, mas ficariam todos com aquele gostinho de quero mais na boca. E eu estaria sendo explorado por parasitas, é claro! A segunda hipótese seria eu produzir o suficiente para alimentar apenas dois ou três do grupo, esconder uma parte da produção para o meu próprio consumo, e entregar o resto para a professora distribuir. Se ninguém percebesse o ardil, todos, menos eu, passariam fome. E, embora eu continuasse a ser explorado, ao menos teria reduzido a taxa de exploração. Por outro lado, se eu fosse descoberto, a professora socialista haveria de me castigar por aquela terrível demonstração de individualismo e egoísmo. 

Na época, eu não me dei conta de que esse era o resultado lógico a esperar de qualquer experiência socialista, já que, assim como nesse tipo de trabalho em grupo, trata-se de um sistema de incentivos no qual se espera que as pessoas vão cooperar entre si por solidariedade e também pelo prazer de realizar o bem comum. Agora, enquanto esse espírito socialista não aflorar no coração das pessoas, o jeito é mandar os egoístas e individualistas impregnados de cultura burguesa para um campo de trabalhos forçados, como foi feito em Cuba, na URSS, na China... Não é à toa que nenhum país socialista conseguiu vencer a desigualdade, a pobreza ou até a desnutrição, apesar das prisões em massa.

P.S. É por essas e outras que eu nunca mando meus alunos fazerem trabalhos escritos em grupo.

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2 comentários:

  1. A preguiça surgiu junto com o ser humano, enquanto o socialismo tem o que? 200 e poucos?
    Na prática, honestamente eu tb não consigo dissociar essa característica com essa teoria econômica. Na prática, é impossível dissociar alguns dos 7 pecados capitais de qualquer teoria econômica. Qdo lembro de capitalismo, lembro da ganância, por exemplo. Mas, justamente esse, a PREGUIÇA não combina com tecnologia e com desenvolvimento. Os países com melhores indicadores econômicos são capitalistas, os melhores indicadores SOCIAIS são capitalistas. Tudo que há de melhor hoje se dá graças a educação e capitalismo. Caramba, socialismo para quem (para os militantes de plantão, ok) e por que se não funciona na prática?


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  2. Ótimo texto! E o pior de tudo é que a história está aí para comprovar o fracasso socialista e mesmo assim muitas pessoas ainda insistem nesse sistema.

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