quinta-feira, 13 de outubro de 2016

"Profunditude" nos debates intelectuais e políticos brasileiros

O jornalista e escritor Carlos Orsi, que trabalha com divulgação científica, publicou um texto interessante sobre o conceito de "profunditude" e  a aplicação deste na análise de fenômenos políticos recentes. Vejamos uma passagem do texto:
"Profunditude" é minha tradução pessoal para o neologismo da língua inglesa deepity, usado pelo filósofo Daniel Dennett para se referir a frases e expressões que têm dois sentidos: um verdadeiro e banal e outro supostamente profundo, mas falso. Resumindo, a profunditute só é verdadeira na medida em que diz algo trivial ao ponto da irrelevância; quando se tenta ler algo de relevante nela, torna-se falsa. Parece complicado? Talvez alguns exemplos ajudem: pense, por exemplo, naquela velha pérola da autoajuda, encruzilhada da espiritualidade prêt-à-porter com a Lei da Atração, "pensamentos são coisas materiais".
Na medida em que pensamentos são mudanças eletroquímicas que ocorrem no cérebro, trata-se de uma afirmação perfeitamente verdadeira: afinal, processos eletroquímicos são eventos do mundo material. Nesse nível, a afirmação é a mera constatação de uma banalidade. Mas, claro, quem usa a frase não está, na maioria das vezes - perdão -, pensando nesse sentido: o que a pessoa quer dizer é que pensamentos, por si sós, são capazes de causar mudanças no mundo externo ao corpo de quem pensa. Afinal, coisas que transformam o mundo, como meteoros, vulcões e tsunamis, são materiais. Se o pensamento também é, abracadabra! Nesse nível, não-banal, a afirmação é escandalosamente falsa (Cf.: Profunditudes e o mundo pós-verdade - itálicos no original).

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Questão chave sobre 2018 não é o PSDB, mas o PMDB

O resultado das urnas nas eleições municipais mostra que os grandes derrotados foram Lula e o PT, enquanto Alckmin e o PSDB saíram vitoriosos. Então, o jornalismo político já avalia que o governador paulista tem grande chance de ser o candidato do PSDB em 2018 e especula se os tucanos vão conseguir superar suas brigas internas para se unir em torno dessa candidatura. Eu, porém, prefiro refletir como seria um eventual governo tucano que começasse em 2018 e, nesse caso, não há dúvida de que a grande questão é saber com que objetivo o PMDB poderia apoiar a candidatura e o governo de um tucano, seja ele quem for.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

"Aquarius": no cinema ou no planejamento, esquerdistas são sempre maus perdedores

O título do capítulo 2 do meu livro Por uma crítica da geografia crítica, publicado em 2013, é o seguinte: "a impotência das teorias críticas no domínio prático e a lógica dos maus perdedores". A segunda metade desse capítulo, em que são analisadas propostas de planejamento urbano e regional, faz uma revisão bibliográfica que pode ser resumida assim:

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Caso Cunha: geógrafos petistas pensam que todo mundo é igual a eles

Assinei uma petição online em favor do impeachment de Dilma Rousseff e outra pela cassação de Eduardo Cunha - ambas pelo Change.org, já que eu não prestigio a Avaaz de maneira alguma. Do mesmo modo, entendo que Michel Temer deveria ter seu mandato cassado, na medida em que, como a chapa pela qual ele se elegeu vice-presidente era única, o dinheiro do petrolão, se entrou nas contas de campanha de Dilma, beneficiou também a candidatura dele. São todos posicionamentos coerentes com a defesa da democracia, do Estado de Direito e da ética na política.

Bem diferente é o caso dos geógrafos petistas - expressão que é quase um pleonasmo... -, já que a grande maioria deles não se preocupa em defender princípios e nem em ser coerente com as teses que expõe em seus trabalhos acadêmicos. Realmente, a maior parte dos geógrafos e professores que se dizem "críticos" não tem autocrítica e, por isso, defende cegamente um partido que cometeu estelionato eleitoral e em cujos governos funcionaram os maiores "esquemas" de corrupção da história do Brasil!

terça-feira, 12 de julho de 2016

Viva os transgênicos! Abaixo o Greenpeace!

Já fui abordado na rua, umas três vezes, por militantes do Greenpeace doidos para me arrancar doações de dinheiro. Eu podia responder que estou com pouca grana (o que nem seria mentira), mas prefiro cortar logo a conversa dizendo a verdade: não tenho simpatia pelo Greenpeace.

Mas como alguém pode não simpatizar com uma organização que defende tão belas causas? Simples: repudio organizações que tentam me enganar com mentiras descaradas e que, ao defender causas inegavelmente belas, propõem "soluções" que, quando aplicadas, geram efeitos contrários aos prometidos.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Bolsonaro, Wyllys e a miséria da política brasileira

Recentemente, comentei que Jair Bolsonaro possui ideias afinadas com as do fascismo italiano, afirmação essa embasada numa pesquisa organizada por Leandro Narloch. Esse é um ponto em que o, digamos, "pensamento" de Bolsonaro se aproxima ao das esquerdas, tendo em vista que, segundo a mesma pesquisa, PCdoB e PT são os dois partidos cujos deputados mais se identificam com as ideias de Mussolini.

Bem, um comentário publicado sobre essa postagem afirma o seguinte, entre outras coisas:
Eu gostaria conhecer as respostas do Bolsonaro a cada uma das questões do Leandro, pois nem todas elas refletem idéias exclusivas do fascismo (as questões 1 e 5, por ex.). No caso do Bolsonaro deve-se considerar ainda a sua formação militar, baseada nos princípios da hierarquia, disciplina e ordem, sob a influência do positivismo, dos jovens turcos, da missão francesa e, mais recente, dos EUA. Além do mais, indivíduos podem mudar de idéias ao longo do tempo: anarquistas podem virar liberais, liberais viram conservadores, etc.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

A classe operária vai a Donald Trump!

Donald Trump e Jair Bolsonaro são duas caricaturas vivas de tudo o que pode haver de mais populista, oportunista e ridículo na política. E a ascensão eleitoral de ambos (muito maior no caso de Trump, na verdade) chama atenção para alguns fenômenos bastante irônicos. Neste post, vou tratar apenas do bufão norte-americano, deixando o fascistoide tupiniquim para o próximo.

O caso de Trump é interessante porque, embora a intelligentsia esquerdista aponte a xenofobia como um dos elementos definidores do pensamento conservador e suponha que este é uma expressão dos preconceitos das classes abastadas, o eleitorado de Trump mostra uma realidade muito diferente. De fato, embora Trump tenha cerca de 23% das intenções de voto no segmento mais rico da população, sua força eleitoral reside principalmente no grupo formado por homens brancos casados, sem diploma universitário, pertencentes à classe média e que trabalham no setor industrial (talvez não seja demais lembrar que, nos países desenvolvidos, mais do que no mundo em desenvolvimento, trabalhadores industriais integram a classe média).