sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O "manifesto" de uma geógrafa viúva da revolução

Uma afirmação de Milton Santos que se tornou emblemática durante a consolidação da geocrítica como corrente hegemônica da geografia era a de que essa ciência estava “viúva do espaço”. Contudo, os avanços sociais logrados sob o capitalismo (jamais reconhecidos por Santos e outros geocríticos) colocaram em xeque as visões que eles construíram acerca do espaço e das relações entre Estado, mercado e sociedade. Para piorar, o desastre socialista deixou os geocríticos viúvos da revolução, o que levou a maioria deles a substituir a tese da centralidade operária pelo discurso politicamente correto em favor das minorias sociológicas.

Nada melhor para exemplificar isso do que o tal “manifesto” que Ana Fani Alessandri Carlos escreveu sobre o bando que, recentemente, invadiu o prédio da administração da FFLCH-USP. Na falta da revolução socialista, seja pela via da luta armada, seja pela via eleitoral, o jeito é apoiar ou, pelo menos, mostrar-se complacente com qualquer ação política de grupelhos que ainda repetem o velho discurso crítico e radical de que Fani tanto gosta. No manifesto, ela afirma que a questão em jogo não é dar aos estudantes liberdade para consumir drogas no campus, mas sim o 
[...] modo como o uso da força é justificado pelas autoridades. Assim a presença impositiva de uma fileira de motos, um despropositado número de PMs no estacionamento do prédio da História/Geografia, para autuar três estudantes (antecedidos por blitz constrangedoras e cada vez mais freqüentes aos estudantes da USP) com seus gadgets, somados á bombas de “efeito moral” instauram o caos e impediram que a atividade fim da universidade se realizasse (*).
Quem ler essa passagem sem ter informações sobre os acontecimentos na USP pensará que a PM mandou um batalhão para prender três alunos e que fez uso de bombas de efeito moral somente para cumprir uma missão corriqueira como essa. Nada disso! A verdade foi que os policiais que realizaram a prisão foram atacados por outras pessoas, sendo que três policiais saíram feridos (dois deles, por pedradas). Os reforços, as bombas de efeito moral e o gás lacrimogêneo foram usados em resposta ao tumulto e, ainda assim, seis viaturas foram depredadas pelos baderneiros, como se pode ler aqui.

Tudo isso torna plenamente justificável a ação policial no caso, não havendo nada mais em jogo além de três coisas: o interesse de traficantes e usuários de drogas em continuar usando o campus como território livre, conforme já acontecia há décadas; o delírio autoritário de esquerdistas radicais que não abrem mão de usar a violência para a “construção da utopia”; por fim, o interesse de militantes e simpatizantes do PT e de outros partidos que controlam entidades como UNE, Adusp e Sintusp de aproveitar o episódio para desgastar politicamente o atual reitor e o governo paulista. 

E a motivação para o "manifesto" redigido por Fani, qual é? A última mencionada acima, é claro. Fani padece de uma esquizofrenia que acomete a maior parte dos geógrafos: ela é radical como Heloísa Helena, mas continua petista. Coisas de viúvas inconformadas.

(*) Texto completo, inclusive quanto aos erros de português, aqui.

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