sábado, 28 de setembro de 2013

Eu também odeio o Chris. Ou: da relatividade da pobreza

Quando falo aos meus alunos sobre a pobreza, costumo fazer a seguinte brincadeira: "vocês já viram a série Todo mundo odeia o Chris? Pois eu também odeio o Chris!". Começo a explicar o motivo dizendo que, como todos sabem, a história desse sitcom (que eu acho bem divertido, embora tenha visto poucos episódios) é fictícia, mas baseada na vida do ator Chris Rock, o qual também foi produtor executivo da série e narrador dos episódios. Acontece que boa parte das piadas tratam de quanto ele e sua família eram pobres: "a gente era tão pobre que dividia até o sono"; "a gente era tão pobre que isso e mais aquilo". Mas, quando eu observo o padrão de vida que os personagens levavam no período em que a série se passa, os anos 1982 a 1987, constato que, se ele era pobre, eu já fui miserável!


É certo que a série não espelha exatamente a vida do ator. Ele nasceu em 1965 e, portanto, a história que o seriado conta começou em 1978 - ele é quase da mesma idade que eu. E já me disseram que Chris Rock tinha cinco irmãos, ao invés de apenas dois, mas não fui verificar se isso é verdade mesmo. A questão é que, ainda que tenham feito mudanças para que o perfil da família se aproximasse um pouco mais da classe média, de modo a expandir o público potencialmente capaz de se identificar com os problemas dos personagens (nos EUA, dois terços da população são de classe média) o fato é que, aos olhos do telespectador americano, quem naquela época vivia tal como as pessoas retratadas no seriado vivem era pobre mesmo, pois só isso justifica aquelas piadas todas!

Então, vejamos: a família do Chris do seriado vive num apartamento de três dormitórios, tem telefone, carro e esse garoto ainda conseguiu comprar um outro carro para seu próprio uso (mesmo caindo aos pedaços) quando alcançou idade para começar a dirigir, segundo as leis americanas. Além disso, o apartamento logo acima daquele em que o Chris mora pertence também à família dele, e é alugado para complementar a renda. E nem adianta justificar esse patrimônio dizendo que, conforme se repete o tempo todo no seriado, o pai do garoto tinha dois empregos, uma vez que a mãe era dona de casa e só trabalhava fora quando surgia algum aperto financeiro. Ela largava o emprego imediatamente assim que as coisas voltavam ao normal, já que era geniosa demais para lidar com patrões.

Ora, nos anos 1980 e início da década seguinte, família brasileira que tinha casa própria, telefone e carro era de classe média! Se tivesse também apartamento para alugar, podia ser considerada de classe média alta. E nem era preciso ir à periferia para ver o contraste com os pobres americanos retratados na série. O primeiro apartamento que eu comprei, em meados dos anos 1990, tinha dois dormitórios, mas área útil de quitinete: 41 m2. E eu não tinha dinheiro para comprar carro (mesmo que desejasse um) e nem telefone: usava serviço de pager para economizar, pois tinha que pagar um empréstimo que fiz para tocar a compra daquele "apertamento". O prédio era antigo e tinha encanamentos de ferro que vazavam por todos os lados. Só a localização era boa: a umas três quadras da Avenida Paulista e, portanto, do metrô.

O seriado serve como exemplo para mostrar que o conceito de pobreza é muito relativo. À medida em que a renda per capita e o salário médio de um país se elevam, a percepção do que significa ser pobre muda radicalmente. O resultado disso é que, embora a população negra norte-americana tenha renda per capita e condições de saúde e de educação muitíssimo superiores às da população negra de qualquer outro país do mundo, pessoas como o ator Chris Rock crescem se sentindo paupérrimas.

Mas nem estou dizendo que os negros americanos reclamam de barriga cheia. Ninguém se compara com quem está longe dos olhos, e é natural que seja assim. A vida miserável de negros jamaicanos ou nigerianos jamais servirá de consolo para os negros dos EUA, pois eles se comparam com a população branca daquele país. Se chamo a atenção dos alunos para esse seriado é para ilustrar alguns fatos:
  • O desenvolvimento do capitalismo elimina a pobreza absoluta, entendida como carência de bens essenciais, e faz com que toda a pobreza seja apenas relativa. 
  • Em países desenvolvidos, e mesmo em países de renda média, como o Brasil, períodos em que ocorre aumento da concentração de renda não implicam empobrecimento da população em termos absolutos. 
  • No Brasil dos anos 1960, com efeito, a desigualdade de renda aumentou e a pobreza absoluta diminuiu. Portanto, livros didáticos como os de José W. Vesentini mentem quando afirmam que "os ricos ficaram mais ricos e os pobres mais pobres" ao tratar do tema.
  • Nos EUA, desde a época em que se passa Todo mundo odeia o Chris, a concentração de renda aumentou. No entanto, há famílias pobres que atualmente recebem auxílio alimentação do governo americano que têm, além de celular, computador com acesso à internet. Mas elas devem se identificar com o Chris quando ele conta aquelas piadas.
Quando alguém ver algum intelectual ou ativista político berrando que houve aumento da desigualdade aqui ou nos EUA, não deve se impressionar com isso. Em países desenvolvidos ou de renda média, desigualdade já não guarda relação com carência de comida e de outros produtos essenciais. Sendo assim, a desigualdade, por si só, não é problema nenhum.

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