domingo, 25 de março de 2012

Tese central de Santos, Harvey e Soja é só "malabarismo retórico"

Ao proferir uma fala sobre a geografia crítica, Paulo César da Costa Gomes fez uma afirmação de extrema importância. Ele disse que a definição de espaço como produto da sociedade encerra um problema epistemológico insolúvel, pois, se o objeto de pesquisa da geografia é apenas um reflexo, então qual seria a importância de estudá-lo? Em termos tanto científicos quanto sociais, o importante não seria estudar a sociedade que produz o espaço, ao invés de gastar energia tentando entender o reflexo que ela produz? 

Para contornar essa dificuldade, continuou ele, os geocríticos se veem forçados a realizar um enorme "malabarismo retórico" para justificar a ideia de que o espaço não é só reflexo, mas também uma instância "ativa". Ficam dando voltas e voltas para provar que o espaço é produto social e também produtor de relações sociais, mas que afirmar isso não significa cair num determinismo ou fetichismo espacial, pois o espaço não é algo externo à sociedade, mas uma instância da própria sociedade. 

Bem, conforme eu já comentei em outro post, Gomes não dá nomes aos bois. Mas nem precisa, pois qualquer um que já tenha lido David Harvey, Edward Soja ou Milton Santos percebe claramente o esforço desses autores para justificar a tese de que o espaço é um reflexo da sociedade que também age como determinante das relações sociais, mas que afirmar isso não implica qualquer ideia de determinismo ou fetichismo espacial. Aquela conversa de Harvey sobre a impossibilidade de pensar as relações sociedade/espaço como determinações unilaterais não é exatamente isso? E aquele papo do Soja sobre a "dialética socioespacial", retórica malandra que ele usa para afirmar que regiões são o mesmo que classes e grupos sociais e que, sendo assim, é possível dizer que há "regiões que exploram regiões"? (Diniz Filho, 2002).

Exemplo de malabarismo retórico tão explícito quanto esse de Soja é o que Milton Santos exibiu em seu libro O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Logo no início, ele diz que seu objetivo é mostrar que o espaço não é só um "palco" onde as coisas acontecem, mas também um "ator" (sic). Para  chegar a esse resultado sem cair num fetichismo espacial, o autor saiu-se com essa pérola:
Pode-se entretanto atribuir ao lugar, em si mesmo, esse poder? Ou o poder de comando e de regulação são deferidos a entidades públicas e privadas, dotadas de força? Sem dúvida, o exercício do poder regulatório por empresas e pelo poder público não é independente dos sistemas de engenharia e dos sistemas normativos presentes em cada lugar, mas este, em si mesmo, não dispõe de nenhuma força de comando. Retomamos assim a definição do espaço como um conjunto indissociável de sistemas de objetos e de sistemas de ação, consideração indispensável para não se atribuir valor absoluto à metáfora. Tomando essa cautela, pode-se dizer que há espaços que comandam e espaços que obedecem, mas o comando e a obediência resultam de um conjunto de condições, e não de uma delas isoladamente (Santos; Silveira, 2003, p. 265).
Como é que é?! Vou traduzir: Santos diz que o exercício do poder é um atributo das instituições, mas, como são necessários objetos para que as ações de poder se realizem, e como as ações também são espaço, pode-se dizer que, num certo sentido, são alguns lugares que mandam e outros que obedecem. É como afirmar que o professor ensina e o aluno aprende, mas, uma vez que as ações são espaço, e como são necessárias salas de aula, sistemas de iluminação, além de mesas e cadeiras para que as aulas aconteçam, podemos concluir que, num certo sentido, o lugar de onde o professor fala explica a matéria e o espaço onde estão as cadeiras dos alunos presta atenção...

Se alguém souber de outra forma de interpretar essa passagem do livro, pode me contar! Só não me venham dizer que eu é que não consigo entender a sutileza "dialética" do raciocínio dele, pois eu não caio nessa. Já nos anos 1990 eu destrinchei esse tipo de truque "dialético" na obra do Soja (ver aqui).

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DINIZ FILHO, L. L. Certa má herança marxista: elementos para repensar a geografia crítica. In: KOZEL, S.; MENDONÇA, F. A. (org.). Elementos de epistemologia da geografia contemporânea. Curitiba: Ed. da UFPR, 2002.

SANTOS, M.; SILVEIRA, M. L. (org.). O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. 5. ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 2003.

4 comentários:

  1. Quando li o, até então marxista, Manoel Castells em seu A Questão Urbana, ele deixava claro que não poderia haver uma teoria do espaço desvinculada da sociedade. Eu não concordo com isto porque acho que podemos, muito bem falar de encostas e isotermas sem mencionarmos as cidades, mas eu entendi o que autor disse. O que me espanta nesses 'espaciólogos', muitos dos quais geógrafos é que há uma necessidade muito grande de converter o espaço em uma categoria autônoma, auto-suficiente teoricamente, ao mesmo tempo em que criticam os positivistas por sua busca obstinada por um objeto e adoção da lógica-formal. Em contraposição, sua mítica 'lógica dialética' lhes indicaria, automaticamente, o objeto a ser estudado. Algumas situações que vivenciem me mostraram quão estúpida é esta forma de pensar: certa vez encontrei uns estudantes de física na USP, na época em que fazia meu mestrado e empolgado com este discurso dos geógrafos de então lhes perguntei:
    -- Como vocês estudam o espaço? -- os sujeitos devem ter me tomado por um idiota ou, na melhor das hipóteses, alguém drogado e responderam com outra pergunta -- De que forma? -- Ou seja, não se estuda o espaço em si, como se não fosse uma condição entre objetos dada pela distância ou outras categorias. O vácuo em si não é o que o importa e as categorias utilizadas têm que vir acompanhadas de conceitos precisos e não meras metáforas com as quais estes pesquisadores se torturam em uma espécie de onanismo epistemológico.
    Outro caso interessante foi quando tive aula (se é que aquilo podia se chamar assim...) com Ana Fani Alessandri Carlos e ao eu ter feito um comentário citando Richard Hartshorne, para quem as ciências não se dividem por seus objetos, mas por seus métodos, pois afinal, tanto a geografia como a biologia podem estudar o meio ambiente a supracitada professora me respondeu que cometi uma falha "porque Hartshorne é um neopositivista". E? E... Qual a sequência do argumento? Nada. Simplesmente parou por aí.
    Diniz, sinceramente, este pessoal, os espaciólogos têm que ser denunciados mesmo, com artigos e posts, pois o que fazem é um verdadeiro estelionato científico.

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  2. Cara, tanto o Richard Hartshorne quanto o Fred Schaefer devem ter se revirado em suas tumbas quando a Fani disse que o primeiro é "neopositivista"!! Além de fazerem onanismo epistemológico, ainda cometem erros grosseiros. Tomate virtual neles!

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  3. Acho David Harvey o maior Geógrafo de todos os tempos, ele possui a capacidade de elaborar idéias e conseguir seguidores. Não se satisfaz apenas em criticar aquilo que ja foi estabelecido.

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  4. Essa de questão de ser "o maior de todos os tempos" é mais compreensível no show bussiness do que na ciência propriamente dita. Agora achar "o maior de todos os tempos" por "elaborar idéias" e "conseguir seguidores", eu vou elaborar umas ideias: você não sabe o que é ciência e, por não saber, você confunde ciência com ideologia ou militância (que dá no mesmo). Além do mais, esse maldito vício moderno de se ater a conceitos, métodos e teorias sem remetê-los à realidade, averiguando-os para que, dessa forma, eles correspondam a ela, ou é mero exercício masturbatório de um ego inflado ou é vigarice pura.

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